A ordenha está mudando. E talvez a principal transformação não esteja apenas nos robôs, sensores ou equipamentos cada vez mais sofisticados. Está na forma como a fazenda passa a enxergar o próprio processo.
Durante o painel 2 “Ordenha e qualidade do leite”, realizado no dia 19 de agosto, na Sala Técnica do Interleite Brasil 2026, duas apresentações mostraram lados complementares dessa transformação. De um lado, o professor Marcos Veiga dos Santos, da FMVZ/USP, discutiu como automação e tecnologias de precisão podem tornar a ordenha mais eficiente sem perder de vista aquilo que continua sendo central: a vaca. Do outro, Cláudio Pereira apresentou a trajetória da Fazenda Coqueiros, em Orizona (GO), que saiu de uma ordenha convencional para um sistema robotizado e encontrou na tecnologia uma ferramenta para aproveitar melhor o potencial do rebanho.
Entre sensores, teteiras, fluxo de leite, robôs e indicadores, uma frase de Cláudio ajudou a resumir o tamanho da oportunidade que muitas fazendas ainda têm pela frente: “eu tinha uma Ferrari e andava de Fusca. Tínhamos genética e não sabíamos aproveitar ela.”
A ordenha eficiente começa antes de ligar o equipamento
Quando se fala em tecnologia na ordenha, é fácil imaginar imediatamente um robô. Mas, segundo Marcos Veiga, a eficiência do processo depende da interação de três fatores fundamentais: a saúde dos tetos e do úbere, a curva de fluxo de leite e as tecnologias utilizadas durante a ordenha. Isso significa que um equipamento moderno, sozinho, não resolve uma ordenha mal conduzida.
Marcos Veiga dos Santos. Fonte: MilkPoint
A saúde dos tetos, por exemplo, pode sofrer alterações de curto e longo prazo. No curto prazo, problemas como congestão e formação de anéis na base dos tetos podem estar relacionados à sobreordenha, excesso de vácuo ou falhas na massagem. Os sinais incluem tetos arroxeados ou avermelhados e podem gerar desconforto para o animal. No longo prazo, o estresse mecânico crônico pode contribuir para alterações como a hiperqueratose.
A boa notícia é que, quando o equipamento está corretamente ajustado, sua influência direta sobre a ocorrência de mastite é relativamente pequena. O problema aparece quando os ajustes e o manejo deixam de respeitar aquilo que a vaca está mostrando durante a ordenha. E é justamente aí que entra a tecnologia de precisão.
Não é tirar o máximo de leite. É saber a hora de parar
Uma das mudanças de conceito mais importantes discutidas durante a palestra envolve a sobreordenha. Durante muito tempo, a lógica predominante foi simples: extrair o máximo possível de leite. Mas eficiência não significa manter o equipamento trabalhando até o último instante possível. Significa saber até onde ir sem transformar a ordenha em um fator de desconforto ou risco para o animal.
A sobreordenha ocorre quando o vácuo continua atuando sobre o teto depois que o fluxo de leite já terminou. O resultado pode ser maior desconforto e estresse sobre os tecidos. Por isso, o fluxo de leite passa a ser uma informação estratégica para determinar o momento correto da retirada das teteiras. A tecnologia permite justamente transformar esse tipo de informação em ação.
Sensores e sistemas automáticos podem acompanhar o fluxo individual, identificar mudanças no comportamento da ordenha e ajudar a determinar o momento adequado para a retirada do conjunto. O objetivo deixa de ser simplesmente “ordenhar mais” e passa a ser ordenhar melhor.
A vaca também precisa de um equipamento que sirva nela
Outro ponto destacado por Marcos Veiga foi a escolha das teteiras. Pode parecer um detalhe técnico, mas a comparação apresentada é bastante simples: é como escolher um sapato. O equipamento precisa se ajustar corretamente. Diâmetro, formato, material, ventilação e características da teteira influenciam a interação entre o equipamento e o teto. Uma escolha inadequada pode comprometer tanto a eficiência da ordenha quanto a qualidade da massagem e o conforto do animal.
A mensagem é importante porque mostra um erro comum quando se fala em tecnologia: buscar uma solução universal. Não existe necessariamente uma configuração ideal para todas as vacas, todos os rebanhos ou todos os sistemas. A tecnologia precisa ser ajustada à realidade da fazenda.
Automação está diminuindo a distância entre a ordenha convencional e a robótica
A automação já está presente em diferentes níveis dentro das propriedades leiteiras. Entre as tecnologias citadas durante a palestra estão os extratores automáticos de teteiras, sistemas de identificação eletrônica, sensores em linha para auxiliar na detecção precoce de mastite e ajustes dinâmicos de pulsação e vácuo. Isso ajuda a quebrar uma ideia comum: a fazenda não precisa necessariamente “virar robotizada” para começar a utilizar tecnologia de precisão. A automação pode ser construída em etapas.
Na rotina de ordenha, há oportunidades tanto antes quanto depois da retirada do leite. Na pré-ordenha, entram processos como desinfecção, limpeza e secagem dos tetos. Na pós-ordenha, tecnologias e protocolos podem contribuir com o pós-dipping, a retrolavagem das teteiras e o controle do vácuo. O desafio, segundo a discussão apresentada, é avançar na automação dessas etapas sem perder a qualidade da execução. A grande mudança é que a ordenha deixa de depender apenas do olhar humano para perceber o que está acontecendo.
