O volume recorde de entrega de fertilizantes registrado no ano passado dificilmente será repetido em 2026, segundo relatório do Rabobank divulgado nesta quinta-feira (26/3). Além do aperto financeiro, o cenário deve ser impactado pela alta nos custos de fertilizantes, algo que já preocupava antes mesmo do início do conflito no Oriente Médio, segundo a instituição.
Desde o início do conflito, no dia 28 de fevereiro, a ureia já registrou alta de 46%, alerta o Rabobank. Porém, a elevação é ainda mais expressiva, de 76%, quando observa-se o período desde o início do ano. O relatório aponta ainda que, antes do início do conflito, o MAP (fosfato monoamônico) era o fertilizante que mais preocupava, por estar em uma tendência de alta forte e com maior potencial de atingir valores mais altos.
Com a tendência de um conflito mais longo do que o imaginado, o fósforo começa a apresentar os impactos do conflito, cotado acima de US$ 800 a tonelada, maior valor desde agosto de 2022. Dentro deste cenário, o Rabobank projeta que a demanda nacional por fertilizantes deve ser impactada, "especialmente dado o ambiente de margens mais apertadas vivenciados pelos produtores brasileiros nos últimos anos".
O RaboResearch projeta uma redução de quase 2 milhões de toneladas nas entregas de 2025, o que deixaria o número estimado das entregas para 47,2 milhões de toneladas.
Leite
Após forte alta de 6,8% na produção de leite em 2025, o setor deve entrar em desaceleração em 2026 devido à queda de preços e à piora das margens dos produtores, segundo relatório do Rabobank divulgado nesta quinta-feira (26/3).
Conforme a análise da instituição, o segmento teve seu desempenho do ano passado influenciado por custos sob controle, margens positivas (especialmente na primeira metade do ano), condições climáticas favoráveis e investimentos no elo primário da cadeia.
No entanto, segundo a instituição, a demanda interna não apresentou expansão significativa ao longo do ano, influenciada por pressões inflacionárias que limitaram o consumo. Como consequência, os preços passaram por forte correção, chegando a R$ 2,00 pelo litro em dezembro.
"Essa correção acentuada reduziu de forma significativa as margens dos produtores e já sinaliza uma forte desaceleração na produção primária", informou a instituição. Diante desse cenário, segundo o RaboResearch, a produção deve apresentar crescimento limitado na primeira metade do ano.
Carne bovina
O mercado brasileiro de boi gordo deve seguir em trajetória de alta nos próximos meses, sustentado por fundamentos sólidos de oferta e demanda, segundo análise do Rabobank.
De acordo com o banco, o desempenho das exportações continua sendo um dos principais vetores de sustentação dos preços. O Brasil vem registrando volumes recordes de embarques de carne bovina, impulsionados principalmente pela demanda internacional aquecida, com destaque para mercados como China e Estados Unidos. Nos dois primeiros meses do ano, foram 526 mil toneladas, o equivalente a US$ 2,8 bilhões, altas de 24% e 39%, respectivamente.
No entanto, é pelo lado da oferta que se concentram os fatores mais determinantes para o atual ciclo de valorização, com queda de 9% nos abates inspecionados em fevereiro na comparação com o mesmo período do ano passado. Segundo banco, isso reforça a inversão do ciclo pecuário para um período de menor oferta, contribuindo para a pressão altista sobre as cotações.
Outro ponto de atenção é o contexto internacional, marcado por tensões geopolíticas que têm elevado custos logísticos e operacionais. “Os impactos do conflito no Oriente Médio têm se limitado, até o momento, a questões operacionais (atrasos) e financeiras (frete mais caro e multas”, observa o Rabobank.
Açúcar
Desde o início da guerra no Oriente Médio, os preços do açúcar reagiram na bolsa de Nova York, acompanhando a alta do petróleo. Porém, os custos de produção da commodity também estão subindo, e disso deve depender as margens finais dos produtores, disse o Rabobank.
