A relação da fabricante de alimentos Ferrero com a agricultura começa antes do cacau, avelãs ou leite chegarem às fábricas. Para uma companhia dependente dessas matérias-primas, saber de onde elas vêm tornou-se também uma forma de administrar riscos ambientais, sociais e climáticos da operação.
Essa lógica está por trás do Ferrero Farming Values, programa que começou na cadeia de avelãs e foi ampliado para orientar a estratégia de abastecimento de ingredientes como laticínios, cacau, óleo de palma e café. No ano fiscal 2024/25, a rastreabilidade chegou a 98% do cacau, 98,6% do óleo de palma, 97% das avelãs e 100% do café comprado pelo grupo.
Agora, uma das próximas etapas é conectar esse conhecimento sobre a origem das matérias-primas à descarbonização da cadeia e aos testes de agricultura regenerativa. O objetivo é identificar quais práticas conseguem melhorar indicadores relacionados, por exemplo, à qualidade do solo e à água antes de ampliar sua aplicação.
A estratégia é especialmente relevante porque boa parte dos riscos à reputação e governança da Ferrero está fora dos portões das fábricas. Eles aparecem na produção agrícola e variam de acordo com a matéria-prima e a região: podem envolver desmatamento, emissões de carbono, trabalho infantil e trabalho forçado, além da própria exposição das matérias-primas às mudanças climáticas. “Queremos entender se certas práticas realmente levam à melhoria dos indicadores”, diz Abreu. “É um processo um pouco longo, não é de um dia para o outro.”
Rastreabilidade virou ferramenta para localizar riscos
A estratégia recupera uma ideia antiga da Ferrero: conhecer a origem das matérias-primas para controlar características como sabor, aroma, textura e qualidade. A rastreabilidade acrescentou outra camada a esse conhecimento. Saber com maior precisão onde os ingredientes foram produzidos permite direcionar projetos às regiões fornecedoras e acompanhar riscos socioambientais associados a elas. “Nós aproveitamos uma ideia que já existia e começamos a investir bastante em rastreabilidade. Não é só garantir que, daquela geografia ou de uma microrregião da Turquia, vem a avelã. Queremos entender quem são aqueles produtores e de onde exatamente vêm aquela avelã, aquele leite ou aquele café”, diz Abreu.
A companhia também pretende usar essa informação para avançar na contabilização das emissões ligadas à agricultura. Uma das frentes é relacionar a localização dos fornecedores a dados sobre carbono, inclusive com informações obtidas por tecnologias de satélite. A meta é conseguir acompanhar, ao longo do tempo, a pegada associada aos ingredientes e demonstrar períodos sem desmatamento nas áreas fornecedoras. “Para conseguirmos demonstrar que não há desmatamento por 20 anos, precisamos, de novo, ter rastreabilidade. Temos que poder dizer: estamos comprando desse lugar, dessas comunidades, dessa área, e provar isso ao longo do tempo”, afirma.
Foto: Ferrero/divulgação
Agricultura regenerativa entra na próxima fase
Os projetos em Gana, Argentina e Indonésia buscam verificar como práticas diferentes afetam indicadores específicos de cada cultura. A Ferrero trabalha com universidades, organizações locais e outros parceiros para acompanhar os resultados. A companhia trabalha com uma universidade holandesa no trabalho de identificação dos principais indicadores para cada matéria-prima. O ponto de partida é que regenerar uma área produtora de leite não necessariamente exige os mesmos critérios usados em uma plantação de óleo de palma.
“Nós estamos tentando entender, para cada uma das principais matérias-primas que consumimos, quais são os principais indicadores de agricultura regenerativa, para saber se realmente estamos regenerando, melhorando e trazendo de volta a qualidade do solo e as condições relacionadas à água”, afirma.
As informações são da Exame, adaptadas pela equipe MilkPoint.
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