Segundo a análise do portal MilkPoint (2026), a produção brasileira de leite alcançou 36,7 bilhões de litros em 2025, alta de 2,6% em relação aos 35,7 bilhões de litros de 2024. O resultado representa um novo recorde da série histórica e o terceiro crescimento anual consecutivo — a participação do leite inspecionado subiu para 75,2% do volume total, alcançando cerca de 27,6 bilhões de litros.
Com o crescimento no processamento de derivados e na produção de queijos, a disponibilidade nacional estimada de soro lácteo subiu para a faixa de 12,2 a 12,5 bilhões de litros. (IBGE, 2025; Stephani et al., 2026). Esse soro, que é a fração líquida separada durante a coagulação do leite, representa em geral de 80% a 90% do volume utilizado na queijaria, o que equivale tecnicamente à geração de aproximadamente 9 litros de soro para cada 10 litros de leite processado (Abish et al., 2024; Pires et al., 2021).
Apesar de seu valor nutricional e tecnológico, o soro de leite ainda é subvalorizado no Brasil, sobretudo por pequenos e médios laticínios. Seu descarte inadequado, devido à elevada carga orgânica, gera DBO de 30.000 a 50.000 mg L-¹, reduz rapidamente o oxigênio dos corpos d’água e prejudica os ecossistemas aquáticos (Stephani et al., 2026). Embora seja amplamente reconhecido como uma fonte rica em proteínas de alto valor biológico, peptídeos e compostos bioativos, uma parcela relevante da produção mundial e nacional ainda não é efetivamente valorizada (Abish et al., 2024).
Este artigo aborda o aproveitamento do soro de leite em bebidas funcionais e simbióticas com frutas tropicais, considerando os impactos ambientais de seu descarte, sua composição nutricional, os desafios sensoriais, as contribuições tecnológicas das frutas e dos probióticos e as perspectivas industriais. Nesse contexto, a ciência de alimentos e a indústria de laticínios podem converter um efluente de alto potencial poluente em bebidas de maior valor agregado, promovendo a economia circular e valorizando a diversidade das frutas tropicais.
O tesouro nutricional oculto no soro
O soro de leite é um líquido amarelo-esverdeado devido à riboflavina, com 5%–7% de sólidos totais. Representa cerca de 85%–95% do leite usado na fabricação de queijos e retém aproximadamente 55% de seus nutrientes, incluindo lactose, minerais, vitaminas hidrossolúveis e 20% das proteínas. Sua composição varia conforme o leite, o método de coagulação, o tipo de queijo e fatores animais e sazonais (Pires et al., 2021).
O soro pode ser doce ou ácido, conforme a coagulação da caseína. O soro doce, obtido por coagulação enzimática e comum na produção de queijos duros e semiduros, apresenta pH de 5,9 a 6,6 e cerca de 6–10 g L-¹ de proteínas, 46–52 g L-¹ de lactose e 2,5–4,0 g L-¹ de minerais. Seu teor de gordura varia conforme a separação da coalhada e o desnate (Mutaliyeva et al., 2025). Já o soro ácido, obtido por acidificação direta ou fermentação lática, é gerado na produção de caseína ácida, cottage, cream cheese, queijos frescos e iogurte concentrado. Apresenta pH de 4,3 a 5,1, com 6–8 g L-¹ de proteínas, 44–46 g L-¹ de lactose e 4,3–7,2 g L-¹ de minerais. Comparado ao soro doce, contém menos lactose e mais minerais, especialmente cálcio e fosfato (Karela et al., 2025).
O soro de leite destaca-se por sua fração proteica, composta principalmente por β lactoglobulina (50%–55%), α-lactoalbumina (20%–25%), além de imunoglobulinas e albumina sérica bovina. Essas proteínas apresentam elevada digestibilidade e são ricas em aminoácidos essenciais, incluindo os de cadeia ramificada, conferindo ao soro alto valor nutricional e potencial para aplicações em alimentos funcionais (Pan et al., 2025).
