Produzir leite com menor pegada de carbono começa pelo que o produtor já busca: eficiência

É possível reduzir a pegada de carbono do leite e, ao mesmo tempo, melhorar o desempenho produtivo e econômico da fazenda?

Publicado em: - 6 minutos de leitura

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Um estudo da UFLA revela que fazendas leiteiras eficientes podem aumentar a produtividade e a lucratividade enquanto reduzem as emissões de gases de efeito estufa. A pesquisa avaliou 26 propriedades em Minas Gerais, mostrando que a eficiência produtiva está ligada a uma menor pegada de carbono. Fazendas com melhor manejo e recursos apresentam resultados econômicos positivos. A sustentabilidade na pecuária deve considerar o sistema como um todo e pode ser promovida através de dados e tecnologia.
Estudo desenvolvido na UFLA mostra que fazendas mais eficientes conseguem unir produtividade, resultados econômicos e menor intensidade de emissões de gases de efeito estufa.

Este artigo integra a coluna Despertar Regenerativo, uma iniciativa conjunta da ESGpec e do MilkPoint dedicada a explorar, com base científica e aplicada, os caminhos da sustentabilidade na produção de leite.

Nos artigos anteriores desta coluna, discutimos como a sustentabilidade deixou de ser apenas uma agenda ambiental para se tornar parte da estratégia das cadeias produtivas. Falamos sobre carbono, rastreabilidade, dados e a importância de transformar as informações geradas na fazenda em decisões práticas.

Agora, damos o próximo passo nessa conversa trazendo uma pergunta essencial para quem vive o dia a dia da produção: é possível reduzir a pegada de carbono do leite e, ao mesmo tempo, melhorar o desempenho produtivo e econômico da fazenda?

Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Lavras (UFLA) mostra que sim. E talvez o caminho esteja mais próximo da realidade do produtor do que muitos imaginam. Os resultados indicam que reduzir a intensidade das emissões por litro de leite produzido está diretamente conectado a algo que bons produtores já buscam todos os dias: eficiência.

Quando a ciência encontra os dados do campo

Na dissertação de Mestrado desenvolvida pelo aluno Thaynan Ferreira de Araújo, no Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia da Produção Animal da Universidade Federal de Lavras (UFLA), sob orientação do professor Daniel Rume Casagrande, avaliou-se a relação entre as emissões de gases de efeito estufa, desempenho produtivo, indicadores zootécnicos e indicadores econômicos em propriedades leiteiras.

O estudo foi conduzido em 26 fazendas localizadas no Centro-Oeste de Minas Gerais. Foram analisados indicadores relacionados à estrutura do rebanho, à produção de leite, à alimentação, ao manejo, ao uso de recursos, às emissões de gases de efeito estufa e ao desempenho econômico.

A pegada de carbono foi estimada utilizando o PEC Calc, tecnologia desenvolvida pela ESGpec, baseada nos princípios da Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), considerando as emissões da produção dos insumos até a porteira da fazenda (cradle-to-farm gate).

O estudo buscou entender quais fatores explicam por que algumas fazendas conseguem produzir com menor impacto ambiental por litro de leite produzido e a relação entre a intensidade de emissão de gases de efeito estufa (GEE) e o desempenho zootécnico e econômico de propriedades leiteiras localizadas na região Centro-Oeste de Minas Gerais.

Eficiência produtiva como caminho para reduzir emissões

A pesquisa foi conduzida in loco em unidades produtivas com acompanhamento técnico e gerencial prévio mínimo de 12 meses. As propriedades avaliadas apresentaram emissão média de 1,52 kg CO² equivalente por kg de leite corrigido para gordura e proteína (FPCM). Foi observada ampla variação entre as propriedades avaliadas, tanto em produção de leite, produtividade e sistemas produtivos. As fazendas da amostra são consideradas mais tecnificadas em relação à média brasileira, e apresentaram pegada de carbono variando entre 1,00 e 2,42 kg CO² equivalente por kg de FPCM. A pegada de carbono é o reflexo das decisões de manejo, da eficiência produtiva, manejo de dejetos e da gestão adotada dentro da porteira.

Entender essas diferenças é justamente onde surgem as maiores oportunidades: identificar quais fatores fazem algumas fazendas produzirem mais leite utilizando melhor os recursos disponíveis e, consequentemente, reduzindo a intensidade das emissões.

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Figura 1. Principais resultados do estudo desenvolvido na UFLA mostrando a relação entre eficiência produtiva, lucratividade e intensidade de emissões na produção de leite.

 

 

 

As propriedades com maior produtividade animal (litros/vaca em lactação/dia) apresentaram menor intensidade de emissões por litro de leite produzido. Isso acontece porque sistemas mais eficientes conseguem aproveitar melhor os recursos utilizados na produção. Animais mais produtivos possuem melhor eficiência alimentar, melhores índices reprodutivos e maior proporção de vacas efetivamente produzindo leite contribuem para diluir as emissões necessárias para manter o sistema em funcionamento.