Os dados começam a enxergar junto. “Eu tinha uma Ferrari e andava de Fusca”
Se a palestra de Marcos Veiga mostrou as possibilidades tecnológicas disponíveis para melhorar a ordenha, o estudo de caso da Fazenda Coqueiros mostrou o que acontece quando a tecnologia encontra um objetivo claro.
A fazenda, localizada em Orizona (GO), passou por uma transformação importante em seu sistema de produção. Antes dos robôs, trabalhava com ordenha convencional, três ordenhas por dia e seis colaboradores diretamente envolvidos na operação. A busca por maior eficiência, os desafios relacionados à mão de obra e o desejo de ampliar a produção impulsionaram a procura por novas tecnologias.
Cláudio Pereira, Fazenda Coqueiros. Fonte: MilkPoint
Mas a decisão não foi apresentada como uma simples troca de equipamento. Foi uma mudança de modelo.
Os resultados apresentados por Cláudio mostram a dimensão dessa transformação:
- O volume mensal de leite passou de 73.090 litros para 125.040 litros;
- A produção diária saltou de 2.399,5 litros para 4.124,6 litros;
- O número médio de vacas em lactação aumentou de 73,3 para 97,4;
- A produção por vaca/dia passou de 32,6 litros para 42,1 litros.
Os números apresentados no estudo de caso ajudam a ilustrar como a implantação do sistema robotizado esteve acompanhada de uma evolução relevante nos indicadores da Fazenda Coqueiros. Mas talvez o dado mais interessante não seja apenas o aumento da produção. É a quantidade de informação que passou a circular dentro da fazenda.
O robô não ordenha apenas a vaca. Ele gera decisões
Entre as vantagens destacadas pela Fazenda Coqueiros estão a melhoria no monitoramento dos indicadores, impactos sobre produtividade e qualidade do leite, avanços na gestão e maior flexibilidade na rotina. Esse talvez seja um dos maiores diferenciais da tecnologia. O robô não substitui apenas uma tarefa manual. Ele transforma cada ordenha em uma fonte de informação.
Quanto aquela vaca produziu? Como está o fluxo de leite? Houve mudança no comportamento? Existe algum indicador fora do padrão? O que precisa ser observado antes que o problema se torne maior? A tecnologia amplia a capacidade de monitoramento. E, em sistemas cada vez mais complexos, isso pode fazer uma enorme diferença.
A Fazenda Coqueiros trabalha com rebanho 100% fechado e estabeleceu uma meta ambiciosa: chegar a 50 kg de leite por vaca/dia, combinando seleção de animais, eficiência e sustentabilidade. Mas Cláudio também trouxe uma dimensão que vai além da produção.
A tecnologia também pode aproximar a sucessão
A sucessão familiar costuma ser um dos maiores desafios das propriedades leiteiras. Na Fazenda Coqueiros, porém, Cláudio enxerga a tecnologia também como uma ponte entre gerações. Com duas filhas envolvidas no acompanhamento da atividade, ele resumiu a mudança de forma bastante direta: o robô “fala a língua delas”.
Mesmo à distância, a nova geração consegue acompanhar indicadores, participar das decisões e se conectar com a gestão da fazenda por meio dos dados. É uma reflexão importante. A tecnologia pode ajudar a resolver problemas de mão de obra. Pode melhorar a eficiência. Pode aumentar a capacidade de monitoramento. Mas também pode tornar a atividade mais conectada com as novas gerações.
De 10 vacas para 100 litros a uma vaca para 100 litros
No encerramento da apresentação, Cláudio voltou ao início da própria trajetória. No começo, o sonho era ter 10 vacas para produzir 100 litros de leite. Hoje, segundo ele, a fazenda já conseguiu produzir 100 litros com uma única vaca em um dia. A frase foi acompanhada de uma mensagem simples, mas poderosa: persistência, honestidade, trabalho e fé.
E talvez essa seja a melhor síntese das duas palestras. A tecnologia está transformando a ordenha, mas ela não elimina a necessidade de conhecimento. Um sensor precisa ser interpretado. Um equipamento precisa ser corretamente ajustado. Um dado precisa se transformar em decisão. O robô pode ordenhar sozinho. A gestão, não.
No fim, automação, sensores e robótica não devem ser vistos apenas como ferramentas para fazer menos com pessoas. O verdadeiro potencial está em fazer melhor: reduzir gargalos, melhorar o conforto dos animais, aumentar a precisão dos processos e liberar a equipe para decisões que realmente agregam valor à produção. A Fazenda Coqueiros mostra até onde uma mudança tecnológica pode levar uma operação.
A palestra de Marcos Veiga mostra que, antes de buscar a próxima grande inovação, talvez seja preciso fazer uma pergunta mais básica: estamos usando tudo o que já temos da melhor forma possível? Porque, como mostrou o caso de Orizona, às vezes a fazenda já tem uma Ferrari. Só precisa parar de andar de Fusca.