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Divisão de lotes: influência no comportamento e consumo de alimentos

POR JOSÉ ROBERTO PERES

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/07/2001

9 MIN DE LEITURA

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Atualizado em 28/12/2020

A divisão de lotes é uma estratégias adotada em fazendas leiteiras para melhorar o manejo nutricional e o consumo de alimentos, levando em conta as necessidades nutricionais de cada animal e a hierarquia de dominância entre as vacas.

A nutrição animal não consiste unicamente da formulação de dietas. O "manejo nutricional" também tem grande influência no desempenho dos animais. Embora tenha como referência a literatura internacional, esta revisão traz uma série de observações importantes, que têm aplicação em qualquer sistema de produção ao redor do mundo. 

A alimentação é um comportamento dominante em ruminantes e tem prioridade inclusive sobre a ruminação. O consumo de alimentos é o fator de maior influência na produção de leite e alteração na condição corporal durante a lactação.

 

Por que e como dividir as vacas em lotes?

Consequentemente, a estratégia de divisão dos lotes e o subsequente comportamento alimentar que influencia a ingestão de alimentos potencialmente têm grande impacto na produtividade das vacas, em seu bem-estar, saúde e rentabilidade da fazenda. Sendo assim, o planejamento das dietas e do manejo nutricional deve considerar, além dos requerimentos nutricionais, a psicologia e fisiologia da vaca leiteira.

O agrupamento dos animais de forma inadequada pode perturbar os hábitos normais. Basicamente, a vaca leiteira passa 3 a 5 horas por dia comendo, divididas em 9 a 14 refeições. Somado a isto, elas ruminam 7 a 10 h/dia e passam cerca de 30 min/d bebendo água; 2 a 3 h/dia sendo ordenhadas e precisam de outras 10 horas de descanso (deitadas). O manejo não deve interferir nesta rotina.

A divisão em lotes deve não somente minimizar os efeitos negativos da interação social e encorajar as interações positivas, mas diminuir as variações dentro de um mesmo lote e aumentar a variação entre os lotes. Um lote mais homogêneo faz com que a formulação das dietas seja facilitada e diminui a excreção de nutrientes, reduzindo, portanto, o desperdício e o impacto ambiental.

 

Comportamento alimentar

Embora o comportamento alimentar e a ingestão de matéria seca sejam controlados pelo enchimento do retículo-rúmen (capacidade física) e por mecanismos quimiostáticos, o consumo também sofre influência de fatores de manejo como a divisão dos lotes, tipo de instalação e interações sociais que ocorrem durante o dia. Estes fatores podem ser otimizados para que se maximize a ingestão de alimentos.

Já foi observado que as vacas de maior produção e mais velhas são as que têm comportamento alimentar mais intenso, caracterizado pelo maior consumo de alimentos, mais rapidamente; maior eficiência e tempo de ruminação e maior consumo de água, em comparação às vacas de menor produção, tipicamente mais jovens.

Sistemas de manejo nutricional bem planejados devem permitir o comportamento alimentar normal da vaca, facilitando a movimentação, conforto e bem-estar. Bom exemplo disso é a disponibilidade de alimentos durante todos períodos do dia e mais especialmente naqueles que as vacas têm maior disposição para o consumo, como logo após as ordenhas.

Exemplo prático disso, considerando-se animais a pasto durante o verão, seria o acesso às pastagens durante a noite, quando a temperatura é mais amena. Não é difícil observar em sistemas de pastejo o confinamento dos animais em área restrita durante a noite para que não seja necessário buscar os animais no pasto para a ordenha da madrugada. Este procedimento limita o consumo voluntário e consequentemente o desempenho dos animais.

 

Hierarquia de dominância

É importante ter em mente que as vacas de leite são animais habituados a viver em grupos e rapidamente formam hierarquias de dominância, particularmente no que se refere à preferência no consumo de alimentos seja no cocho ou no pasto. O grupamento traz uma série de vantagens e desvantagens. O manejo correto deve valorizar as vantagens.

