O ponto de fechamento das fazendas leiteiras

Qual o volume mínimo que uma fazenda de leite deve produzir para que seja economicamente viável? Será que é possível aumentar a produção, sem aumentar os custos na mesma proporção?

Publicado em: - 3 minutos de leitura

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O estudo analisa a viabilidade econômica de fazendas de leite em Minas Gerais, com dados de mais de 1.200 propriedades entre 2014 e 2024. As fazendas operam em economia de escala, permitindo que aumentos na produção reduzam custos. A escala mínima viável subiu de 822 litros/dia em 2014 para 1.164 litros/dia em 2024, mas 68% dos produtores ainda operam abaixo desse patamar. A assistência técnica é crucial para melhorar a competitividade e sustentabilidade do setor.
Qual o volume mínimo que uma fazenda de leite deve produzir para que seja economicamente viável? Será que é possível aumentar a produção, sem aumentar os custos na mesma proporção?  Essas perguntas estão relacionadas aos conceitos de break-even (ponto de fechamento de uma empresa) e economias de escala, que podem definir o sucesso ou o fracasso no campo. 

Neste artigo, vou explorar os resultados de um estudo que fiz com um grupo de pesquisadores, publicado na renomada revista Journal of Agribusiness in Developing and Emerging Economies. O artigo original pode ser acessado aqui: https://doi.org/10.1108/JADEE-09-2025-0423 

No estudo, utilizamos dados do programa Educampo-Leite do Sebrae. Foram mais de 1.200 fazendas observadas entre 2014 e 2024, em Minas Gerais. As fazendas tinham, em média, 107 hectares, produção diária de 1.883 litros e 104 vacas, sendo 84 em lactação (81%). O preço médio recebido pelo leite (corrigido para 2024) foi de R$ 2,47/litro, enquanto o custo total médio ficou em R$ 2,29/litro. O método estatístico foi robusto para analisar um grande número de fazendas ao longo de anos, isolando efeitos regionais e individuais (clima, solo, escolaridade do produtor etc.).

O primeiro resultado que chama atenção: na média, as fazendas operam em regime de economia de escala, com elasticidade média menor que 1 (Figura 1). Isso quer dizer que, se a produção dobrar (aumentar 100%), os custos sobem só ~75%, não dobram – liberando margem para o produtor de leite. Ponto chave: o produtor de leite brasileiro ainda deixa dinheiro na mesa e pode ganhar competitividade.

Figura 1 – Distribuição do coeficiente de economias de escala das fazendas leiteiras do Programa Educampo do Sebrae-MG (2014-2024). Note que a linha verde no centro dos boxes representa a mediana dos coeficientes (entre 0,7 e 0,8).

Figura 1

Analisando o coeficiente de escala por tamanho de fazenda, identificamos que as menores têm coeficiente menor. Isso significa que os produtores com menor volume poderiam ganhar mais ao expandir a produção, pois seus custos subiriam menos que nos grandes. Produtores menores estão deixando mais dinheiro na mesa do que os grandes.

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O segundo resultado: os custos subiram consistentemente, elevando a escala mínima viável (break-even) de 822 litros/dia em 2014 para 1.096 litros/dia em 2019 (+33%) e 1.164 litros/dia em 2024 (+42%) (Figura 2). Produtores abaixo desses volumes provavelmente operaram no prejuízo.

Figura 2 – Custo Total Médio (ATC), Preços médios (Average Price), Produção média (Aver.) e Break-Even dos produtores de leite participantes do Programa Educampo do Sebrae-MG em 2014, 2019 e 2024.

 

Figura 2

Apesar da produção média dos produtores Educampo ficar acima do mínimo viável (1.574 litros/dia em 2014, 1.889 litros/dia em 2019 e 2.169 litros/dia em 2024), cerca de 68% deles ainda operou abaixo desse patamar

Essa situação se agrava quando olhamos para os dados oficiais. De acordo com o último Censo Agropecuário, a produção média em Minas Gerais variou entre 41 e 283 litros/dia, ou seja, bem abaixo do viável. Essa não é uma comparação perfeita, mas dá uma dimensão do problema no Brasil.

Um detalhe importante na figura 2 é a inclinação das curvas de custo. Nas fazendas com volumes menores que 2.000 litros/dia, os aumentos de produção reduzem mais acentuadamente os custos unitários (maior inclinação) do que acima de 2.000 litros/dia (menor inclinação).

