Neste artigo, vou explorar os resultados de um estudo que fiz com um grupo de pesquisadores, publicado na renomada revista Journal of Agribusiness in Developing and Emerging Economies. O artigo original pode ser acessado aqui: https://doi.org/10.1108/JADEE-09-2025-0423
No estudo, utilizamos dados do programa Educampo-Leite do Sebrae. Foram mais de 1.200 fazendas observadas entre 2014 e 2024, em Minas Gerais. As fazendas tinham, em média, 107 hectares, produção diária de 1.883 litros e 104 vacas, sendo 84 em lactação (81%). O preço médio recebido pelo leite (corrigido para 2024) foi de R$ 2,47/litro, enquanto o custo total médio ficou em R$ 2,29/litro. O método estatístico foi robusto para analisar um grande número de fazendas ao longo de anos, isolando efeitos regionais e individuais (clima, solo, escolaridade do produtor etc.).
O primeiro resultado que chama atenção: na média, as fazendas operam em regime de economia de escala, com elasticidade média menor que 1 (Figura 1). Isso quer dizer que, se a produção dobrar (aumentar 100%), os custos sobem só ~75%, não dobram – liberando margem para o produtor de leite. Ponto chave: o produtor de leite brasileiro ainda deixa dinheiro na mesa e pode ganhar competitividade.
Figura 1 – Distribuição do coeficiente de economias de escala das fazendas leiteiras do Programa Educampo do Sebrae-MG (2014-2024). Note que a linha verde no centro dos boxes representa a mediana dos coeficientes (entre 0,7 e 0,8).
Analisando o coeficiente de escala por tamanho de fazenda, identificamos que as menores têm coeficiente menor. Isso significa que os produtores com menor volume poderiam ganhar mais ao expandir a produção, pois seus custos subiriam menos que nos grandes. Produtores menores estão deixando mais dinheiro na mesa do que os grandes.
O segundo resultado: os custos subiram consistentemente, elevando a escala mínima viável (break-even) de 822 litros/dia em 2014 para 1.096 litros/dia em 2019 (+33%) e 1.164 litros/dia em 2024 (+42%) (Figura 2). Produtores abaixo desses volumes provavelmente operaram no prejuízo.
Figura 2 – Custo Total Médio (ATC), Preços médios (Average Price), Produção média (Aver.) e Break-Even dos produtores de leite participantes do Programa Educampo do Sebrae-MG em 2014, 2019 e 2024.
Apesar da produção média dos produtores Educampo ficar acima do mínimo viável (1.574 litros/dia em 2014, 1.889 litros/dia em 2019 e 2.169 litros/dia em 2024), cerca de 68% deles ainda operou abaixo desse patamar.
Essa situação se agrava quando olhamos para os dados oficiais. De acordo com o último Censo Agropecuário, a produção média em Minas Gerais variou entre 41 e 283 litros/dia, ou seja, bem abaixo do viável. Essa não é uma comparação perfeita, mas dá uma dimensão do problema no Brasil.
Um detalhe importante na figura 2 é a inclinação das curvas de custo. Nas fazendas com volumes menores que 2.000 litros/dia, os aumentos de produção reduzem mais acentuadamente os custos unitários (maior inclinação) do que acima de 2.000 litros/dia (menor inclinação).
Por fim, encontramos uma forte relação entre volume e preço (figura 3). Quanto maior o volume produzido, maior é o preço recebido pelos produtores. Isso reflete políticas de pagamento que incentivam a escala, mas penalizam aqueles que não têm acesso à crédito e assistência técnica para expandir suas operações.
Figura 3 – Relação entre preço médio do leite recebido (eixo vertical) e produção diária (eixo horizontal em escala logarítmica) dos produtores participantes do Programa Educampo do Sebrae-MG entre 2014 e 2024.
Resumo:
- Escala subótima: os produtores de leite em MG e Brasil operam abaixo do ponto ideal de eficiência;
- Expansão é chave para reduzir os custos;
- Aumentar o volume reduz o custo médio por litro e isso é mais acentuado nas fazendas menores;
- O baixo volume de produção é uma das principais causas da saída de produtores da atividade;
- A assistência técnica e gerencial faz diferença. Programas como Educampo do SEBRAE/MG elevam a competitividade e a sustentabilidade da atividade leiteira;
- Os insights deste trabalho mostram que há espaço para crescer com margens melhores, mas exige ação prática.