Porque as Américas estão superando a Europa no comércio internacional de lácteos

Segundo a RaboResearch, o comércio global de lácteos está mudando, com a migração do foco da Europa para as Américas, especialmente os EUA, que se tornam o motor de crescimento do setor.

Publicado por: MilkPoint

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O comércio global de lácteos está mudando, com a migração do foco da Europa para as Américas, especialmente os EUA, que se tornam o motor de crescimento do setor. A participação da União Europeia nas exportações caiu de 30% para 27% desde 2017, devido a restrições ambientais e envelhecimento da população produtora. O queijo se destaca como o principal impulsionador do crescimento, enquanto a dependência da China diminui, abrindo espaço para novos mercados. Os EUA precisam manter práticas sustentáveis para liderar na próxima década.
O mapa do comércio global de lácteos está sendo redesenhado. Durante décadas, a velha guarda europeia ditou o ritmo dos mercados, enquanto a China atuava como um enorme aspirador de qualquer excedente de oferta. Mas, à medida que avançamos para a segunda metade de 2026, uma nova realidade começa a se consolidar. Segundo o mais recente Mapa Mundial de Lácteos da RaboResearch, o comércio global de lácteos passa por um grande reequilíbrio, no qual o centro de gravidade está migrando de forma decisiva para as Américas, e o "ouro branco" do passado está sendo substituído pelos "pixels de proteína" do futuro.

Os números gerais mostram um setor resiliente. O comércio mundial de lácteos continua crescendo a uma taxa estável de 2% ao ano, com os volumes já ultrapassando impressionantes 100 bilhões de quilos em equivalente leite. Mas, para o produtor norte-americano, o mais importante não está no volume total negociado, e sim nas mudanças estruturais que estão posicionando a pecuária leiteira dos Estados Unidos como o principal motor do crescimento da próxima década.

Mudança no equilíbrio de poder

A Europa continua sendo a maior exportadora mundial de lácteos, mas seu domínio está enfraquecendo. Desde 2017, a participação da União Europeia no comércio global caiu de 30% para 27%. As razões são conhecidas por quem acompanha o cenário regulatório internacional: envelhecimento da população de produtores, endurecimento das restrições ambientais e pressões relacionadas à sustentabilidade que passaram a limitar o crescimento da produção europeia.

"Estamos observando uma redistribuição gradual da participação nas exportações, saindo da Europa e migrando para produtores mais competitivos e menos limitados das Américas", afirma Tom Booijink, especialista sênior em lácteos da RaboResearch. Enquanto a Europa perde espaço, Estados Unidos, Argentina e Uruguai ocupam esse vazio. Não se trata apenas de uma oscilação de mercado, mas de uma mudança estrutural.

O produtor norte-americano, munido de precisão genômica e da determinação construída ao longo de várias gerações, demonstra que um ambiente regulatório menos restritivo, aliado a grandes investimentos na indústria de processamento de leite, constitui uma fórmula vencedora para 2027 e os anos seguintes.

Além da dependência da China

Durante muitos anos, a saúde do mercado internacional de lácteos foi medida quase exclusivamente pela demanda chinesa. A China já não é o destino previsível para a desova de grandes volumes de leite em pó. Esse cenário mudou.

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Impulsionada pela busca por maior autossuficiência e pela mudança nos hábitos alimentares da população, a China reduziu suas importações em relação aos picos registrados em 2021. Em vez de provocar uma crise, essa mudança abriu espaço para uma maior diversificação do comércio mundial.

Os fluxos comerciais estão sendo redirecionados para novos polos de crescimento no Sudeste Asiático, no Oriente Médio e no Brasil. Para os produtores dos Estados Unidos, essa transformação é considerada positiva. Um mapa comercial mais diversificado reduz a dependência do chamado "fator China" e amplia as oportunidades de conquistar consumidores de maior valor nos mercados emergentes, que estão apenas começando a descobrir os benefícios dos lácteos premium dos Estados Unidos.

Queijo se consolida como principal motor de crescimento

Se há um produto que concentra o crescimento do setor, esse produto é o queijo. Desde 2017, o comércio mundial de queijo aumentou 40%. O produto deixou de ser apenas um alimento básico para se tornar um dos principais itens de valor agregado do mercado internacional. "O queijo se tornou, sem dúvida, o principal impulsionador do crescimento", destaca Booijink.

Esse avanço é o que está atraindo os US$ 13 bilhões em novos investimentos em processamento observados nas regiões das Grandes Planícies e do sudoeste dos Estados Unidos. Segundo a RaboResearch, as novas plantas industriais já não estão sendo construídas para produzir apenas leite fluido, mas principalmente para processar sólidos do leite, cuja demanda mundial continua crescendo.

Mas não se trata apenas do bloco de queijo cheddar. A nova matemática do valor dos lácteos está no subproduto. O soro de leite, antes considerado um produto residual, viu seu valor estratégico disparar. Impulsionado pela mania global das proteínas e pela ascensão dos medicamentos para perda de peso da classe GLP-1 — que exigem que os pacientes priorizem o consumo de proteínas para preservar a massa muscular —, o soro de leite deixou de ser uma commodity para se tornar um ingrediente nutricional especializado. Trata-se de uma estratégia de geração de valor que está mudando fundamentalmente a economia do pagamento recebido pelo produtor de leite.

O futuro pertence a quem consegue crescer

O relatório da RaboResearch levanta uma questão central para o setor: quais regiões terão capacidade para abastecer o crescimento da demanda mundial na próxima década? Em 2026, a resposta é Estados Unidos e Argentina. Enquanto a Nova Zelândia enfrenta limitações de disponibilidade de terras e a Europa lida com exigências crescentes de sustentabilidade, as Américas aparecem como as regiões mais competitivas e mais capazes de atender ao aumento da demanda global por lácteos.

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A vantagem dos Estados Unidos está enraizada em uma combinação única de disponibilidade de terras, oferta confiável de alimentos para os animais e a agilidade tecnológica necessária para superar os concorrentes globais em eficiência. No entanto, manter essa liderança no mercado global exige mais do que apenas uma produção elevada. Para permanecer no topo do mapa da RaboResearch, a indústria de lácteos dos Estados Unidos precisa continuar garantindo sua licença social para operar, priorizar práticas trabalhistas sustentáveis e proteger recursos fundamentais, como terra e água, diante da crescente competição de outros setores industriais.

O que isso significa para os produtores

A principal mensagem para os produtores norte-americanos é clara: o leite deixou de ser um produto voltado apenas para o mercado local. Você faz parte de uma cadeia global de suprimento que está se reequilibrando a seu favor. 

À medida que 2027 se aproxima, a era do produtor médio ficou para trás. Ter sucesso nessa nova configuração global exige compreender como mudanças regulatórias em Bruxelas ou novas tendências de consumo no Brasil podem influenciar diretamente a rentabilidade da atividade nos Estados Unidos.

Já não estamos apenas ordenhando vacas; estamos impulsionando uma revolução global das proteínas. Com a Europa em retração e as Américas em ascensão, os EUA encontram espaço para liderar. É um jogo de alto risco, mas, com os dados certos e a determinação incansável do produtor de leite norte-americano, é um jogo possível de vencer.

As informações são do Dairy Herd Management, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.

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