O desafio sensorial e a aliança com as frutas tropicais
Embora nutritivo, o soro in natura pode apresentar sabor salgado ou ácido, adstringência e notas lácteas residuais, influenciados pelos minerais, pela acidez e pelo tipo de soro. Fermentação, desmineralização e adição de frutas, aromas ou edulcorantes melhoram sua palatabilidade (Mutaliyeva et al., 2025). Polpas e sucos também equilibram sabores indesejáveis e enriquecem a bebida com fibras, vitaminas e compostos bioativos, como carotenoides, antocianinas e fenólicos, elevando sua atividade antioxidante (Solanki et al., 2024; Silva et al., 2025).
Pesquisas brasileiras demonstram a excelente viabilidade dessa sinergia:
- Acerola: Bosi e colaboradores (2013) desenvolveram bebidas não fermentadas com polpa de acerola, inulina e diferentes proporções de soro. As formulações com até 60% de soro foram consideradas alternativas sensorialmente viáveis para laticínios.
- Morango, graviola e açaí: Salgado (2024) estudou bebidas produzidas com soro bovino, caprino e bubalino, adicionadas de polpas de morango, graviola e cacau, além de farinhas de açaí, beterraba e hibisco. A inclusão das polpas reduziu o pH e aumentou significativamente a aceitação em comparação ao controle, demonstrando viabilidade técnica e sensorial.
- Açaí: Silva e colaboradores (2025) avaliaram bebidas de soro com açaí e verificaram efeitos do processamento térmico sobre propriedades físico-químicas, atividade antioxidante e características sensoriais, demonstrando potencial para produtos de maior valor funcional.
- Frutas do gênero Spondias, como umbu e umbu-cajá, têm aroma e sabor característicos e potencial para bebidas lácteas. Uma bebida fermentada com umbu e 60% de soro mostrou viabilidade tecnológica, mas a aceitação sensorial depende de cada formulação (Oliveira et al., 2023).
- Pitaia vermelha: estudos indicam potencial da pitaia em produtos lácteos e bebidas à base de soro, embora a aceitação dependa da formulação e da proporção de soro (Saeki et al., 2017). Uma bebida láctea fermentada com soro e polpa de pitaia vermelha apresentou boa aceitação e viabilidade tecnológica (Costa et al., 2019).
Figura 1: Infográfico resumido dos estudos sobre a aceitação sensorial de bebidas lácteas com soro de leite e frutas tropicas. Fonte: Elaborado pelo autor, com auxílio do Copilot (Microsoft 365).
O próximo nível: o efeito simbiótico
O aproveitamento do soro avançou para bebidas fermentadas e funcionais com probióticos e prebióticos. Essas formulações simbióticas agregam valor ao combinar a matriz nutricional do soro com componentes que favorecem a viabilidade microbiana e ampliam o potencial funcional do produto (Pires et al., 2023). Um alimento simbiótico combina microrganismos vivos, como probióticos dos gêneros Lactobacillus e Bifidobacterium, com substratos seletivamente utilizados pela microbiota intestinal, como inulina e frutooligossacarídeos (FOS), visando promover benefícios à saúde. Esses componentes podem favorecer mudanças benéficas na composição e na atividade da microbiota, embora os efeitos variem conforme as cepas, os substratos, as doses utilizadas e a população avaliada (Swanson et al., 2020).
Espírito Santo e colaboradores (2010) demonstraram que a polpa de açaí aumentou a viabilidade de Lactobacillus acidophilus L10, Bifidobacterium animalis subsp. lactis Bl04 e Bifidobacterium longum Bl05 em iogurte após quatro semanas de refrigeração. Enquanto bebidas probióticas com soro, açaí e colágeno hidrolisado também mantiveram estabilidade microbiológica por 28 dias e boa aceitação sensorial (Rigoto et al., 2019).
