Soro de leite e frutas tropicais: uma combinação funcional e sustentável

Apesar de seu valor nutricional e tecnológico, o soro de leite ainda é subvalorizado no Brasil, sobretudo por pequenos e médios laticínios.

Publicado por: vários autores

Publicado em: - 10 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Sem tempo? Leia o resumo gerado pela MilkIA
O soro de leite, antes visto como resíduo, é reconhecido como matéria-prima valiosa para ingredientes funcionais e bebidas. A produção de leite no Brasil atingiu 36,7 bilhões de litros em 2025, com a disponibilidade de soro aumentando para até 12,5 bilhões de litros. O soro é rico em nutrientes, mas ainda subvalorizado. Pesquisas estão explorando seu uso em bebidas funcionais com frutas tropicais e probióticos, promovendo sustentabilidade e inovação na indústria de laticínios.
No setor de laticínios, o soro de leite deixou de ser tratado apenas como um resíduo de difícil descarte ou um coproduto de baixo valor comercial e passou a ser reconhecido como matéria-prima estratégica para a obtenção de ingredientes funcionais, compostos bioativos e produtos de maior valor agregado.

Segundo a análise do portal MilkPoint (2026), a produção brasileira de leite alcançou 36,7 bilhões de litros em 2025, alta de 2,6% em relação aos 35,7 bilhões de litros de 2024. O resultado representa um novo recorde da série histórica e o terceiro crescimento anual consecutivo — a participação do leite inspecionado subiu para 75,2% do volume total, alcançando cerca de 27,6 bilhões de litros.

Com o crescimento no processamento de derivados e na produção de queijos, a disponibilidade nacional estimada de soro lácteo subiu para a faixa de 12,2 a 12,5 bilhões de litros. (IBGE, 2025; Stephani et al., 2026). Esse soro, que é a fração líquida separada durante a coagulação do leite, representa em geral de 80% a 90% do volume utilizado na queijaria, o que equivale tecnicamente à geração de aproximadamente 9 litros de soro para cada 10 litros de leite processado (Abish et al., 2024; Pires et al., 2021).

Apesar de seu valor nutricional e tecnológico, o soro de leite ainda é subvalorizado no Brasil, sobretudo por pequenos e médios laticínios. Seu descarte inadequado, devido à elevada carga orgânica, gera DBO de 30.000 a 50.000 mg L-¹, reduz rapidamente o oxigênio dos corpos d’água e prejudica os ecossistemas aquáticos (Stephani et al., 2026). Embora seja amplamente reconhecido como uma fonte rica em proteínas de alto valor biológico, peptídeos e compostos bioativos, uma parcela relevante da produção mundial e nacional ainda não é efetivamente valorizada (Abish et al., 2024).

Este artigo aborda o aproveitamento do soro de leite em bebidas funcionais e simbióticas com frutas tropicais, considerando os impactos ambientais de seu descarte, sua composição nutricional, os desafios sensoriais, as contribuições tecnológicas das frutas e dos probióticos e as perspectivas industriais. Nesse contexto, a ciência de alimentos e a indústria de laticínios podem converter um efluente de alto potencial poluente em bebidas de maior valor agregado, promovendo a economia circular e valorizando a diversidade das frutas tropicais.

O tesouro nutricional oculto no soro

O soro de leite é um líquido amarelo-esverdeado devido à riboflavina, com 5%–7% de sólidos totais. Representa cerca de 85%–95% do leite usado na fabricação de queijos e retém aproximadamente 55% de seus nutrientes, incluindo lactose, minerais, vitaminas hidrossolúveis e 20% das proteínas. Sua composição varia conforme o leite, o método de coagulação, o tipo de queijo e fatores animais e sazonais (Pires et al., 2021).

O soro pode ser doce ou ácido, conforme a coagulação da caseína. O soro doce, obtido por coagulação enzimática e comum na produção de queijos duros e semiduros, apresenta pH de 5,9 a 6,6 e cerca de 6–10 g L-¹ de proteínas, 46–52 g L-¹ de lactose e 2,5–4,0 g L-¹ de minerais. Seu teor de gordura varia conforme a separação da coalhada e o desnate (Mutaliyeva et al., 2025). Já o soro ácido, obtido por acidificação direta ou fermentação lática, é gerado na produção de caseína ácida, cottage, cream cheese, queijos frescos e iogurte concentrado. Apresenta pH de 4,3 a 5,1, com 6–8 g L-¹ de proteínas, 44–46 g L-¹ de lactose e 4,3–7,2 g L-¹ de minerais. Comparado ao soro doce, contém menos lactose e mais minerais, especialmente cálcio e fosfato (Karela et al., 2025).

