É preciso deixar a cidade e percorrer outros 12 quilômetros para chegar ao Sítio Esperança, onde Laércio Carlos Lerin e Sandra Piovesan criam 35 bovinos, produzem de 400 a 500 quilos de queijo por mês e mantêm uma decisão pouco usual para quem já recebeu propostas de grandes redes varejistas: eles não querem transformar a pequena agroindústria em uma operação de grande escala.
“Somos eu e a Sandra, dois colonos do interior”, diz Lerin, de 33 anos, em entrevista à Forbes. O casal vive na propriedade com a filha de nove anos e espera a chegada da segunda menina. “É bem no interior do interior.” Foi ali que os dois reconstruíram um rebanho praticamente dizimado pela tuberculose bovina, começaram a produzir queijos, conquistaram o registro no Serviço de Inspeção Federal (SIF), e passaram a disputar concursos nacionais. “Até teve propostas de grandes redes de mercado para a gente escalar, principalmente o queijo colonial. Sentamos, conversamos e concluímos que não é isso que queremos.”
A comunidade rural onde vivem os Lerin completou 100 anos e reúne descendentes de italianos, alemães e poloneses. O queijo já fazia parte da alimentação das famílias, quando produzir leite significava também encontrar uma maneira de conservá-lo. “Antigamente não era como hoje, que tem o mercado ali do lado de casa, nem a facilidade de acessar a cidade e comprar produtos”, conta Lerin. Com uma ou duas vacas, o queijo colonial funcionava como reserva de alimento das famílias, principalmente no inverno. Somente parte do excedente era trocado por sal e outros mantimentos.
As famílias de Laércio e Sandra mantiveram o costume, diz ele. “Nossas famílias sempre produziam esse queijo de forma caseira para subsistência.” Laércio conta que Sandra aprendeu com a mãe, mas fazer queijo ainda estava longe de ser um negócio. A renda do sítio vinha mesmo da venda do leite fluído.
Quando a cidade era a saída
Antes de assumir definitivamente a propriedade de 12,5 hectares que pertencia ao pai, Laércio chegou a fazer o caminho percorrido por tantos filhos de agricultores. Foi embora. Ele e Sandra viveram durante um ano em Erechim, município maior, a 12 km. Mas retornaram ao campo em 2017, quando nasceu a primeira filha. “É aquela história: vamos para a cidade, vamos buscar uma condição melhor. A questão financeira talvez até seja mais fácil de conquistar, mas tem muitas coisas que a gente acaba perdendo”, diz ele. “Pude acompanhar todos os passos da minha pequena, que está com nove anos hoje.” Agora, com Sandra grávida novamente, Laécio conta como se sente feliz de ter participado das consultas de pré-natal.”
Mas lá atrás, dois anos depois do retorno, a propriedade enfrentou uma crise que mudaria seu rumo. No início de 2019, testes identificaram tuberculose bovina no rebanho e das 15 vacas leiteiras, nove precisaram ser abatidas. “Nossa propriedade teve um problema muito sério de tuberculose”, conta. O sítio ficou interditado durante um ano e perdeu a atividade que garantia a entrada regular de dinheiro. Restaram alguns terneiros que poderiam ser vendidos, mas não havia mais a receita mensal do leite. “Foi um ano que eu não sei, na verdade, como é que sobrevivemos.”
O momento mais difícil veio em julho daquele mesmo ano, quando outro teste indicou mais duas vacas positivas. Emocionado, Laércio conta que ele e Sandra se sentaram perto do fogão num dia de chuva e decidiram parar. “Mas nossa decisão durou duas horas. Choramos mas dissemos a nós mesmos: ‘se chegamos até aqui não foi para desistir. Vamos começar de novo e vai ter que dar certo’”.
No fim daquele ano, a propriedade saiu da interdição. Era 2021 e para continuar o casal tomou um financiamento para comprar 11 novilhas holandesas próximas do primeiro parto. As vacas começaram a produzir em abril e a renda do leite voltou. Mas, a experiência de ficar praticamente sem receita havia deixado uma pergunta: por que continuar dependendo apenas da venda da matéria-prima?