Tendências de mercado e viabilidade industrial
O mercado brasileiro de bebidas lácteas fermentadas está consolidado pela boa aceitação sensorial, pelo aproveitamento do soro e pelo custo competitivo. A inovação concentra se em produtos voltados à saúde digestiva, com mais proteínas, conveniência, menos açúcar e formulações clean label com ingredientes reconhecíveis (Pacheco et al., 2022). Para atender à demanda por inovação, a indústria brasileira diversifica o aproveitamento do soro em bebidas com frutas, fermentadas, probióticas, simbióticas e carbonatadas, além de produtos proteicos, com menos lactose e ingredientes funcionais:
1. Misturas com sucos de frutas tropicais: frutas como maracujá, laranja e manga melhoram a aceitação sensorial, mas as interações entre seus componentes e as proteínas do soro devem ser controladas para evitar sedimentos e perda de estabilidade físico-química (Solanki et al., 2024).
2. Bebidas carbonatadas (gaseificadas): produzidas por fermentação ou acidificação, podem ser enriquecidas com proteínas, vitaminas, minerais, prebióticos e probióticos, ampliando seu valor nutricional e funcional (Pires et al., 2021; Mutaliyeva et al., 2025).
3. Bebidas funcionais de alto desempenho: voltadas à nutrição esportiva e ao envelhecimento saudável, utilizam proteínas do soro, hidrolisados e peptídeos bioativos para apoiar a manutenção muscular, a recuperação pós-exercício e a promoção da saúde (Pan et al., 2025).
Essas pesquisas demonstram viabilidade principalmente por três resultados recorrentes: boa aceitação sensorial, possibilidade de incorporar proporções elevadas de soro e incremento do valor nutricional ou antioxidante pelas frutas. Neste contexto, uma pesquisa de doutorado realizada em parceria entre a UEM, no Paraná, e a UFRN, campus Macaíba, investiga o desenvolvimento de bebidas lácteas simbióticas com polpa de pitaia vermelha. A formulação utiliza o soro de leite como base, promovendo seu aproveitamento pela indústria.
Essa alternativa busca reduzir o descarte e estimular a inovação, sobretudo em pequenos laticínios. O estudo avalia a viabilidade microbiológica e a qualidade físico-química das bebidas. Também analisa sua aceitabilidade sensorial e o potencial de agregação de valor aos derivados lácteos.
Considerações finais
O aproveitamento do soro de leite em bebidas simbióticas com frutas tropicais integra objetivos ambientais, nutricionais e econômicos. Para laticínios, especialmente os de pequeno e médio porte, essa aplicação pode reduzir custos de tratamento de efluentes, ampliar o portfólio e agregar valor ao processo produtivo. Para os consumidores, oferece uma alternativa de bebida fermentada com atributos sensoriais e funcionais que dependem da formulação, das cepas utilizadas e das condições de processamento e armazenamento.
A incorporação eficiente do soro de leite em bebidas e outros alimentos reduz custos de produção e mitiga os impactos ambientais associados ao descarte inadequado desse coproduto. Desse modo, um passivo ambiental pode ser convertido em matéria-prima para inovação, agregação de valor e sustentabilidade na cadeia de laticínios.
Fontes consultadas
ABISH, Z. A.; ALIBEKOV, R. S.; TARAPOULOUZI, M.; BAKHTYBEKOVA, A. R.; KOBZHASAROVA, Z. I. Review in deep processing of whey. Cogent Food & Agriculture, v. 10, n. 1, art. 2415380, 2024. DOI: 10.1080/23311932.2024.2415380.
COSTA, W. R. S. et al. Elaboração de sorvete de pitaia vermelha (Hylocereus costaricensis). Encontros Universitários da UFC, Fortaleza, v. 4, p. 3192, 2019. no Brasil: IBGE — INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Produção de leite 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/explica/producao-agropecuaria/leite/br. Acesso em: 15 set. 2026.
