Para debater como a otimização de insumos e a integração de processos transformam a rentabilidade do setor, João Paulo Vaienti Alves dos Santos, Engenheiro Agrônomo, Sócio-Diretor da Cowtech-Consultoria e palestrante no Interleite Brasil 2026, traz uma perspectiva prática sobre o real significado da produção sustentável. De acordo com o especialista, o termo precisa ir além do discurso teórico.
No cenário atual, “sustentabilidade está diretamente relacionada à capacidade de se produzir com máxima eficiência, utilizando todos os recursos disponíveis dentro de uma propriedade — sejam eles tecnológicos, como máquinas e equipamentos, ou, principalmente, os recursos gerados dentro da própria fazenda. Trata-se de fechar ciclos produtivos de maneira eficiente e consistente”.
Essa mudança de mentalidade exige que o produtor encare sua propriedade sob uma nova ótica gerencial e técnica. A eficiência zootécnica passou a depender obrigatoriamente da eficiência agronômica, criando um elo indissociável entre o campo e a ordenha. O especialista é categórico ao afirmar que as fazendas que alcançam os melhores resultados financeiros são aquelas que aprenderam a dominar a produção de alimentos com excelência, transformando o volumoso no coração do negócio. Como aponta Santos, “no passado, a produção de leite era tratada de forma mais dissociada da agricultura de alta performance. Hoje, essa separação não faz mais sentido. O produtor de leite eficiente precisa, necessariamente, ser um agricultor eficiente”.
O rigor técnico atrás do alimento de qualidade
Ser um pecuarista que domina a agricultura, no entanto, exige um nível de critério que muitas vezes supera o do agricultor tradicional de grãos. Enquanto este último foca prioritariamente no volume colhido por hectare, quem produz leite lida com a complexa equação de equilibrar quantidade, janela de colheita e valor nutricional.
O ponto de corte da silagem, o processamento dos grãos e as análises bromatológicas são fatores que ditam se o rebanho expressará seu potencial genético ou se a fazenda amargará prejuízos na calha de trato. Santos explica que o produtor de leite “precisa ir além do volume. Ele precisa garantir qualidade do alimento produzido e isso obriga o mesmo a ter conhecimento de quais medidas e práticas agronômicas são as mais corretas para se produzir um alimento de qualidade”. Esse desafio técnico obriga o gestor a dominar conceitos complexos de nutrição vegetal e animal, compreendendo parâmetros como matéria seca, proteína bruta e, principalmente, a digestibilidade da fibra gerada na propriedade.
Além da exigência nutricional, a eficiência no uso da terra se tornou um divisor de águas entre propriedades lucrativas e deficitárias. Manter o solo ocioso ou em pousio prolongado após a safra principal tornou-se um erro estratégico inadmissível diante dos custos de produção modernos. A terra precisa trabalhar o ano todo de forma inteligente e protegida. De acordo com o diretor da Cowtech, práticas conservacionistas, como o uso de culturas de inverno e plantas de cobertura, deixaram de ser opcionais para se tornarem os verdadeiros “pilares da sustentabilidade dentro da produção leiteira”. O manejo correto do solo garante a sustentabilidade do negócio a longo prazo, protegendo o patrimônio contra a degradação e maximizando o retorno por metro quadrado.
Visão 360° e o fechamento de ciclos no confinamento
Para consolidar essa engrenagem, o produtor e o corpo técnico precisam adotar uma visão holística e estratégica de toda a propriedade, adaptando as soluções para as particularidades climáticas e geográficas de cada região do Brasil. Um dos maiores exemplos de inteligência de recursos está no reaproveitamento estratégico dos resíduos do rebanho, especialmente em modelos de confinamento como o compost barn, que hoje predomina no país.
Santos ressalta que o produtor percebeu ser muito mais viável especializar-se na produção de forragens do que no manejo de pastagens, mas alerta para a necessidade de tratar os dejetos gerados com rigor técnico. Segundo ele, é preciso “discernir e esclarecer que o ‘lançamento de dejetos’ é muito diferente de projetos concretos e bem realizados para o uso de compostagem e adubação orgânica”, uma vez que o material precisa ser devidamente tratado e transformado em composto orgânico para que as plantas possam, de fato, aproveitar os nutrientes e reverter o investimento em fertilidade do solo.
Trata-se do verdadeiro conceito de sustentabilidade: integrar processos, fechar ciclos e maximizar eficiência. Esse modelo já está presente nos sistemas mais eficientes e tende a se consolidar cada vez mais como base da produção de leite rentável.
Atingindo o ápice de eficiência
Por fim, a fazenda moderna atinge seu ápice de eficiência ao integrar conceitos de agricultura de ponta, como a rotação de culturas e o uso estratégico de plantas de cobertura para a formação de biomassa. Espécies como a braquiária, quando plantadas após as lavouras principais, exercem múltiplas funções no ecossistema da propriedade: protegem o solo, combatem plantas daninhas e geram um valioso excedente de carbono.
Esse carbono residual pode ser direcionado para a reposição de camas no compost barn, como fonte de matéria-prima para as leiras de compostagem ou até mesmo como volumoso e fonte de fibra para categorias animais específicas. Ao cruzar dados agronômicos com resultados financeiros, fica claro que reaproveitar o que antes era visto como descarte é o caminho definitivo para a independência de insumos externos. Trata-se, fundamentalmente, de usar a inteligência e a integração para consolidar um sistema produtivo que seja, ao mesmo tempo, altamente rentável e ambientalmente equilibrado.
Durante sua participação no Interleite Brasil, João Paulo irá se aprofundar na temática da inteligência de recursos e como ela pode ser aplicada para aproximar as propriedades de seu pico de eficiência. Saiba mais sobre o Interleite Brasil 2026 clicando aqui.