O soro de leite destaca-se por sua fração proteica, composta principalmente por β lactoglobulina (50%–55%), α-lactoalbumina (20%–25%), além de imunoglobulinas e albumina sérica bovina. Essas proteínas apresentam elevada digestibilidade e são ricas em aminoácidos essenciais, incluindo os de cadeia ramificada, conferindo ao soro alto valor nutricional e potencial para aplicações em alimentos funcionais (Pan et al., 2025).

O desafio sensorial e a aliança com as frutas tropicais

Embora nutritivo, o soro in natura pode apresentar sabor salgado ou ácido, adstringência e notas lácteas residuais, influenciados pelos minerais, pela acidez e pelo tipo de soro. Fermentação, desmineralização e adição de frutas, aromas ou edulcorantes melhoram sua palatabilidade (Mutaliyeva et al., 2025). Polpas e sucos também equilibram sabores indesejáveis e enriquecem a bebida com fibras, vitaminas e compostos bioativos, como carotenoides, antocianinas e fenólicos, elevando sua atividade antioxidante (Solanki et al., 2024; Silva et al., 2025).

Pesquisas brasileiras demonstram a excelente viabilidade dessa sinergia:

  • Acerola: Bosi e colaboradores (2013) desenvolveram bebidas não fermentadas com polpa de acerola, inulina e diferentes proporções de soro. As formulações com até 60% de soro foram consideradas alternativas sensorialmente viáveis para laticínios.
  • Morango, graviola e açaí: Salgado (2024) estudou bebidas produzidas com soro bovino, caprino e bubalino, adicionadas de polpas de morango, graviola e cacau, além de farinhas de açaí, beterraba e hibisco. A inclusão das polpas reduziu o pH e aumentou significativamente a aceitação em comparação ao controle, demonstrando viabilidade técnica e sensorial.
  • Açaí: Silva e colaboradores (2025) avaliaram bebidas de soro com açaí e verificaram efeitos do processamento térmico sobre propriedades físico-químicas, atividade antioxidante e características sensoriais, demonstrando potencial para produtos de maior valor funcional.
  • Frutas do gênero Spondias, como umbu e umbu-cajá, têm aroma e sabor característicos e potencial para bebidas lácteas. Uma bebida fermentada com umbu e 60% de soro mostrou viabilidade tecnológica, mas a aceitação sensorial depende de cada formulação (Oliveira et al., 2023).
  • Pitaia vermelha: estudos indicam potencial da pitaia em produtos lácteos e bebidas à base de soro, embora a aceitação dependa da formulação e da proporção de soro (Saeki et al., 2017). Uma bebida láctea fermentada com soro e polpa de pitaia vermelha apresentou boa aceitação e viabilidade tecnológica (Costa et al., 2019).

Figura 1: Infográfico resumido dos estudos sobre a aceitação sensorial de bebidas lácteas com soro de leite e frutas tropicas. Fonte: Elaborado pelo autor, com auxílio do Copilot (Microsoft 365).

Figura 1

O próximo nível: o efeito simbiótico

O aproveitamento do soro avançou para bebidas fermentadas e funcionais com probióticos e prebióticos. Essas formulações simbióticas agregam valor ao combinar a matriz nutricional do soro com componentes que favorecem a viabilidade microbiana e ampliam o potencial funcional do produto (Pires et al., 2023). Um alimento simbiótico combina microrganismos vivos, como probióticos dos gêneros Lactobacillus e Bifidobacterium, com substratos seletivamente utilizados pela microbiota intestinal, como inulina e frutooligossacarídeos (FOS), visando promover benefícios à saúde. Esses componentes podem favorecer mudanças benéficas na composição e na atividade da microbiota, embora os efeitos variem conforme as cepas, os substratos, as doses utilizadas e a população avaliada (Swanson et al., 2020).

Continua depois da publicidade

Espírito Santo e colaboradores (2010) demonstraram que a polpa de açaí aumentou a viabilidade de Lactobacillus acidophilus L10, Bifidobacterium animalis subsp. lactis Bl04 e Bifidobacterium longum Bl05 em iogurte após quatro semanas de refrigeração. Enquanto bebidas probióticas com soro, açaí e colágeno hidrolisado também mantiveram estabilidade microbiológica por 28 dias e boa aceitação sensorial (Rigoto et al., 2019).