KARELA, M.; SAKKAS, L.; ZOIDOU, E.; MOATSOU, G.; MILOSI, K.; MOSCHOPOULOU, E. Acid whey from industrial Greek strained yoghurt: effect of the kind of milk and the way of straining on its composition and processing by nanofiltration. Dairy, Basel, v. 6, n. 3, art. 21, 2025. DOI: 10.3390/dairy6030021.
MILKPOINT. Brasil produz 36,7 bilhões de litros e leite bate novo recorde em 2025. MilkPoint, 01 out. 2026. Disponível em: https://www.milkpoint.com.br. Acesso em: 2 out. 2026.
MUTALIYEVA, B.; TURKEYEVA, E.; MADYBEKOVA, G.; ZIVKOVIC, L.; TALLURI, V. S. S. L. P.; ISSAYEVA, A.; VINCEKOVIC, M. Acid whey valorization: novel approaches for probiotic and functional products development. Frontiers in Nutrition, Lausanne, v. 12, art. 1630925, 2025. DOI: 10.3389/fnut.2025.1630925.
OLIVEIRA, T. M. B. F. et al. Desenvolvimento e caracterização de uma bebida láctea com adição de preparado da casca de umbu (Spondias tuberosa Arruda Câmara) e microcápsula pela técnica de gelificação iônica. Observatório de la Economía Latinoamericana, v. 21, n. 10, 2023. DOI: 10.55905/oelv21n10-039.
PACHECO, A. F. C.; SOUZA, L. B.; PAULA, J. C. J.; PAIVA, P. H. C.; LEITE JÚNIOR, B. R. C. Bebidas lácteas: produção, tendências e desafios. Viçosa, MG: Universidade Federal de Viçosa, 2022. 36 p. (Boletim de Extensão, n. 88).
PAN, D.; ZHANG, Z.; LIU, N.; ASHAOLU, T. J. Whey protein nutrition in sports: action mechanisms and gaps in research. Current Nutrition Reports, 2025. DOI: 10.1007/s13668-025-00673-w. PIRES, A.; TAN, G.; GOMES, D.; PEREIRA-DIAS, S.; DÍAZ, O.; COBOS, A.;
PEREIRA, C. Application of ultrafiltration to produce sheep’s and goat’s whey-based synbiotic kefir products. Membranes, Basel, v. 13, n. 5, art. 473, 2023. DOI: 10.3390/membranes13050473.
RIGOTO, J. M.; RIBEIRO, T. H. S.; STEVANATO, N.; SAMPAIO, A. R.; RUIZ, S. P.; BARROS, B. C. B. Effect of açaí pulp, cheese whey, and hydrolysate collagen on the characteristics of dairy beverages containing probiotic bacteria. Journal of Food Process Engineering, v. 42, n. 1, e12953, 2019. DOI: 10.1111/jfpe.12953.
SALGADO, M. J. G. Desenvolvimento e caracterização de bebidas à base de soro de leite. 2024. Tese (Doutorado em Ciência Animal Nos Trópicos) – Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2024. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/41078. Acesso em: 16 set. 2026.
SILVA, V. L. M. et al. Thermal processing effects on antioxidant properties, physicochemical, and sensory characteristics of whey açaí (Euterpe oleracea Mart.) beverages. Foods, Basel, v. 14, n. 24, art. 4319, 2025. DOI: 10.3390/foods14244319.
STEPHANI, R. et al. Soro de leite e bebida láctea no Brasil: sustentabilidade, produção e consumo: que evidências os dados revelam. Juiz de Fora, MG: Templo Gráfica e Editora, 2026.
SWANSON, K. S. et al. The International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics (ISAPP) consensus statement on the definition and scope of synbiotics. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology, London, v. 17, n. 11, p. 687–701, 2020. DOI: 10.1038/s41575-020-0344-2.
* Durante a elaboração do artigo foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial generativa para apoio à revisão textual e organização da redação. Todo o conteúdo técnico, a interpretação dos resultados e as conclusões são de responsabilidade exclusiva dos autores.