O banco chamou a atenção para o fato de que as margens dos produtores de açúcar depende de insumos como diesel e fertilizantes, que têm subido de preço por causa da guerra. As especulações sobre a guerra já fizeram com que os preços do açúcar rompessem a barreira dos 15 centavos de dólar nos contratos de curto prazo e de 16 centavos de dólar nos contratos para março de 2027 (época de entressafra de cana do Centro-Sul).
“Parte desse aumento pode ser atribuída à redução da posição líquida vendida que os fundos acumularam ao longo de 2025, interpretando a elevação do preço do petróleo como gatilho para uma recuperação do preço do açúcar”, afirmou o banco holandês. Ao mesmo tempo, também surgiram dados indicando uma produção menor na Índia.
Apesar disso, o Rabobank observou que os efeitos da guerra podem ser frear a alta dos preços, já que as importações de açúcar bruto dos Emirados Árabes Unidos, Iraque e o Irã respondem juntos por 9% do total e “vão diminuir”.
“Parte da demanda regional pode ser perdida. E navios indo para o Golfo terão que achar outros destinos. Enquanto isso, frete oceânico e seguro mais caros vão elevar os custos para importadores ao redor do mundo”, observou o Rabobank.
Na avaliação do banco, os preços do açúcar devem depender de decisões do governo brasileiro ou da Petrobras que alterem o preço da gasolina na bomba, o que pode influenciar na competitividade e portanto na demanda por etanol no Brasil, observou o banco.
Café
O mercado global de café deve continuar marcado por elevada volatilidade nos próximos meses, segundo o Rabobank. O banco avalia que o nível reduzido de estoques globais tende a ampliar a sensibilidade dos preços até que haja uma recomposição mais consistente dos volumes disponíveis.
A estimativa é de que os estoques mundiais de café estejam na casa dos 20,1 milhões de sacas, o menor patamar dos últimos cinco anos. “Esse patamar historicamente baixo, aumenta a sensibilidade do mercado e tende a manter a volatilidade nos preços até que haja uma recomposição dos estoques, o que deve ocorrer com a chegada da safra 2026/27, especialmente diante das boas perspectivas produtivas para o Brasil e Vietnã”, afirma.
O Rabobank também destaca a realização de lucros por fundos de investimento, exportações brasileiras abaixo do observado no ano anterior, apreciação do real frente ao dólar e a retração no consumo doméstico como fatores para a volatilidade do mercado.
O banco alerta ainda que muitos produtores rurais estão capitalizados, o que reduz a oferta de café disponível no mercado físico. “Com os preços mais baixos, há menor disposição para fechar negócios, já que os produtores esperam repiques de alta para comercializar seus lotes. Contudo, considerando o cenário de safra volumosa e provável recomposição dos estoques globais, o mercado apresenta tendência baixista”, afirma.
Nas exportações, a queda de 23,5% nas exportações brasileiras em fevereiro comparado ao mesmo período do ano passado contribui para o enfraquecimento dos preços internacionais no curto prazo, segundo o banco. Paralelamente, o consumo interno brasileiro também apresentou retração, de 2,3% segundo a Abic, refletindo o impacto dos preços elevados ao consumidor.
Diante desse conjunto de fatores, o Rabobank avalia que o mercado de café seguirá altamente sensível a choques de oferta e demanda. “O mercado deverá seguir acompanhando atentamente a evolução das condições climáticas, os movimentos dos agentes financeiros e o comportamento cambial, elementos determinantes para a trajetória dos preços ao longo dos próximos meses”, completa o banco.
As informações são do Globo Rural, adaptadas pela equipe MilkPoint.
Vale a pena ler também:
Oferta elevada pressiona preços no mercado global de lácteos, aponta relatório do Rabobank
Guerra no Oriente Médio pressiona Frimesa a reajustar preços em 3%