Para ela, a sensibilidade feminina é uma força, mas foi o exercício constante de pensar com a razão — deixando o emocional de lado nas horas decisivas — que permitiu à fazenda atravessar um dos momentos mais desafiadores de sua história recente.
Quando crescer exigiu mudar tudo
Em 2022, a propriedade chegou a um limitante claro: mão de obra escassa, genética desafiadora para o sistema adotado e área insuficiente para expandir a produção. O modelo precisava ser revisto.
A falta de mão de obra, em vez de se tornar um obstáculo definitivo, abriu espaço para uma solução estrutural: a formação de um condomínio com a propriedade da irmã. A decisão não foi apenas operacional — foi estratégica.
Em 2023, as duas propriedades foram unificadas. O rebanho passou a ser concentrado em uma área, enquanto as culturas ficaram em outra. A mão de obra tornou-se essencialmente familiar. A reorganização permitiu escala, melhor divisão de funções, crescimento econômico e, principalmente, mais qualidade de vida para as duas famílias envolvidas. Foi uma decisão que redefiniu o rumo do negócio.
A virada genética: da limitação ao alinhamento com o sistema
Outro ponto crítico estava no próprio rebanho. A fazenda trabalhava com a raça Holandesa em sistema de pastejo — uma combinação que elevava custos e não conversava plenamente com o modelo produtivo adotado.
Edilce iniciou então um estudo aprofundado sobre genética neozelandesa. O interesse pela raça KiwiCross surgiu a partir da necessidade de alinhar o tipo de vaca ao sistema a pasto com complemento de silagem.
A mudança não foi feita de maneira impulsiva. Ela buscou profissionais para auxiliar na implantação da nova genética, garantindo segurança técnica e responsabilidade no processo de transição.
Os resultados já são perceptíveis
Desde o nascimento, as bezerras apresentam rusticidade, voracidade por pastagem e sanidade compatível com o sistema. As vacas adultas expressam fertilidade e adaptação ao pastejo — características essenciais para reduzir custos e aumentar eficiência dentro da lógica produtiva escolhida. A genética deixou de ser um desafio para se tornar aliada do sistema.
Conhecimento técnico é responsabilidade do produtor
Em 2023, outro movimento estratégico foi iniciado: a implantação de campos demonstrativos de híbridos de milho dentro da propriedade. A iniciativa ampliou o domínio técnico sobre a cultura e sobre o processamento da silagem.
Mais do que produzir alimento volumoso, Edilce decidiu estudar profundamente cada etapa do processo: escolha do híbrido, plantio, adubação e, principalmente, o processamento da silagem. Ela inclusive acompanha pessoalmente a colheita.
Se algo está fora do padrão, intervém. Sobe nas máquinas. Ajusta. Questiona. Para ela, o processamento da silagem define o sucesso ou o fracasso do complemento alimentar que as vacas receberão ao longo do ano.
A postura é clara: aquilo que está sob responsabilidade do produtor precisa ser fiscalizado e acompanhado de perto. Além do ganho técnico, os campos demonstrativos também abriram a propriedade para troca de conhecimento com outros agricultores, fortalecendo o ambiente de aprendizado coletivo.
Nem tudo está sob controle — mas a atitude está
Edilce reconhece que, na produção de leite, não se controla tudo. O clima pode comprometer culturas, a falta de chuvas impacta o planejamento, o estresse térmico pode desencadear mastite. Mas, diante das adversidades, o diferencial está na capacidade de saber qual atitude tomar.
Conhecimento técnico, preparo e foco são as ferramentas que permitem reagir com rapidez e reduzir perdas quando os imprevistos surgem.
Ser mulher no leite: foco, identidade e preparo
Ao falar sobre a presença feminina na bovinocultura leiteira, Edilce é direta: “Não se comparem. Cada mulher é única. Cada uma possui talentos próprios — e são eles que constroem identidade e espaço dentro de um ambiente ainda majoritariamente masculino”.
Para ela, manter a feminilidade não é incompatível com a liderança técnica. O que faz diferença é o preparo. “Estudar é indispensável. A atividade é desafiadora e exige capacitação constante. Ter foco no que se quer construir ajuda a enfrentar preconceitos que ainda existem no setor. Mais do que ocupar espaço, é preciso estar pronta para sustentá-lo com resultado”, conclui.
Vale a pena ler também: Especial Leite por Elas, Jamile Casarotto: "é na fazenda que deposito os meus planos futuros e onde construí a minha identidade profissional"