Tendências de mercado e viabilidade industrial

O mercado brasileiro de bebidas lácteas fermentadas está consolidado pela boa aceitação sensorial, pelo aproveitamento do soro e pelo custo competitivo. A inovação concentra se em produtos voltados à saúde digestiva, com mais proteínas, conveniência, menos açúcar e formulações clean label com ingredientes reconhecíveis (Pacheco et al., 2022). Para atender à demanda por inovação, a indústria brasileira diversifica o aproveitamento do soro em bebidas com frutas, fermentadas, probióticas, simbióticas e carbonatadas, além de produtos proteicos, com menos lactose e ingredientes funcionais:

1. Misturas com sucos de frutas tropicais: frutas como maracujá, laranja e manga melhoram a aceitação sensorial, mas as interações entre seus componentes e as proteínas do soro devem ser controladas para evitar sedimentos e perda de estabilidade físico-química (Solanki et al., 2024).

2. Bebidas carbonatadas (gaseificadas): produzidas por fermentação ou acidificação, podem ser enriquecidas com proteínas, vitaminas, minerais, prebióticos e probióticos, ampliando seu valor nutricional e funcional (Pires et al., 2021; Mutaliyeva et al., 2025).

3. Bebidas funcionais de alto desempenho: voltadas à nutrição esportiva e ao envelhecimento saudável, utilizam proteínas do soro, hidrolisados e peptídeos bioativos para apoiar a manutenção muscular, a recuperação pós-exercício e a promoção da saúde (Pan et al., 2025).

Essas pesquisas demonstram viabilidade principalmente por três resultados recorrentes: boa aceitação sensorial, possibilidade de incorporar proporções elevadas de soro e incremento do valor nutricional ou antioxidante pelas frutas. Neste contexto, uma pesquisa de doutorado realizada em parceria entre a UEM, no Paraná, e a UFRN, campus Macaíba, investiga o desenvolvimento de bebidas lácteas simbióticas com polpa de pitaia vermelha. A formulação utiliza o soro de leite como base, promovendo seu aproveitamento pela indústria.

Essa alternativa busca reduzir o descarte e estimular a inovação, sobretudo em pequenos laticínios. O estudo avalia a viabilidade microbiológica e a qualidade físico-química das bebidas. Também analisa sua aceitabilidade sensorial e o potencial de agregação de valor aos derivados lácteos.

Considerações finais

O aproveitamento do soro de leite em bebidas simbióticas com frutas tropicais integra objetivos ambientais, nutricionais e econômicos. Para laticínios, especialmente os de pequeno e médio porte, essa aplicação pode reduzir custos de tratamento de efluentes, ampliar o portfólio e agregar valor ao processo produtivo. Para os consumidores, oferece uma alternativa de bebida fermentada com atributos sensoriais e funcionais que dependem da formulação, das cepas utilizadas e das condições de processamento e armazenamento.

Continua depois da publicidade

A incorporação eficiente do soro de leite em bebidas e outros alimentos reduz custos de produção e mitiga os impactos ambientais associados ao descarte inadequado desse coproduto. Desse modo, um passivo ambiental pode ser convertido em matéria-prima para inovação, agregação de valor e sustentabilidade na cadeia de laticínios.

Fontes consultadas

ABISH, Z. A.; ALIBEKOV, R. S.; TARAPOULOUZI, M.; BAKHTYBEKOVA, A. R.; KOBZHASAROVA, Z. I. Review in deep processing of whey. Cogent Food & Agriculture, v. 10, n. 1, art. 2415380, 2024. DOI: 10.1080/23311932.2024.2415380.

COSTA, W. R. S. et al. Elaboração de sorvete de pitaia vermelha (Hylocereus costaricensis). Encontros Universitários da UFC, Fortaleza, v. 4, p. 3192, 2019. no Brasil: IBGE — INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Produção de leite 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/explica/producao-agropecuaria/leite/br. Acesso em: 15 set. 2026.

KARELA, M.; SAKKAS, L.; ZOIDOU, E.; MOATSOU, G.; MILOSI, K.; MOSCHOPOULOU, E. Acid whey from industrial Greek strained yoghurt: effect of the kind of milk and the way of straining on its composition and processing by nanofiltration. Dairy, Basel, v. 6, n. 3, art. 21, 2025. DOI: 10.3390/dairy6030021.