Vacas de leite alimentadas em grupo são mais confiantes, saudáveis, satisfeitas e produtivas, portanto, este procedimento têm fundamento psicológico. Quando uma vaca come, ela estimula as demais a comerem, estejam elas com fome ou não, um comportamento denominado de "facilitação social". Portanto, quando as vacas comem em grupos elas consomem mais alimentos que estando isoladas. Sendo assim, o esforço deve ser feito no sentido de diminuir a competição entre os animais de um mesmo grupo.

Uma vaca introduzida num grupo já existente deve rapidamente "encontrar seu lugar" na hierarquia do grupo para poder ter seu consumo maximizado, especialmente se estiver em início de lactação. A dominância social está fortemente relacionada com a idade, tamanho corporal e tempo que o animal pertence ao rebanho, e é ponto chave em qualquer grupo de vacas leiteiras. O estabelecimento desta hierarquia pode ser observado nos confrontos entre os animais. Na maioria dos casos (60%) eles referem-se a ataques cabeça a cabeça, seguidos de ataques na região do pescoço (15%) ou na lateral ou flanco do animal.

 

Lote de primíparas

Em função disso, uma recomendação de consenso para vacas em lactação é a separação de um lote de animais de primeira cria. Vacas de primeira cria (primíparas) normalmente ainda estão completando seu desenvolvimento e portanto têm requerimentos nutricionais adicionais, além de possuírem menor tamanho corporal, maior persistência de lactação e, frequentemente, menor posição na hierarquia de dominância do grupo. A separação deste grupo normalmente resulta em maior ingestão e produção. Este ganho em desempenho parece ser maior, quanto maior a diferença de tamanho corporal entre as vacas de primeira cria e as adultas.

Exemplo disso pode ser observado na tabela 1. Quando as vacas de primeira cria foram separadas das adultas, o tempo de alimentação aumentou em 11,4%, o número de refeições diárias aumentou em 8,5%, o consumo de silagem aumentou em 11,8%, o tempo de descanso aumentou em 8,8% e o número de períodos de descanso aumentou em 19% por dia.

Estas alterações permitiram um aumento de 8,6% na produção de leite nos primeiros 130 dias de lactação. Estes efeitos potencialmente podem ser observados em qualquer tipo e tamanho de rebanho. Na prática, muitos produtores mantêm as novilhas no mesmo lote do início ao final da lactação.

Tabela 1. Desempenho de vacas de primeira cria agrupadas ou não às vacas adultas

lote de primiparas

 


Adaptado de: Grant e Albright, 2001

Outra recomendação de mais difícil aplicação prática seria a "apresentação" das novilhas próximas ao parto às suas futuras companheiras de leite e às instalações de ordenha. Um programa de transição implicaria, por exemplo, introduzir as novilhas pré-parto no lote de vacas de baixa produção aproximadamente 3 semanas antes do parto. Por uma semana elas passariam pela sala de ordenha para se acostumarem ao ambiente, às instalações e eventualmente ao piso de concreto.

 

Lote de vacas recém paridas

Idealmente, as vacas recém-paridas também deveriam ser separadas num lote específico, mas isto também é de difícil implementação na prática. Neste período, as vacas estão particularmente vulneráveis à competição excessiva, que pode ser agravada pelo agrupamento incorreto.

Estas vacas estão fatigadas e com seus quartos enfraquecidos. Se forçadas a competir por comida e água podem facilmente ser injuriadas ou sofrer redução de consumo. Adicionalmente as vacas no cio e dominantes podem montá-las, causando acidentes.

 

Número de animais por lote

Em relação ao número de animais por lote, o limite máximo deve ser ditado pelo tamanho das salas de espera e de ordenha. As vacas não devem gastar mais que 45 minutos a uma hora para serem ordenhadas, considerando-se 2 ou 3 ordenhas diárias. Uma regra geral para isso seria a multiplicação do número de conjuntos de ordenha pelo fator 4,5.

Por exemplo, em uma ordenha duplo 4, os lotes devem conter 18 vacas ou menos (4 x 4,5) – o ideal seriam 16, que é múltiplo de 4. Realisticamente falando, este valor pode ser alterado por outros fatores de manejo e alojamento. De qualquer maneira, a limitação do tempo de permanência na sala de espera aumenta o conforto e bem-estar por minimizar a aglomeração, o tempo distante da comida, água e da área de descanso (especialmente no período de calor).

