O investimento está avaliado em aproximadamente US$ 3,5 bilhões e será financiado conjuntamente pelo Fundo Nacional de Investimentos da Argélia e pela empresa de laticínios catariana Baladna Q.P.S.C. O complexo será instalado na província de Adrar, situada no sudoeste da Argélia e dentro de uma das regiões mais áridas do Saara. Sua escala, localização e nível de integração fazem dele uma iniciativa pouco comum até mesmo dentro da agricultura industrial.
Cadeia leiteira completa
O empreendimento não funcionará apenas como uma fazenda de vacas leiteiras. O projeto reúne em um mesmo sistema a produção de alimento para o gado, o alojamento e manejo do rebanho, a ordenha e o processamento industrial do leite.
O objetivo central é reduzir a dependência da Argélia em relação às importações de leite em pó e desenvolver uma capacidade produtiva nacional capaz de abastecer uma parcela considerável do mercado interno. Quando o complexo atingir sua plena operação, sua produção poderá atender aproximadamente 50% das necessidades argelinas de leite em pó. O projeto reflete a crescente importância da produção de leite nas políticas de segurança alimentar, especialmente em países que dependem de compras internacionais para abastecer sua população.
Pronta para o final de 2027
O início da produção está previsto para o final de 2027. O desenvolvimento completo será realizado em etapas até atingir o tamanho final do rebanho e a capacidade industrial projetada. A Baladna informou que, durante a segunda fase, foram assinados contratos no valor de mais de US$ 635 milhões.
Também começou o transporte, dos Estados Unidos para a Argélia, de um primeiro lote de 30 mil vacas da raça Holandesa. O rebanho deverá aumentar progressivamente até alcançar as 270 mil cabeças previstas no projeto. A dimensão do empreendimento supera amplamente a de uma fazenda leiteira convencional e exige uma coordenação permanente entre produção animal, alimentação, água, energia, sanidade e processamento industrial.
A forragem, peça decisiva
A alimentação de centenas de milhares de animais não pode depender de compras ocasionais no mercado. Por esse motivo, uma parte essencial dos 117 mil hectares será destinada à produção das culturas forrageiras necessárias para sustentar o rebanho.
A disponibilidade de alimento será tão importante quanto a genética dos animais, a eficiência da ordenha ou a capacidade da planta de processamento. Nos sistemas de criação de vacas leiteiras, a qualidade e a continuidade da alimentação determinam, em grande medida, o desempenho por animal, a saúde do rebanho e os custos de produção.
Em Adrar, a produção de forragem dependerá completamente de sistemas de irrigação capazes de operar de forma estável durante todo o ano. Sem um fornecimento constante de água, a atividade leiteira planejada seria inviável nas condições climáticas do Saara.
Mais de 130 dias por ano com temperaturas acima de 40°C
O principal desafio não é apenas o tamanho do rebanho, mas o ambiente extremo no qual a atividade será desenvolvida. Na região de Adrar, as temperaturas ultrapassam os 40°C durante mais de 130 dias por ano.
O calor intenso pode afetar o consumo de alimentos, a reprodução, a saúde e a produtividade das vacas. Também aumenta as necessidades de refrigeração, ventilação, água potável e acompanhamento veterinário. Essas condições exigem a manutenção de uma infraestrutura técnica permanente e resistente a temperaturas elevadas, poeira, areia e longas jornadas de funcionamento contínuo. A instalação representa uma forma de pecuária intensiva na África muito diferente dos sistemas pastoris tradicionais, historicamente adaptados à mobilidade, à variabilidade climática e ao aproveitamento de pastagens naturais.
Irrigação contínua para as culturas
A empresa utilizará 50 geradores para alimentar a infraestrutura de irrigação. Os equipamentos serão utilizados em sistemas de pivô central, estruturas giratórias que distribuem água sobre grandes áreas agrícolas e que são utilizadas com frequência em regiões áridas. O conjunto foi projetado para permitir que a irrigação funcione 24 horas por dia.
A operação dependerá, portanto, de um fornecimento estável de energia e da capacidade de manter em funcionamento os equipamentos de bombeamento, os pivôs e as instalações elétricas. A experiência de outros países africanos demonstra que a rentabilidade da irrigação agrícola depende não apenas da construção da infraestrutura, mas também da gestão adequada da água, da energia, das culturas e dos custos de manutenção.
Água e energia definirão a viabilidade
O sucesso do projeto estará condicionado principalmente à disponibilidade de água e energia. A produção de forragem, o bem-estar do gado e o processamento industrial do leite exigirão o funcionamento contínuo de múltiplos sistemas. Qualquer interrupção prolongada na irrigação poderá afetar o fornecimento de alimento.
Da mesma forma, falhas nos sistemas de refrigeração ou ventilação representariam um risco para os animais durante os períodos de calor extremo. A iniciativa mostra até que ponto uma exploração pecuária de grande escala pode depender de infraestrutura tecnológica para operar em um ambiente onde a produção tradicional de leite seria difícil. Também levanta questionamentos sobre a origem da água, o consumo de energia, a conservação dos aquíferos e a sustentabilidade de produzir alimento para um rebanho tão numeroso em uma região desértica.
Até 100 mil toneladas de leite em pó
A capacidade industrial prevista chega a 100 mil toneladas de leite em pó por ano. O produto facilita o armazenamento, o transporte e a distribuição por períodos mais prolongados do que o leite fresco. Para a Argélia, aumentar a produção nacional permitiria reduzir a exposição às variações internacionais de preços, interrupções logísticas e problemas de abastecimento externo.
O leite em pó desempenha um papel relevante em países com elevada demanda interna e produção local insuficiente, já que pode ser reconstituído e utilizado em inúmeros alimentos. O complexo de Adrar busca reunir todas as etapas da cadeia para limitar a dependência de fornecedores externos e controlar desde o cultivo da forragem até a obtenção do produto final.
Entre 5 mil e 15 mil empregos locais
As estimativas sobre a criação de empregos variam entre as empresas envolvidas. Uma comunicação da FPT relacionada ao fornecimento dos geradores estimou cerca de 5 mil postos de trabalho locais. A Baladna apresentou uma projeção superior a 15 mil empregos durante a próxima fase de investimentos. A diferença pode decorrer de metodologias distintas e da inclusão de atividades diretas, indiretas ou temporárias em cada cálculo.
A construção, a produção agrícola, o manejo do gado, a sanidade animal, a manutenção, o transporte e o processamento industrial exigirão profissionais especializados e trabalhadores de diferentes áreas. A magnitude da iniciativa também poderá gerar atividade econômica em serviços auxiliares, fornecedores de insumos, logística e formação técnica dentro da região.
Um modelo produtivo condicionado pelo saara
A megafazenda representa uma aposta da Argélia em produzir dentro do país uma parcela substancial dos produtos lácteos que atualmente precisa adquirir no exterior. Sua viabilidade não dependerá apenas do número de vacas nem da capacidade de processamento.
O resultado será determinado pela gestão da água, pela produção diária de forragem, pelo fornecimento de energia elétrica, pelo controle do estresse térmico e pela continuidade de uma infraestrutura exposta às condições do deserto. O início das operações, previsto para o final de 2027, marcará o começo de uma atividade que deverá demonstrar se um sistema leiteiro completamente integrado consegue manter sua produtividade em grande escala em um dos ambientes agrícolas mais exigentes do planeta.
As informações são do LosAgronegocios.uy, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.
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