Na prática, o estudo reforça uma mensagem importante: antes de olhar apenas para as emissões, muitas vezes precisamos considerar as ineficiências do sistema.

Sustentabilidade e resultado econômico caminham juntos

Um dos achados mais relevantes da pesquisa foi a relação entre o desempenho ambiental e o econômico. A análise dos dados demonstrou que fazendas com menor intensidade de emissão também apresentaram melhores indicadores de lucratividade, o que indica que a eficiência econômica e a ambiental podem avançar juntas.

Esse resultado ajuda a desconstruir uma percepção ainda comum de que sustentabilidade implica necessariamente aumento de custos ou adoção de tecnologias distantes da realidade produtiva. Na pecuária leiteira, muitos dos caminhos para reduzir as emissões passam pelos mesmos pontos que fortalecem economicamente a atividade: produzir mais leite com melhor uso dos recursos disponíveis, reduzir desperdícios, melhorar eficiência alimentar, otimizar a estrutura do rebanho e aprimorar a gestão. A pegada de carbono, além de ser um indicador ambiental, reflete a eficiência do sistema produtivo, a saúde da fazenda leiteira, embora ainda seja uma variável pouco explorada na prática.

A fazenda precisa ser vista como um sistema completo

Embora o metano entérico seja frequentemente o principal foco das discussões climáticas envolvendo ruminantes, a pesquisa mostrou a importância de avaliar a fazenda como um sistema integrado.

Nos sistemas avaliados, a produção de alimentos e o manejo de pastagens representaram 48,2% das emissões, enquanto o metano entérico respondeu por 43,4%. Esse resultado demonstra que estratégias de sustentabilidade precisam considerar diferentes componentes da produção, incluindo nutrição, uso de insumos, manejo do solo, produtividade e gestão dos recursos.

A construção de uma pecuária mais eficiente e sustentável não depende apenas de uma solução isolada, mas da capacidade de compreender o sistema produtivo como um todo.

Quando dados do campo viram conhecimento científico

Além dos resultados técnicos, este estudo representa uma mudança importante na forma como a sustentabilidade pode avançar na pecuária brasileira: aproximando ciência, tecnologia e campo.

A dissertação desenvolvida na UFLA é um exemplo dessa integração e faz parte do propósito do ESGpec Synergy, programa criado para fortalecer a colaboração com universidades, pesquisadores e instituições interessadas em desenvolver estudos aplicados à sustentabilidade agropecuária.

Por meio dessa iniciativa, pesquisadores têm acesso às tecnologias da ESGpec para explorar novas perguntas científicas, validar metodologias e gerar indicadores baseados em dados dos sistemas produtivos.

Essa conexão é especialmente importante porque a pecuária brasileira possui sistemas diversos, condições tropicais específicas e diferentes realidades produtivas. Construir conhecimento baseado nesses dados é essencial para mostrar, com evidências, os caminhos para uma produção mais eficiente, sustentável e competitiva.

A evolução sustentável da pecuária começa pela gestão

A principal mensagem deixada pela pesquisa é que melhorar os indicadores ambientais da produção de leite começa por produzir melhor, e não necessariamente por tentar reduzir emissões.

A sustentabilidade da pecuária leiteira passa pela capacidade de medir, entender e melhorar continuamente os sistemas produtivos. Dados deixam de ser registros da fazenda e passam a ser ferramentas para orientar decisões. A eficiência e sustentabilidade caminham juntas: produzir melhor significa usar melhor os recursos, fortalecer o negócio e construir uma pecuária preparada para o futuro.

ESGpec Synergy viabilizando parcerias

“Por meio do ESGpec Synergy, buscamos fortalecer a conexão entre ciência, tecnologia e campo, apoiando a geração de conhecimento aplicado e o desenvolvimento de soluções inovadoras para os desafios da sustentabilidade na pecuária de leite. Somos muito gratos ao Thaynan Ferreira e ao professor Daniel Casagrande, da UFLA, pela confiança nessa parceria. Acreditamos que a transformação do setor depende justamente dessa colaboração entre produtores, empresas, pesquisadores e instituições de ensino”, destaca Bruna Silper, CEO e cofundadora da ESGpec.

Se você é professor, pesquisador, ou profissional da cadeia leiteira e tem interesse em desenvolver projetos, pesquisas ou parcerias, convidamos você a conhecer ESGpec Synergy: https://www.esgpec.com.br/synergy.

Como participar do Despertar Regenerativo

Produtores de leite podem participar gratuitamente do projeto e obter indicadores de pegada de carbono, bem-estar animal e desempenho ESG de suas fazendas. A iniciativa é realizada pela ESGpec em parceria com o MilkPoint e oferece acesso a ferramentas digitais que ajudam produtores e técnicos a compreender e aprimorar a sustentabilidade dos sistemas de produção.

Para participar, basta acessar despertarregenerativo.com.br e realizar o cadastro.

O acesso é individual, válido por 12 meses, e inclui suporte por e-mail durante todo o período.

Conheça os indicadores ESG da sua fazenda, saiba como evoluir e comece hoje o seu despertar regenerativo.

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