As culturas lácticas são consideradas protagonistas na fabricação de produtos lácteos fermentados. Essas culturas desempenham um papel fundamental na transformação do leite em produtos como leites fermentados e queijos. Durante a fermentação que ocorre na fabricação desses produtos, espécies como Lactococcus lactis, Streptococcus thermophilus e Lactobacillus delbrueckii subsp. bulgaricus convertem a lactose em ácido lático, reduzindo o pH e criando um ambiente desfavorável ao crescimento de microrganismos indesejáveis. No entanto, o papel dessas culturas vai além da acidificação, pois favorecem o desenvolvimento de reações bioquímicas necessárias para formação das características sensoriais e propriedades tecno-funcionais desejáveis, contribuindo para a textura, aroma, sabor e, ainda, propriedades bioativas de cada tipo de produto fermentado (Huppertz, 2025).
As culturas lácticas empregadas na indústria de laticínios são geralmente compostas por bactérias ácido-lácticas (BAL), embora outras bactérias e fungos possam estar presentes, dependendo das características desejáveis no produto final (Huppertz, 2025). Essas culturas podem ser classificadas de acordo com sua composição, temperaturas ótimas de crescimento ou a função que desempenham nos produtos fermentados (Blaya et al., 2018). Considerando a função que desempenham, são geralmente classificadas como culturas starters, secundárias ou adjuntas (Bintsis, 2018).
Ao contrário das culturas starters (ou iniciadoras), que têm uma função bem definida e amplamente descrita na literatura, sendo responsáveis pela acidificação do leite, os termos “culturas adjuntas” e “culturas secundárias” não possuem uma definição totalmente consensual. Irlinger et al. (2017) utilizam os termos “culturas adjuntas” e “culturas secundárias” como sinônimos, referindo-se a microrganismos adicionados durante a fabricação de queijos, que desempenham papel relevante nos processos de maturação. De acordo com essa definição, esses microrganismos, que incluem fungos, leveduras e bactérias, exercem funções tecnológicas essenciais, contribuindo para a formação de gás, o desenvolvimento da cor, da textura e do aroma característicos que definem o perfil sensorial do queijo (Irlinger et al., 2017).
Segundo El Soda et al. (2000), culturas adjuntas são cepas selecionadas de microrganismos adicionadas ao leite, com a finalidade de complementar a microbiota do produto final e, consequentemente, melhorar a qualidade sensorial dos produtos lácteos fermentados. Como exemplo, pode-se citar a adição de culturas com capacidade de acelerar o processo de maturação dos queijos. A partir desta abordagem, as culturas adjuntas são adicionadas em conjunto com a cultura iniciadora (starter), tendo como principais objetivos intensificar ou modificar o sabor ou, ainda, alterar a textura do produto (Bancalari et al., 2020). Vale destacar que, nessa definição, distinguem-se “culturas adjuntas” e “culturas secundárias”, sendo estas últimas microrganismos que já fazem parte da microbiota natural do produto lácteo, como é o caso das bactérias propiônicas nos queijos tipo suíço, além do Penicillium roqueforti em queijos azuis e do Penicillium candidum em queijos Brie e Camembert (El Soda et al., 2000; Law, 2010).
Considerando as diferentes definições encontradas na literatura, independentemente do conceito a ser adotado, as culturas adjuntas são tradicionalmente empregadas na indústria de laticínios para desenvolvimento de aspectos sensoriais (Irlinger et al., 2017; El Soda et al., 2000; Law, 2010). No entanto, estudos mostram que os efeitos da adição dessas culturas podem não se restringir somente aos queijos e ao desenvolvimento de características sensoriais, já que podem ser utilizadas também para o desenvolvimento de produtos com potenciais benefícios à saúde dos consumidores (Baptista & Gigante, 2020; Cavalheiro et al., 2020; Park & Nam, 2015).
Esse é o caso da aplicação de culturas probióticas em produtos lácteos fermentados. Essas culturas consistem em microrganismos vivos que podem ser adicionados ao processamento, juntamente com culturas iniciadoras (starter), e conferem benefícios à saúde do hospedeiro, quando administradas em quantidades adequadas (Ribeiro et al., 2014; FAO/WHO, 2001). O principal alvo dessas cepas probióticas é o trato gastrointestinal, podendo desempenhar uma série de benefícios, como, por exemplo, aliviar quadros de diarreia, além de terem potencial de exercer atividade positiva sobre o sistema imunológico em indivíduos saudáveis ao reduzir os riscos de possíveis inflamações (Vandenplas et al., 2015).
Mais recentemente, as culturas adjuntas têm sido exploradas por seu potencial de favorecer a formação de peptídeos bioativos com possíveis benefícios à saúde (Baptista & Gigante, 2021; Cavalheiro et al., 2020). Os peptídeos bioativos são pequenos fragmentos de proteínas que permanecem inativos até serem liberados pela ação de enzimas, o que pode ocorrer durante a fermentação ou a maturação, no caso de queijos, ou ainda na digestão gastrointestinal após a ingestão do produto. Esses compostos têm despertado grande interesse por seus possíveis efeitos benéficos, como auxílio no controle da pressão arterial, ação antioxidante, modulação do sistema imunológico e melhoria na absorção de minerais (Munhóz & Baptista, 2025).
Nesse contexto, as culturas adjuntas com atividade proteolítica ganham destaque por sua capacidade de favorecer a formação desses peptídeos (Baptista & Gigante, 2021; Cavalheiro et al., 2020). Essas culturas produzem enzimas que hidrolisam as proteínas do leite, liberando fragmentos com potencial bioativo. A escolha adequada das cepas, aliada a fatores tecnológicos como condições de processamento e tempo de maturação, influencia diretamente o perfil e a quantidade de peptídeos formados, bem como o potencial bioativo do produto (Baptista & Gigante, 2021; Cavalheiro et al., 2020; Galli et al., 2019).
Algumas culturas adjuntas também se destacam pela capacidade de produzir exopolissacarídeos (EPS) durante a fermentação, compostos que têm despertado grande interesse por seus efeitos tecnológicos e funcionais (Wang et al., 2018; Ale et al., 2023). Do ponto de vista tecnológico, os EPS contribuem para melhorar a textura, aumentar a viscosidade e reduzir a sinérese, conferindo cremosidade e estabilidade aos produtos fermentados (Huppertz, 2025). Já sob o aspecto funcional, esses polissacarídeos podem exercer efeitos prebióticos e atividade antioxidante, além de interagir positivamente com a microbiota intestinal (Ale et al., 2023).
Assim, seja no aspecto sensorial ou funcional, as culturas adjuntas são fundamentais para o desenvolvimento e a agregação de valor aos produtos lácteos fermentados. Além de definirem características sensoriais específicas como sabor, aroma e textura, esses microrganismos também podem promover a liberação de compostos bioativos com potenciais benefícios à saúde. Portanto, o uso estratégico dessas culturas reforça a importância dos lácteos fermentados como alimentos que unem aspectos sensoriais, tecnologia e funcionalidade nutricional.
Referências bibliográficas
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