Gráfico 1: variação anual da captação de leite (%)
Com esse resultado, o primeiro trimestre de 2026 registrou o maior volume captado para o período em toda a série histórica iniciada em 1997, superando o recorde anterior observado em 2021, quando a captação havia alcançado 6,57 bilhões de litros. Apesar do avanço, o ritmo de crescimento mostra desaceleração frente ao observado no primeiro trimestre de 2025, quando a alta anual havia sido de 4,5%.
Gráfico 2: Captação brasileira
Fonte: Pesquisa Trimestral do Leite - IBGE
Esse crescimento ainda reflete, em parte, o forte movimento de expansão da produção observado em 2025. Naquele período, a rentabilidade mais favorável ao produtor estimulou investimentos na atividade e sustentou maior oferta de leite. Parte desse efeito residual ainda contribuiu para os volumes captados no início de 2026.
No entanto, quando a análise é feita na comparação com o trimestre imediatamente anterior, o cenário muda. A captação do primeiro trimestre de 2026 recuou 7,9% frente ao quarto trimestre de 2025. Parte desse movimento é esperada devido à sazonalidade da produção em algumas regiões brasileiras, que tradicionalmente apresentam menor volume no início do ano. Ainda assim, a intensidade da queda chama atenção, por estar entre as maiores retrações percentuais da série histórica para essa comparação.
Gráfico 3: Variação trimestral da captação (%)
Fonte: Pesquisa trimestral do Leite
Esse movimento também está relacionado à piora da rentabilidade ao produtor ao longo dos últimos meses. O forte crescimento da oferta em 2025 pressionou os preços pagos no campo e reduziu as margens da atividade, levando parte dos produtores a diminuir investimentos em produção.
Gráfico 4: Rentabilidade ao produtor menos custo de alimentação
Fonte: MilkPoint Mercado
Além da redução dos investimentos, as relações de troca também passaram a indicar um cenário menos atrativo para a produção de leite. Um exemplo é a relação entre litros de leite necessários para a compra de uma arroba de boi gordo. Quando essa relação aumenta, a atividade leiteira se torna relativamente menos vantajosa, podendo estimular o descarte de animais menos eficientes como estratégia para reduzir custos e ajustar a produção.
Gráfico 5: Relação de troca entre litros de leite por arroba bovina
Fonte: CEPEA, adaptado por MilkPoint Mercado.
Desempenho mensal
Na análise mensal, janeiro foi o mês de maior captação do trimestre, como tradicionalmente ocorre, com 2,43 bilhões de litros captados. Em fevereiro, houve uma queda expressiva frente a janeiro, de 13,5%, o maior recuo entre esses dois meses em toda a série histórica.
Mesmo com essa queda mensal, fevereiro ainda apresentou crescimento de 3,0% em relação ao mesmo mês de 2025. Em março, a captação voltou a avançar frente a fevereiro, com alta mensal de 6,7%, mas o crescimento anual foi mais moderado, de 2,3% frente a março de 2025.
Tabela 1. Captação total mensal de leite no Brasil (Prévia)
Fonte: IBGE - elaborado pelo MilkPoint Mercado
Conclusão
De modo geral, os dados mostram que a produção formal de leite segue crescendo no Brasil, mas em ritmo menos intenso do que o observado ao longo de 2025. A rentabilidade ao produtor e o comportamento da demanda devem continuar sendo os principais fatores para definir a velocidade desse crescimento nos próximos meses.
Além disso, o cenário climático merece atenção. As projeções mais recentes indicam elevada probabilidade de formação de El Niño ao longo de 2026, fenômeno que pode alterar o regime de chuvas em diferentes regiões do país. Para a cadeia leiteira, os principais pontos de atenção estão nos possíveis impactos sobre a produção de leite no Sul, em caso de excesso de chuvas, e sobre o clima no Centro-Norte, podendo ocasionar pressão sobre a oferta e os preços dos grãos.
Assim, embora o primeiro trimestre tenha confirmado um novo recorde de captação para o período, os dados também reforçam um sinal importante: a expansão da oferta tende a depender cada vez mais da recomposição das margens no campo e da capacidade do mercado consumidor de absorver maiores volumes de leite e derivados ao longo de 2026.
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