A tendência de baixa nos preços do leite e um avanço mais moderado da produção esperada para 2026 devem impor perdas em torno de R$ 5 bilhões para o valor bruto da produção (VBP) da pecuária como um todo em Minas Gerais, significando uma redução de 9,2% em relação ao ano passado. Na estimativa ainda preliminar do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a atividade deverá reduzir o valor de sua produção de R$ 55 bilhões no ano passado, o mais elevado da série, em termos reais, para R$ 50 bilhões — ainda assim, o terceiro maior desde que o ministério iniciou o levantamento.
Líder na produção de leite, respondendo por praticamente um quarto de todo o volume captado no país, o estado deverá registrar queda de 21,9% no VBP da pecuária leiteira na passagem de 2025 para 2026, encolhendo de R$ 18,1 bilhões para algo ao redor de R$ 14,1 bilhões, quase R$ 3,9 bilhões a menos, correspondendo a 78% de toda a perda esperada para a pecuária em seu conjunto.
Na contramão do setor pecuário, os criadores de bovinos deverão acumular uma receita bruta na faixa de R$ 19 bilhões neste ano, crescendo 5% em relação a 2025 e marcando o terceiro ano de resultados positivos. Na visão do secretário de agricultura, pecuária e abastecimento do estado, Thales Almeida Fernandes, a tendência inicial de queda nos preços no ano passado, gerada pelo tarifaço dos Estados Unidos, foi revertida a partir da reacomodação dos embarques em direção a outros mercados, a exemplo dos Países Baixos e das Filipinas, além da China, que concentrou 60% das exportações de carne bovina em 2025. A retirada das tarifas pelos Estados Unidos, registra ele, reforçou a reação dos preços no setor.
Internamente, prossegue Fernandes, o crescimento do abate de fêmeas “comprometeu a reposição de bezerros e reduziu a oferta futura”. Entre janeiro e setembro do ano passado, os abates de fêmeas haviam crescido 22,6% em relação ao mesmo período de 2024, para 1,267 milhão de cabeças, em torno de 44,4% do abate total. O abate de machos, em igual comparação, chegou a despencar 14,3%, segundo registros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), levando a um recuo de 0,8% para o abate total no estado.
Foto: Arte/Valor
Os dados mais recentes do IBGE para o leite mostram elevação de 4,3% nos volumes industrializados nos primeiros nove meses de 2025, alcançando perto de 4,8 bilhões de litros, o que se compara com a alta de 11,06% registrada em todo o país.
O setor leiteiro começou o ano assustado com o que aconteceu em 2025, comenta Natália Salaro Grigol, pesquisadora da área de leite do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP. Os preços desabaram 25,79% entre dezembro do ano passado e igual mês do ano anterior, deprimindo as margens. “Foi um ano ruim, mas não foi um dos piores. O problema foi que ninguém esperava o que aconteceu. A expectativa era de continuidade da rentabilidade positiva observada em 2024”, acrescenta ela. Até o fim de março do ano passado, os preços pagos ao produtor subiam quase 21% em relação ao mesmo período de 2024.
Na sequência, no entanto, o mercado desmoronou, com os preços recebidos pelos produtores despencando quase 31% em Minas Gerais entre março e dezembro. “A produção cresceu, as importações não recuaram como se esperava e a demanda não absorveu todo o aumento da oferta”, resume Grigol. Um dado mais estrutural reforçou a tendência de baixa, mostrando, além disso, que o país teria perdido sua autossuficiência no abastecimento de leite. Na média dos dez anos encerrados em 2022, os volumes importados de produtos lácteos correspondiam a 5% da produção formal, relação que dobrou para 10% desde 2023, registra ainda a especialista.
Nos últimos cinco anos, prossegue Grigol, registrou-se uma evolução mais intensa do pacote tecnológico aplicado à pecuária de leite, associada a um processo de reestruturação da base produtiva, “movimento bastante nítido em Minas Gerais, reforçando a heterogeneidade no setor leiteiro”. O estreitamento das margens tem provocado a saída de pequenos e mesmo de médios produtores da atividade, numa tendência que tem sido acompanhada por maior concentração e aumento da escala diária de produção, até como forma de reduzir custos unitários, com adoção de mais tecnologia, melhora na qualidade da nutrição e no manejo reprodutivo.
Ela lembra que, mesmo com a queda de preços, a venda de sêmen para o setor de leite avançou no ano passado, com alta próxima de dois dígitos. Num acompanhamento realizado pela Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), em parceria com o Cepea, as vendas de material genético para a pecuária leiteira haviam crescido 9,4% entre os primeiros nove meses de 2025 e idêntico período de 2024, atingindo 4,93 milhões de doses.
Produtor de queijos em Diamantina, Ewerton Sebastião de Almeida adota técnicas de inseminação artificial a tempo fixo, combinadas com sêmen sexado, para aprimorar a qualidade genética de seu rebanho, e tem alcançado uma produção média por vaca de 20,8 litros por dia.
No ano passado, Almeida investiu na renovação do plantel, atualmente composto por 35 vacas da raça girolando, incorporando fêmeas com maior potencial genético, além de mudar o sistema de criação, adotando um regime de semiconfinamento para os animais. O gado recebe silagem de milho, produzida na própria fazenda, ração e sal de melhor qualidade, “o que interfere na qualidade da produção, na sanidade do rebanho e nas taxas de prenhez”. Todo o milho é produzido na fazenda mesmo, numa área de 10 hectares, que permite uma colheita anual em torno de 500 toneladas do grão, suficientes para alimentar todo o plantel durante o ano.
Com 12 vacas em ordenha atualmente, a produção de leite foi elevada de 150 para 250 litros por dia entre 2024 e 2025, permitindo a fabricação de 30 peças de queijo de cerca de 1 quilo cada uma, também diariamente.
Controlada pela multinacional suíça Emmi Group, por meio de sua subsidiária brasileira Laticínios Porto Alegre, a Verde Campo redefiniu recentemente seu planejamento estratégico e pretende dobrar de tamanho até 2030, adianta Fábio Ferreira, CEO da companhia. A empresa levou adiante o processo de rebranding, com atualização da logomarca e reorganização de seu portfólio, com lançamento de três novas linhas de produtos. As novidades incluem iogurtes tradicionais com menor taxa de açúcar e uso de açúcar orgânico no processamento, uma segunda linha de iogurtes com leite A2, de digestão mais fácil, e uma manteiga gourmet fermentada, sem lactose.
Instalada há 26 anos na região de Lavras, sul mineiro, a Verde Campo apostou desde o início na diferenciação, explorando a fabricação de produtos lácteos saudáveis. Ainda em 2010, lançou a marca Lacfree, a primeira livre de lactose no mercado nacional. Quatro anos depois, a companhia apresentou a linha Natural Whey, de iogurtes e shakes proteicos. “Temos um parque industrial altamente tecnológico e trabalhamos exclusivamente com leite fresco, captando mensalmente 4 milhões de litros de 108 fornecedores num raio de 80 a 100 quilômetros da nossa planta”, descreve Ferreira.
O volume de leite originado atualmente permite ocupar 60% a 70% da capacidade instalada, o que demonstra potencial para incrementar a produção final de iogurtes, queijos frescos e bebidas lácteas. “Na categoria de queijos e iogurtes”, detalha Ferreira, “a Verde Campo cresceu 35% e 25% no ano passado, diante de altas de 13% e 9%, na mesma ordem, em todo o mercado, segundo dados da Nielsen”.
As informações são do Valor Econômico, adaptadas pela equipe MilkPoint.
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