Dois volumes iguais de leite podem apresentar potenciais de transformação bastante diferentes, dependendo da concentração de proteína, caseína e gordura, além das condições sanitárias e microbiológicas. Para uma indústria cujo principal negócio é a fabricação de queijos, essas diferenças impactam diretamente o rendimento e a rentabilidade.
É a partir dessa perspectiva que a Tirolez avança na implantação de um novo modelo de remuneração do leite por sólidos, associado a uma transformação mais ampla na gestão da matéria-prima. A proposta é reconhecer não apenas o volume entregue pelos produtores, mas também a composição e a qualidade do leite, acompanhando o destino de cada componente ao longo do processamento. “É uma mudança importante e necessária: sair de uma visão baseada apenas em volume e passar a gerir o valor presente em cada litro de leite”, explica Bruno Castanheira, gerente executivo de Originação de Leite da Tirolez.
Historicamente, a cadeia láctea brasileira foi estruturada com base no volume, enquanto o pagamento e o custeio por sólidos já são práticas consolidadas em importantes mercados internacionais. A empresa busca adaptar essas referências à realidade de seus fornecedores e de suas operações, conectando a qualidade da matéria-prima ao aproveitamento industrial e ao resultado econômico do negócio.
Três pilares para mudar a gestão do leite
A estratégia está estruturada em três frentes: originação inteligente e arbitragem de sólidos, custeio por sólidos e transformação digital.
Na primeira, o objetivo é reconhecer os produtores que entregam leite com maior concentração de sólidos e melhor qualidade, além de direcionar a matéria-prima às aplicações de maior retorno econômico. Na segunda, o custeio por sólidos permite compreender com maior precisão a contribuição dos componentes na formação dos custos e no aproveitamento da matéria-prima. Já a terceira busca integrar dados para ampliar a rastreabilidade, acelerar decisões e reduzir perdas.
Na indústria queijeira, melhorar a composição do leite é estratégico porque a matéria-prima representa a maior parcela do custo de produção. “Quanto melhor essa composição, maior o potencial de rendimento e de aproveitamento da matéria-prima”, destaca Gustavo Almeida, Gerente Executivo de P&D e Engenharia da Tirolez.
A análise passa, assim, a considerar não apenas o volume de leite recebido ou de queijo produzido, mas também quanto de gordura, proteína e outros sólidos é incorporado ao produto final, quanto segue para fluxos como soro e creme e quanto se perde no processo. Essas informações permitem melhorar o aproveitamento da matéria-prima, elevar a produtividade e tornar os produtos lácteos mais competitivos.
O que muda para o produtor?
Com a remuneração por sólidos, o volume continua importante, mas deixa de ser o único direcionador de valor. Os produtores deverão acompanhar principalmente os teores de proteína e gordura, com atenção especial à caseína, além de indicadores como contagem de células somáticas (CCS) e contagem bacteriana total (CBT)/contagem padrão em placas (CPP).
Nutrição, qualidade dos volumosos, genética e manejo influenciam a composição do leite. Saúde do úbere, higiene de ordenha, resfriamento e conservação são fundamentais para a qualidade sanitária e microbiológica. “O objetivo não é simplesmente criar novos critérios de cobrança, mas construir um sistema de incentivo”, afirma Bruno.
A proposta é reconhecer quem evolui na composição e na qualidade do leite e utilizar os resultados das análises para direcionar a assistência técnica. Conforme o diagnóstico, as ações poderão envolver alimentação, genética, manejo do rebanho, saúde do úbere, higiene ou conservação da matéria-prima. Com uma sinalização clara da indústria de queijos, o produtor de leite poderá tomar decisões de curto e longo prazo com foco na produção de sólidos, ampliando seu controle sobre a formação do valor final da matéria-prima e reduzindo a exposição à volatilidade de preços.
Transparência para transformar análises em gestão
Para que o modelo funcione, a Tirolez considera essencial que os produtores compreendam como a composição do leite influencia a remuneração. A empresa prevê utilizar uma calculadora de sólidos, demonstrativos simulados de pagamento e materiais de comunicação para apresentar os componentes avaliados, os critérios de bonificação e seus efeitos sobre o valor recebido.
