Dia Mundial do Meio Ambiente: tudo é diverso na natureza e na produção leiteira

No respeito a diversidade do meio ambiente se faz um leite ambientalmente mais saudável! Que pratiquemos diversidade e manejo ambiental de nossos sistemas leiteiros todos os dias do ano.

Publicado em: - 5 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Sem tempo? Leia o resumo gerado pela MilkIA
No Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, a ONU foca no tema das mudanças climáticas. A mensagem central é a importância da diversidade no meio ambiente e na produção leiteira, destacando que uma abordagem sistêmica é crucial para ganhos ambientais. A reflexão sobre as práticas atuais dos produtores é necessária, considerando as especificidades de cada ator na cadeia produtiva. Além das emissões de gases de efeito estufa, outros aspectos, como a emissão de amônia, também precisam ser abordados para um manejo ambientalmente saudável.
Neste 05 de junho o mundo comemora mais um Dia Mundial do Meio Ambiente. A data foi estipulada na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) em 1972 na histórica Conferência de Estocolmo. Primeira conferência mundial a colocar o meio ambiente no centro das discussões globais. Todo ano a ONU elege um tema a ser tratado durante as comemorações. Este ano o tema é mudanças climáticas. A campanha solicita a todos para que nos envolvamos #AgoraPeloClima e direcionemos nossas ações para frear os impactos negativos das mudanças do clima no mundo.

Uma das coisas que torna a natureza maravilhosa é sua diversidade. Ver um ambiente diverso nos enche muito mais aos olhos do que um ambiente monocromático, sem as cores da natureza.

Figura 1. Diversidade ambiental e produtiva é estratégia para uma produção leiteira ambientalmente saudável.

Sistemas leiteiros são ambientes diversos. Entender a atuar em cada elo desta diversidade é o que irá diferenciar uma abordagem pontual, sem grandes ganhos ambientais, de uma abordagem sistêmica, com grandes ganhos ambientais e maior agregação de resiliência ao sistema.

Como estas datas mundiais nos levam sempre a reflexão, perguntas que pipocam na cabeça: 

  • O que estamos fazendo e/ou deixando de fazer no presente em termos ambientais?
  • O que devemos fazer para garantir um futuro ambientalmente saudável para a atividade leiteira brasileira?
  • Meio ambiente está sendo considerado na tomada de decisão de produtores(as) e do setor?

Como já disse um sábio: não queira dar respostas simples a perguntas complexas!

  • Para responder a cada uma destas perguntas se faz necessário, antes de tudo, outra pergunta: a quem estamos respondendo? 
  • Estamos respondendo a maioria dos produtores deste país que produzem de 200 a 500 litros de leite por dia? 
  • Estamos respondendo aqueles produtores(as), que nos últimos anos, intensificaram seus sistemas produtivos, tendo ganhos de escala, dependendo cada vez mais de insumos externos a propriedade (ração, fertilizantes, energia, etc.)?
  • Estamos respondendo a indústria, que estabelece metas ambientais corporativas e que para cumpri-las sabe que seus fornecedores (produtores) são parte fundamental?

Enfim, não é objetivo deste texto dar as respostas para cada possível ator. Para isso, teríamos conteúdo para escrever um livro. A mensagem é: as melhores respostas são as que consideram as especificidades (produtivas, econômicas, ambientais, sociais e culturais) de cada ator. Se não conhecermos as necessidades, capacidades e ambições de cada um dos atores. Não teremos as melhores respostas.

Continua depois da publicidade

A resposta que vale para todos, independentemente a quem estamos respondendo, é: se quer manejar ambientalmente fazendas leiteiras, entenda e atue no sistema produtivo e não em seus elos em separado. 

Parece uma resposta boba, mas a maioria dos profissionais que assistem os produtores, sejam eles de instituições pública ou privada, têm dificuldade em entender o sistema produtivo. É o especialista em nutrição, reprodução, sanidade, gestão, etc. Pior ainda na questão ambiental que são muitos poucos(as) os especialistas. Não estou defendendo que não temos que ter especialistas, mas sim que todos os especialistas saibam como sua especialidade se relacionada com as outras áreas, bem como com as dimensões social e econômica da atividade.

Por exemplo, uma resposta padrão seria: precisamos saber cuidar da água e usar ela com eficiência. Ok, mas as práticas e manejos que temos disponíveis para isso diferem de ator para o ator.

