O pano de fundo de todas essas operações corporativas é um setor primário em plena expansão produtiva, mas sob um processo de forte centralização. Segundo os últimos dados da Bolsa de Comércio de Rosário (BCR), a produção láctea argentina atingiu seu nível mais alto em uma década durante o primeiro quadrimestre do ano, registrando 3,5 milhões de litros entre janeiro e abril, o que representa um aumento de 9,3% em relação à média da última década. A produção média diária por fazenda chegou a 3.287 litros (27% acima do rendimento dos últimos cinco anos), mas esse crescimento convive com uma marcada concentração da oferta: as fazendas de maior escala — aquelas que superam os 10.000 litros diários — já representam quase 30% da produção nacional, frente aos magros 5% registrados em 2010.
Nesse cenário de maior volume, as grandes corporações aceleraram suas estratégias de consolidação e saída. O primeiro grande marco do ano se consolidou no fim de março, quando Arcor e Danone anunciaram a aquisição da totalidade do pacote acionário da Mastellone Hermanos S.A., dona da emblemática marca La Serenísima. A operação, executada por meio da Bagley Argentina S.A., permitiu que elas selassem o controle de 100% da companhia e unificassem o rumo estratégico da líder do mercado local. Ambos os grupos econômicos assumiram o controle dos 51,32% restantes do capital social e dos votos que permaneciam nas mãos da família fundadora e do fundo de investimento Dallpoint Investments LLC.
Em fevereiro, o tabuleiro voltou a ser sacudido com a retirada de quem vinha liderando o mercado local: a multinacional canadense Saputo assinou um acordo para vender 80% de sua divisão láctea na Argentina ao holding peruano Gloria Foods. A transação foi fixada em um valor aproximado de US$ 630 milhões — o que permitirá ao gigante de Montreal receber receitas líquidas estimadas em US$ 400 milhões depois dos impostos —, tornando-se uma das maiores operações da indústria alimentícia local nos últimos anos. O movimento gerou forte impacto e surpresa no setor, já que a Saputo se posicionava como a indústria número um em recepção de leite na Argentina, processando mais de 3,5 milhões de litros diários durante o período 2024/2025 por meio de suas duas plantas de produção e marcas com forte penetração nas gôndolas, como La Paulina, Ricrem e Molfino.
De acordo com a empresa, que é listada na Bolsa de Toronto e informou que sua filial argentina gerava receitas de 1,2 bilhão de dólares canadenses (próximo de 7% de seu faturamento global), a decisão responde a uma otimização de sua presença global. De fato, os canadenses manterão 20% das ações, o que lhes permitirá preservar o fluxo de exportações, e a nova gestão sob a Gloria Foods continuará fabricando produtos específicos em nome da Saputo. O holding peruano, por sua vez, já operava no país por meio da Corlasa, processando cerca de 800.000 litros diários. Ao assumir o controle da maior plataforma exportadora de queijos da Argentina e somar a ela o volume da Saputo, a fusão os transforma, por ampla margem, na nova empresa número um do setor lácteo argentino. Além disso, já definiu sua estratégia: La Paulina será a marca principal e o coração de sua expansão para disputar a liderança definitiva contra players do porte de Mastellone Hnos. e Adecoagro.
Precisamente, o vento favorável do comércio exterior é o grande ímã para esses capitais. As exportações do complexo lácteo atingiram 130.000 toneladas no primeiro quadrimestre, consolidando o maior volume desde 2012, por um valor de US$ 455 milhões (FOB). Com o Brasil consolidado como o principal destino — recebeu mais de 60.000 toneladas, 40% a mais que no ano anterior — e mercados como Argélia, Chile e China completando o pódio, a escala exportadora passou a ser a chave da rentabilidade.
Paralelamente aos acordos entre privados, o âmbito judicial impôs um ponto de inflexão definitivo ao caso mais crítico e prolongado da indústria nacional: a situação da SanCor. A histórica cooperativa de Sunchales, que pediu sua própria falência após acumular um passivo de US$ 120 milhões, entrou em sua etapa de liquidação pública. O juiz Marcelo Germán Gelcich assinou a resolução para colocar à venda todos os seus ativos divididos em sete lotes, com uma base total de US$ 52,1 milhões.
A disputa despertou um interesse extremamente competitivo, atraindo a apresentação formal de seis proponentes de peso, segundo fontes do mercado: Savencia — dona da Milkaut —, Adecoagro, Elcor — titular da marca La Tonadita —, La Tarantela, Punta del Agua e o empresário de mídia Gustavo Scaglione. O grande objeto de desejo da licitação é o lote número sete, que reúne as marcas e os bens intangíveis da companhia, cotado com uma base própria de US$ 24,7 milhões. O mercado reconhece que, para além do estado da infraestrutura fabril, o enraizamento da marca SanCor continua sendo um ativo de ouro para ganhar posicionamento rápido no consumo de massa.
Como corolário dessa febre de movimentações, o mercado segue testando o apetite dos investidores internacionais. O sintoma mais recente dessa tendência são as versões sobre o futuro da Establecimientos San Ignacio S.A., a histórica empresa santafesina fundada em 1939 e principal exportadora de doce de leite do país. A companhia atravessa negociações “muito avançadas” — embora não queiram dar declarações — para ser adquirida pelo holding Mexicana de Industrias y Marcas (MIYM). O grupo de Puebla, especialista em soluções industriais de envase e que já adquiriu este ano as PMEs locais Lácteos Aurora e Lácteos Karina, vê na San Ignacio uma plataforma estratégica para entrar com força no negócio global de doce de leite e queijo azul.
Essa sequência de operações deixa clara o paradoxo central do setor. Enquanto as estruturas mais rígidas e endividadas caem pelo próprio peso, o recorde exportador, a alta eficiência das fazendas concentradas e o valor das marcas tradicionais operam como um ímã.
As informações são da Forbes Argentina.
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