A intenção é ir além do demonstrativo de pagamento. Com históricos comparáveis, os fornecedores poderão acompanhar a evolução de gordura, proteína, CCS e CBT/CPP, relacionando os resultados às mudanças realizadas na propriedade e identificando quais ações geram melhorias.
Digitalização conecta coleta, qualidade e processamento
A Tirolez já trabalha com dados de volume coletado, identificação dos produtores, rotas, qualidade físico-química e indicadores sanitários. Essas informações, porém, ainda estão distribuídas entre diferentes etapas e sistemas.
A empresa está desenvolvendo integrações entre os dados de coleta e qualidade, o sistema de gestão empresarial (ERP) e o Centro de Operações Integradas. A arquitetura está em implantação e validação inicial no piloto de Caxambu do Sul. “A visão é transformar dados dispersos em inteligência para o negócio”, explica Gustavo.
Na coleta e na logística, a integração poderá melhorar a rastreabilidade das rotas, identificar diferenças de composição entre regiões e produtores e apoiar a formação das cargas e o direcionamento do leite às unidades industriais. Na qualidade, o aumento da frequência das análises deverá ajudar a identificar desvios mais rapidamente, permitindo uma atuação antecipada da assistência técnica e da indústria.
Dentro da fábrica, o acompanhamento dos balanços de massa por gordura, proteína e demais sólidos permitirá medir quanto entra no processo, quanto é incorporado ao queijo, quanto migra para o soro ou para o creme e quanto é perdido durante a fabricação.
Essas informações podem orientar ajustes na padronização dos processos, na redução de perdas em efluentes, no rendimento, no sobrepeso dos produtos e no consumo de utilidades. Ao conectar composição, rendimento, perdas e custos, a tecnologia também deverá apoiar decisões sobre as aplicações de maior retorno econômico.
Dados também devem orientar a assistência técnica
A integração com os fornecedores já ocorre por meio dos resultados de qualidade e das ações da equipe de campo. A intenção é tornar essa troca mais frequente e útil para a tomada de decisão nas propriedades.
A ampliação da capacidade analítica interna permitirá complementar os dados do laboratório externo, reduzir o intervalo entre a coleta e a atuação técnica e elaborar diagnósticos mais direcionados. A devolutiva deverá combinar resultados e orientação, ajudando a identificar possíveis causas, definir prioridades e estabelecer ações práticas.
Dessa forma, os dados não servirão apenas para calcular a remuneração, mas também para reconhecer produtores que estão evoluindo e apoiar aqueles que precisam melhorar indicadores específicos.
Uma cadeia orientada por dados e valor
Nos próximos anos, a Tirolez pretende construir uma cadeia integrada, na qual as informações circulem desde a propriedade rural até a comercialização do produto final.
O produtor poderá acompanhar como a composição e a qualidade do leite influenciam sua remuneração, enquanto a indústria terá maior visibilidade sobre a transformação e o aproveitamento dos sólidos. Entre as oportunidades estão o aumento dos teores de proteína e gordura, a redução de CCS e CBT/CPP, a melhoria logística, a redução de perdas e o melhor aproveitamento do soro e dos coprodutos.
Para Gustavo Almeida e Bruno Castanheira, a transformação depende não apenas da tecnologia, mas também de uma linguagem comum entre produtores de leite e indústria, baseada em dados confiáveis, critérios transparentes e objetivos compartilhados. “A tecnologia será o meio, mas a transformação principal será cultural”, resume a equipe.
A ambição é consolidar a gestão por sólidos como uma plataforma permanente de melhoria da cadeia láctea, unindo reconhecimento pelo desempenho no campo, eficiência industrial e geração sustentável de valor. Ao elevar a produtividade nas fazendas, na indústria e em toda a cadeia, o setor ganha competitividade frente a outros alimentos e fortalece a posição do Brasil em relação a outros países produtores de lácteos, aproximando sua eficiência e seu aproveitamento de sólidos das melhores referências internacionais. Esse avanço também cria condições para ampliar o mercado de queijos — uma oportunidade relevante diante do consumo brasileiro de cerca de 7 kg per capita, comparado a mais de 12 kg em países vizinhos, como Chile e Argentina.