A resposta começou a ganhar forma em 2022, quando Sandra retomou o conhecimento de fabricação de queijos aprendido com a mãe e o casal decidiu instalar uma pequena agroindústria. Curiosamente, o primeiro produto planejado não era queijo. “Começamos a nossa agroindústria pensando em doce de leite”, diz Lerin. Como os equipamentos também permitiam trabalhar com queijo e ambos conheciam a fabricação, mudaram o plano. O colonial, tradicional na região e presente havia gerações nas duas famílias, foi o primeiro produto.
Hoje, o rebanho é de 35 animais, com cerca de 20 a 22 vacas em lactação, com produção entre 10 mil e 12 mil litros de leite por mês. Em média, metade vai para a fabricação de 400 a 500 quilos de queijo e o restante é vendido à Cooperativa Santa Clara, que mantém a propriedade em sua rota de coleta. Nos períodos em que o casal participa de feiras, todo o leite pode seguir para a cooperativa.
As vacas são mantidas a pasto, em piquetes de estrela-africana, com sobressemeadura de aveia no inverno. São três hectares destinados ao milho para silagem, utilizado na suplementação quando a pastagem não é suficiente. A ordenha é mecânica. É uma estrutura pequena, dentro de um país que produziu perto de 800 mil toneladas de queijo em 2025, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). A Embrapa trabalha com estimativa próxima de 1 milhão de toneladas anuais. O último Censo Agropecuário do IBGE, de 2017, contabilizou cerca de 175 mil estabelecimentos rurais produtores de queijo e requeijão, mais de 140 mil deles pertencentes à agricultura familiar.
Se a escala do Sítio Esperança permaneceu pequena, o território em que seus queijos poderiam circular mudou radicalmente em 2023. No início da agroindústria, a autorização sanitária restringia as vendas a Barão de Cotegipe. Laércio e Sandra queriam obter o Sistema Unificado Estadual de Sanidade Agroindustrial Familiar, Artesanal e de Pequeno Porte, o Susaf-RS, para comercializar em outros municípios gaúchos. Segundo Lerin, encontraram resistência na fiscalização municipal. Nesse período, uma norma voltada às agroindústrias de pequeno porte abriu a possibilidade de seguir diretamente para a inspeção federal.
A coincidência foi importante. Em fevereiro de 2023, Sandra concluiu a graduação em medicina veterinária e assumiu a responsabilidade técnica da queijaria. Os testes sanitários dos animais são realizados por outro veterinário, mas foi ela quem preparou a documentação para o processo federal. “Naquele ano minha esposa também se formou veterinária. Ela montou toda a papelada.”
Depois do envio dos documentos, fiscais do Ministério da Agricultura e Pecuária apareceram na propriedade. “Numa manhã, do nada, apareceram as fiscais do Mapa lá.” Lerin conta que explicou a elas uma contradição que o incomodava: o leite produzido no sítio podia ser recolhido pela Santa Clara e, depois de processado pela cooperativa, vendido nacionalmente, enquanto o queijo feito com a mesma matéria-prima permanecia restrito ao município.
“Nós queremos trabalhar certo e não tem por que nós entregar o leite para a Santa Clara e a Santa Clara poder vender para o Brasil inteiro e nós estar restritos só no município.” A documentação avançou digitalmente e a agroindústria recebeu o registro federal. Segundo Lerin, o Sítio Esperança tornou-se a primeira agroindústria da agricultura familiar do Rio Grande do Sul inspecionada pelo sistema federal. Quando perguntado quanto tempo levou a etapa final do processo, ele responde: “Nove dias.”
O registro permitiu vender em todo o território nacional justamente quando Sandra começava a olhar para um universo de queijos que ia além do colonial feito pelas famílias da região. Em 2023, ela viajou a Blumenau, em Santa Catarina, para conhecer um evento dedicado aos artesanais. “Nós tínhamos essa ideia de produzir queijos autorais, mas a nossa região lá não tinha ninguém que produzia isso”, conta Laércio. O casal havia procurado orientação até na vigilância local. “Eles também não sabiam.”