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Por fim, encontramos uma forte relação entre volume e preço (figura 3). Quanto maior o volume produzido, maior é o preço recebido pelos produtores. Isso reflete políticas de pagamento que incentivam a escala, mas penalizam aqueles que não têm acesso à crédito e assistência técnica para expandir suas operações.

Figura 3 – Relação entre preço médio do leite recebido (eixo vertical) e produção diária (eixo horizontal em escala logarítmica) dos produtores participantes do Programa Educampo do Sebrae-MG entre 2014 e 2024.

Figura 3


Resumo: 

  • Escala subótima: os produtores de leite em MG e Brasil operam abaixo do ponto ideal de eficiência; 
  • Expansão é chave para reduzir os custos;
  • Aumentar o volume reduz o custo médio por litro e isso é mais acentuado nas fazendas menores;
  • O baixo volume de produção é uma das principais causas da saída de produtores da atividade;
  • A assistência técnica e gerencial faz diferença. Programas como Educampo do SEBRAE/MG elevam a competitividade e a sustentabilidade da atividade leiteira;
  • Os insights deste trabalho mostram que há espaço para crescer com margens melhores, mas exige ação prática.
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Material escrito por:

Andre Rozemberg Peixoto Simões

Andre Rozemberg Peixoto Simões

Zootecnista, Doutor em Economia Aplicada. Professor na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul - UEMS.

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MARCUS VINICIUS MORAIS DE OLIVEIRA
MARCUS VINICIUS MORAIS DE OLIVEIRA

AQUIDAUANA - MATO GROSSO DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 26/04/2026

Excelente artigo Dr André , muito esclarecedor e explica o que está acontecendo no Campo. Serve de alerta aos produtores que estão em situação de risco, para que consigam ajustar o sistema de produção, corrigir as falhas e manter-se ativo no mercado !
Andre Rozemberg Peixoto Simões
ANDRE ROZEMBERG PEIXOTO SIMÕES

AQUIDAUANA - MATO GROSSO DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 26/04/2026

Obrigado pelo comentário.
Grande abraço.
THIAGO MOURTHE PINHEIRO
THIAGO MOURTHE PINHEIRO

CURVELO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 25/04/2026

Qual a influência do tipo de sistema? (Pasto oi confinado)
Andre Rozemberg Peixoto Simões
ANDRE ROZEMBERG PEIXOTO SIMÕES

AQUIDAUANA - MATO GROSSO DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 25/04/2026

Olá Thiago.

Obrigado pela pergunta. Sim, certamente os níveis mínimos de produção podem variar entre os sistemas de produção. Neste trabalho não segmentamos os dados desta forma. Tem um outro artigo meu que fazemos isso mas não exatamente avaliando o break even. Dá uma olhada nesse artigo minha coluna:

A eficiência dos sistemas de produção de leite.

Um detalhe que pode ajudar é que a nossa amostra é composta essencialmente por sistemas confinado ou semiconfinado, a pasto é uma pequena parte.

Espero ter ajudado.
Abs.
Cristino Guerra
CRISTINO GUERRA

CARAMBEÍ - PARANÁ - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 24/04/2026

Um exemplo simples ajuda a visualizar melhor a eficiência produtiva: imagine um caminhão boiadeiro que transporta apenas 10 vacas, mesmo tendo capacidade para 20. Ao passar a operar com carga total, há sim um pequeno aumento no consumo de combustível e no desgaste dos componentes, mas esse acréscimo de custo é proporcionalmente muito menor do que o ganho obtido ao dobrar a carga transportada.

No contexto da pecuária leiteira, a lógica é semelhante. Melhorar a eficiência, seja no uso de instalações, manejo, nutrição ou genética , permite diluir custos fixos e aumentar a produtividade sem necessariamente elevar os gastos na mesma proporção. O foco não deve ser apenas produzir mais, mas produzir melhor, aproveitando ao máximo os recursos já disponíveis.
Andre Rozemberg Peixoto Simões
ANDRE ROZEMBERG PEIXOTO SIMÕES

AQUIDAUANA - MATO GROSSO DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 24/04/2026

Olá Cristino. Obrigado pelo comentário. Foi uma bela analogia. Vou usar como exemplo. Abs.
Qual a sua dúvida hoje?