MILKPOINT. Brasil produz 36,7 bilhões de litros e leite bate novo recorde em 2025. MilkPoint, 01 out. 2026. Disponível em: https://www.milkpoint.com.br. Acesso em: 2 out. 2026.

MUTALIYEVA, B.; TURKEYEVA, E.; MADYBEKOVA, G.; ZIVKOVIC, L.; TALLURI, V. S. S. L. P.; ISSAYEVA, A.; VINCEKOVIC, M. Acid whey valorization: novel approaches for probiotic and functional products development. Frontiers in Nutrition, Lausanne, v. 12, art. 1630925, 2025. DOI: 10.3389/fnut.2025.1630925.

OLIVEIRA, T. M. B. F. et al. Desenvolvimento e caracterização de uma bebida láctea com adição de preparado da casca de umbu (Spondias tuberosa Arruda Câmara) e microcápsula pela técnica de gelificação iônica. Observatório de la Economía Latinoamericana, v. 21, n. 10, 2023. DOI: 10.55905/oelv21n10-039.

PACHECO, A. F. C.; SOUZA, L. B.; PAULA, J. C. J.; PAIVA, P. H. C.; LEITE JÚNIOR, B. R. C. Bebidas lácteas: produção, tendências e desafios. Viçosa, MG: Universidade Federal de Viçosa, 2022. 36 p. (Boletim de Extensão, n. 88).

PAN, D.; ZHANG, Z.; LIU, N.; ASHAOLU, T. J. Whey protein nutrition in sports: action mechanisms and gaps in research. Current Nutrition Reports, 2025. DOI: 10.1007/s13668-025-00673-w. PIRES, A.; TAN, G.; GOMES, D.; PEREIRA-DIAS, S.; DÍAZ, O.; COBOS, A.;

PEREIRA, C. Application of ultrafiltration to produce sheep’s and goat’s whey-based synbiotic kefir products. Membranes, Basel, v. 13, n. 5, art. 473, 2023. DOI: 10.3390/membranes13050473.

RIGOTO, J. M.; RIBEIRO, T. H. S.; STEVANATO, N.; SAMPAIO, A. R.; RUIZ, S. P.; BARROS, B. C. B. Effect of açaí pulp, cheese whey, and hydrolysate collagen on the characteristics of dairy beverages containing probiotic bacteria. Journal of Food Process Engineering, v. 42, n. 1, e12953, 2019. DOI: 10.1111/jfpe.12953.

SALGADO, M. J. G. Desenvolvimento e caracterização de bebidas à base de soro de leite. 2024. Tese (Doutorado em Ciência Animal Nos Trópicos) – Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2024. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/41078. Acesso em: 16 set. 2026.

SILVA, V. L. M. et al. Thermal processing effects on antioxidant properties, physicochemical, and sensory characteristics of whey açaí (Euterpe oleracea Mart.) beverages. Foods, Basel, v. 14, n. 24, art. 4319, 2025. DOI: 10.3390/foods14244319.

STEPHANI, R. et al. Soro de leite e bebida láctea no Brasil: sustentabilidade, produção e consumo: que evidências os dados revelam. Juiz de Fora, MG: Templo Gráfica e Editora, 2026.

SWANSON, K. S. et al. The International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics (ISAPP) consensus statement on the definition and scope of synbiotics. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology, London, v. 17, n. 11, p. 687–701, 2020. DOI: 10.1038/s41575-020-0344-2.

* Durante a elaboração do artigo foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial generativa para apoio à revisão textual e organização da redação. Todo o conteúdo técnico, a interpretação dos resultados e as conclusões são de responsabilidade exclusiva dos autores.

QUER ACESSAR O CONTEÚDO? É GRATUITO!

Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no MilkPoint.

Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Eronilson Vieira da Silva

Eronilson Vieira da Silva

Doutorando em Zootecnia UEM e docente da Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias - EAJ-UFRN

Acessar todos os materiais
Geraldo Tadeu Dos Santos

Geraldo Tadeu Dos Santos

Docente no Departamento de Zootecnia da Universidade Estadual de Maringá. Maringá, Paraná, Brasil.

Acessar todos os materiais
Magali Soares dos Santos Pozza

Magali Soares dos Santos Pozza

Docente no Departamento de Zootecnia da Universidade Estadual de Maringá. Maringá, Paraná, Brasil.

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?