Um produtor(a) de 200 litros de leite por dia, o qual tem uma baixa demanda hídrica, gera um pequeno volume de dejetos. Ele dificilmente terá viabilidade econômica para irrigar e tem baixo poder de investimento. A lição básica é: avaliar o sistema e enxergar onde ele pode ser melhorado, ou seja, focar em mudanças de cultura produtiva (sem custo) para ter um uso mais eficiente da água e, consequentemente, menor geração de dejeto.

Continua depois da publicidade

Para esse produtor o pacote básico de manejo de dejetos (coletar-armazenar-distribuir) pode não funcionar porque este pacote demanda elevados investimentos de armazenamento (lagoa) e distribuição (tanque ou fertirrigação). Então outras rotas tecnológicas, que já existem, devem ser propostas.

Agora, vamos imaginar que estamos respondendo para aquele produtor(a) que anos atrás tinha 40 vacas em lactação em um sistema semi-intensivo e hoje ele tem 200 vacas em lactação em sistema de compost barn. Enquanto as 40 vacas produziam em média 20 L de leite/dia e tinham uma necessidade hídrica total entorno de 2.400 L de água/dia, para os animais em compost a demanda será de 16.000 L de água/dia. E não é só isso!

O sistema tende a gerar uma quantidade de 8.000 L de dejeto/dia. Ou seja, a demanda hídrica deste sistema e sua capacidade de geração de dejetos faz com que o que se proponha em termos de práticas e tecnologias seja muito diferente daquele produtor de 200 L de leite/dia. Nestas fazendas é comum ver a mudança da escala produtiva, mas a lagoa (esterqueira) continua do mesmo tamanho. Erro básico!

Um outro lado da moeda! Se tudo é diverso na natureza e na produção leiteira, porque parece aos olhos de muitos, que a única questão ambiental a qual a atividade deve se debruçar é quanto a emissão de gases do efeito estufa? E ainda de forma mais específica a emissão de metano entérico. 

Entre os estufa, a atividade leiteira pode, potencialmente, emitir gás carbônico, metano (entérico e dos resíduos) e óxido nitroso (a partir do uso do dejeto como fertilizante e/ou em processos de compostagem). O carbono virou o samba de uma nota só. Se resolvermos o problema das emissões entéricas, todo problema ambiental está resolvido. Uma visão muita ingênua, de quem tem nenhum ou pouco conhecimento ambiental.

Por exemplo, existe um gás que não é estufa, mas extremamente tóxico para humanos e animais e, emitido diariamente, pelos sistemas de produção, o gás amônia (NH3) de odor forte e pungente. Este gás é uma preocupação mundial, mas pouco falado no Brasil, a não ser nos sistemas de compost barn.

O carbono é parte de um quarteto fantástico. Este quarteto permite que produzamos qualquer alimento, pois sem ele, a vida não seria viável neste planeta. Produzir leite é se utilizar e interferir nos ciclos do quarteto. Enfim, não é só carbono, é muito mais do que isso. Se queremos evoluir ambientalmente, temos que entender os ciclos biogeoquímicos. Utilizá-los a nosso favor, mas preservando-os, pois é assim que o planeta funciona.

Figura 2. Os quatro ciclos fantásticos para produção de leite.

Se conflitos bélicos ao redor do mundo interferem nos preços de combustíveis e fertilizantes, estamos falando de rupturas nos ciclos do carbono, nitrogênio, fosforo e potássio. Se secas, em determinadas regiões do país, interferem na geração de energia hidroelétrica, estamos falando em ruptura do ciclo da água.

Se temos um incorreto manejo do solo e uso de fertilizantes químicos e orgânicos iremos poluir as águas e emitir gases do efeito estufa, estamos falando dos ciclos do nitrogênio e do fósforo. Se as vacas estão excretando elevadas concentrações de nitrogênio ureico, estamos falando do ciclo do nitrogênio. No respeito a diversidade do meio ambiente se faz um leite ambientalmente mais saudável! Que pratiquemos diversidade e manejo ambiental de nossos sistemas leiteiros todos os dias do ano.

QUER ACESSAR O CONTEÚDO? É GRATUITO!

Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no MilkPoint.

Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Julio Cesar Pascale Palhares

Julio Cesar Pascale Palhares

Pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?