Ainda sobre o número ideal de animais no lote, uma pesquisa concluiu que, em um rebanho em que se mudou de um para dois lotes, a produção de leite aumentou de 1 a 3%. Uma posterior mudança para 3 grupos permitiu um ganho adicional de 2% na produção, mas a mudança para quatro grupos resultou em menos de 1% de aumento de produção.

As pesquisas também indicam que a estratégia de divisão dos lotes que maximiza o retorno sobre o custo de alimentação é aquela que se baseia nos requerimentos nutricionais dos animais, ao invés de se usar somente a média de produção de leite (não se pode esquecer que os requerimentos nutricionais também são função das necessidades de crescimento, gestação e recuperação da condição corporal).

 

Espaço de cocho

Quando as vacas são alimentadas num cocho, o espaço disponível por vaca também é importante. Existe um limite crítico abaixo do qual a competição se torna excessiva. Este limite, no entanto, é variável em função do tamanho do lote e da disponibilidade de alimentos. A recomendação tradicional é de 0,6 metros lineares de espaço de cocho, para que todas as vacas possam comer ao mesmo tempo.

Com o uso de rações completas, talvez este valor possa ser ligeiramente diminuído pois a competição  parece diminuir, conforme mostram os resultados de vários estudos, resumidos na tabela 2.

Tabela 2. Espaço de cocho e consumo de matéria seca por vacas em lactação

espaço de cocho e consumo de agua


Adaptado de: Grant e Albright, 2001

 

Remanejando lotes

Fato também de grande importância é que quando se remaneja os lotes de vacas, o grupo todo, e não somente as vacas mudadas, tem sua rotina alterada pela "ameaça" e confrontos que se seguem, até que uma nova hierarquia seja estabelecida. A maioria das pesquisas indica que são necessários de 3 a 7 dias para que se restabeleça a estabilidade após uma mudança.

Vários estudos tentaram separar os efeitos nutricionais dos "sociais", na ingestão de alimentos, quando se muda os animais de lote. A maioria indica quedas de 2,5 a 5% na produção de leite das vacas, unicamente devido aos distúrbios sociais, quando comparadas às vacas que não foram reagrupadas. Sendo assim, a decisão de se mudar uma vaca de lote deve considerar as implicações de trabalho, nutricionais e sociais, em contrapartida à maior eficiência alimentar resultante.

No Brasil, muitas fazendas têm controle leiteiro e remanejamentos semanais dos animais, visando maior eficiência econômica. Tendo como base as informações acima, talvez as perdas sejam maiores que os benefícios.

 

Divisão de lotes e ingestão de água

Adicionalmente aos alimentos, a ingestão de água não pode ser ignorada. Uma pesquisa recente avaliou o impacto de uma restrição de consumo de água a 75% do normal por 8 dias. O resultado foi a redução em 11,3% no consumo de alimentos em 24 hs; uma redução de 53% no tamanho da primeira refeição do dia e aumento de 31% no número de refeições a cada 24 horas, alterando portanto todo o comportamento dos animais.

 

Fatores que influenciam na divisão de lotes

Em resumo, o tamanho ótimo dos lotes de vacas em qualquer fazenda leiteira, na perspectiva do comportamento animal, será função de:

  • competição por espaço no estábulo, piquete ou pasto;
  • competição por alimento ou água;
  • disponibilidade de área de descanso confortável;
  • Espaço disponível nas áreas de espera, antes e depois da ordenha;
  • tempo gasto na sala de espera e ordenha, longe dos estábulos, alimentos, água e sombra.

Comentário do autor: É preciso atentar para estas questões de manejo que influenciam na nutrição pois elas praticamente não tem custo adicional e podem implicar em grandes benefícios (retorno financeiro).

Autor: José Roberto Peres

Adaptado de: Grant, R.J. e J.L. Albright, 2001. Effect of Animal Grouping on Feeding Behavior and Intake of Dairy Cattle. J. D. Sci 84(E. Suppl.):E156-163

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