Sandra voltou de Santa Catarina com contatos de produtores e profissionais de outros Estados. No ano seguinte, inscreveu-se na disputa de melhor queijeiro do Brasil, realizada durante o Mundial do Queijo, em São Paulo. Para compor a equipe, chamou Martina, de São Paulo, e Beth Tonel, de Santa Catarina.
Uma das provas deu origem ao Bendito. “Foi medalha de ouro naquele ano e foi extremamente elogiado pelos jurados”, diz Lerin. Outra etapa envolveu a maturação de queijo com mofo azul. Na terceira, o grupo criou três queijos inspirados nas cores da bandeira do Rio Grande do Sul, utilizando erva-mate, urucum e pitaya. Sandra terminou a competição em segundo lugar entre os queijeiros.
O portfólio chegou a cerca de oito produtos, embora nem todos sejam fabricados continuamente. Colonial, Maragato e Origens estão entre os mais regulares. O Luar do Campo, de massa macia e cremosa com mofo azul, é produzido em lotes específicos. Há ainda Flor da Estância e outros queijos sazonais. O Maragato foi lançado em 2024, durante as enchentes no Rio Grande do Sul, e leva a bandeira gaúcha na identidade. A propriedade, localizada em área alta, não foi alagada, mas sofreu erosão com o excesso de chuva.
O SIF abriu o Brasil. O modelo comercial escolhido pelos Lerin, entretanto, continua concentrado no Rio Grande do Sul e em algo muito menos sofisticado que uma operação nacional de distribuição: as feiras. Em 2025, foram aproximadamente 20. Neste ano, dez já haviam entrado no calendário quando Laércio concedeu esta entrevista. Cerca de 80% dos queijos são vendidos nesses eventos. O restante vai para clientes próximos, revendas e lojistas. O Sítio Esperança ainda não tem e-commerce.
“É a questão da rentabilidade mesmo, por ser uma escala pequena”, afirma Lerin. A venda direta permite capturar uma margem maior e, ao mesmo tempo, conversar com quem leva o produto para casa. Entre os eventos está a Expointer, da qual participam desde 2024. Para chegar à feira com volume suficiente, o casal chega a reservar quase dois meses de produção dos queijos maturados.
É justamente aí que a história do Sítio Esperança se afasta da trajetória convencional de um negócio que conquista mercado, ganha prêmios e recebe autorização para vender nacionalmente. Grandes redes já procuraram a família interessadas principalmente no colonial. A possibilidade de produzir muito mais foi discutida dentro de casa e recusada. “Sentamos e conversamos e não é isso que nós queremos, a grande escala”, afirma Laércio. “Nós queremos produtos com essência, sem utilização de corantes, sem conservantes. Um produto que traga realmente o sabor do queijo.”
Isso não significa que o casal pretenda congelar o negócio no tamanho atual. A próxima frente imaginada está dentro dos próprios 12,5 hectares. O plano é receber visitantes e acrescentar o turismo rural à produção de leite e queijo. “A nossa ideia futuramente é abrir a propriedade para visitas turísticas. Escalonar, sim, mas sem perder a essência.”
Aos 33 anos, Laércio é o sucessor da área que pertenceu ao pai. Os irmãos seguiram outros caminhos profissionais e receberam outras partes do patrimônio da família. Se a sucessão continuar, a próxima geração será formada pelas duas filhas do casal.
Por enquanto, os planos são mais imediatos. Há vacas para ordenhar, queijo maturando, feiras no calendário e uma segunda filha a caminho. O produtor que perdeu nove das 15 vacas, passou um ano tentando entender como a família sobreviveria e um dia chegou a desistir da atividade por duas horas hoje pode legalmente mandar seus queijos para qualquer parte do Brasil. Prefere, porém, continuar encontrando boa parte dos compradores pessoalmente. “A gente gosta desse diálogo com as pessoas na feira”, diz. “Somos eu e a Sandra, dois colonos lá do interior.”
As informações são da Forbes.
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