Volatilidade no curto prazo, fundamentos sólidos no longo: o que está por trás das oscilações no mercado global de lácteos

A escalada das tensões no Oriente Médio voltou a trazer volatilidade aos mercados globais de lácteos, levantando preocupações sobre possíveis interrupções no abastecimento e nos fluxos comerciais que dependem de rotas marítimas estratégicas.

Publicado por: MilkPoint

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A escalada das tensões no Oriente Médio trouxe volatilidade aos mercados de laticínios, mas os fundamentos do setor permanecem resilientes, com aumento na produção de leite e estoques confortáveis. O Irã se destaca como quarto maior exportador de leite em pó desnatado. Apesar de preocupações sobre o Estreito de Hormuz, a exposição ao mercado global é limitada. Ajustes logísticos já mitigam riscos. A volatilidade atual tende a ser de curto prazo, com possíveis mudanças nos fluxos comerciais, mas sem choque estrutural de oferta.
A escalada das tensões no Oriente Médio voltou a trazer volatilidade aos mercados globais de lácteos, levantando preocupações sobre possíveis interrupções no abastecimento e nos fluxos comerciais que dependem de rotas marítimas estratégicas. Apesar da reação inicial mais intensa nos preços das commodities, os fundamentos estruturais do mercado de laticínios permanecem relativamente resilientes — especialmente quando comparados a choques geopolíticos anteriores.

O crescimento da produção de leite, a recomposição dos estoques de produtos lácteos e a exposição direta relativamente limitada aos mercados do Golfo indicam que a atual crise tende mais a gerar volatilidade no curto prazo do que um choque estrutural de oferta.

O papel crescente do Irã no comércio regional de lácteos

Nos últimos anos, o Irã tem ampliado sua relevância no comércio regional de laticínios. Esforços do governo para diversificar as exportações além dos hidrocarbonetos têm impulsionado a expansão do setor de processamento de lácteos no país.

As exportações de leite em pó desnatado (LPD) e manteiga vêm crescendo de forma consistente desde 2021. Com isso, o Irã passou a ocupar a posição de quarto maior exportador mundial de leite em pó desnatado, atrás apenas da União Europeia, dos Estados Unidos e da Nova Zelândia.

Ainda assim, as exportações iranianas permanecem altamente concentradas em mercados regionais. Preços competitivos, custos de frete mais baixos e prazos de entrega mais curtos tornaram os países vizinhos os principais destinos. Afeganistão e Paquistão têm liderado o crescimento das compras de LPD iraniano, enquanto a Rússia vem ganhando importância como destino das exportações de manteiga.

Essa concentração regional faz com que, apesar de ter papel relevante no comércio de lácteos no Oriente Médio, a exposição do Irã ao mercado global mais amplo ainda seja limitada.

Formação de estoques reduziu vulnerabilidade do mercado

Outro fator que tem moderado a reação atual do mercado é o fato de muitos compradores já terem se preparado para possíveis crises. Ao longo do segundo semestre do ano passado, o aumento das tensões geopolíticas levou vários importadores a ampliar estoques preventivos.

Esse movimento foi particularmente visível no mercado de LPD da UE, cujos preços subiram mais de 31,9% nos últimos três meses, à medida que compradores garantiram volumes enquanto os preços ainda estavam próximos das mínimas de cinco anos registradas no final de 2025. Como resultado, muitos importadores iniciaram 2026 com níveis de estoque mais confortáveis, reduzindo o risco de escassez imediata de oferta.

Crescimento da oferta muda o cenário do mercado

O ambiente global de oferta de lácteos hoje é bastante diferente daquele observado em momentos anteriores de tensão geopolítica. Após três anos de crescimento limitado, a produção de leite nas principais regiões exportadoras voltou a avançar em 2025. Todos os grandes exportadores registraram aumento na produção, com exceção da Austrália. Dados preliminares de 2026 indicam que essa tendência de expansão continua.

Na União Europeia, a captação de leite também cresceu em várias regiões produtoras importantes. Esse aumento na disponibilidade de matéria-prima tem se refletido em maior produção em diversas categorias de lácteos, especialmente manteiga e leite em pó desnatado.

Atrasos nos partos alteraram o perfil de produção

A dinâmica da oferta de leite em 2025 foi fortemente influenciada por fatores relacionados à saúde animal, em especial pela disseminação da doença da língua azul. O atraso nos partos deslocou parte da produção de leite para mais tarde ao longo do ano. Embora a produção tenha seguido padrões sazonais relativamente normais até meados do verão, a oferta acelerou de forma significativa a partir de agosto.

Esse aumento tardio na produção incentivou os processadores a direcionar maior volume de leite para produtos estocáveis, como manteiga e leite em pó desnatado.

Manejo do rebanho será decisivo para 2026

O comportamento dos rebanhos leiteiros deverá ter papel central na definição da oferta global de leite em 2026. Inicialmente, os preços mais baixos pagos ao produtor levaram analistas a projetar níveis mais elevados de abate de vacas. No entanto, esse ajuste tem ocorrido de forma mais lenta do que o esperado.

Muitos produtores têm adiado decisões de descarte à medida que se aproxima o pico sazonal de produção de leite na primavera. Ao mesmo tempo, o tamanho dos rebanhos permanece elevado em algumas regiões da Europa, reflexo da manutenção de animais mais velhos durante as interrupções provocadas por doenças no ano passado.

Exposição limitada a possíveis interrupções no Estreito de Hormuz

Um dos riscos mais discutidos para os mercados de lácteos é o possível fechamento do Estreito de Hormuz, que poderia interromper o acesso marítimo a diversas economias do Golfo, como Iraque, Kuwait, Bahrein, Catar, Irã e Emirados Árabes Unidos. Ainda assim, análises dos fluxos de exportação europeus indicam que a exposição direta a esses mercados é relativamente limitada.

Embora o Oriente Médio responda por cerca de 20% das exportações de lácteos da União Europeia, os mercados do Golfo potencialmente mais afetados por uma interrupção no Estreito de Hormuz representam apenas entre 4% e 5% do valor total exportado. Entre esses embarques, o queijo representa aproximadamente um terço do volume. Já manteiga e leite em pó, juntos, respondem por mais da metade.

O creme de leite também tem papel relevante na demanda regional, especialmente devido ao seu uso tradicional no consumo de chá e em sobremesas típicas.

Ajustes logísticos já reduzem o risco de interrupção

Também há preocupações sobre possíveis interrupções nas rotas globais que passam pelo Canal de Suez ou pelo Estreito de Bab el-Mandeb. No entanto, muitas empresas de transporte marítimo já haviam ajustado suas operações após ataques anteriores a embarcações comerciais no Mar Vermelho.

Diversos operadores passaram a redirecionar embarques contornando o Cabo da Boa Esperança, evitando assim a passagem pelo Canal de Suez. Com isso, eventuais novas interrupções tendem mais a aumentar o tempo de trânsito do que a provocar uma ruptura estrutural nos fluxos comerciais.

Como exemplo, embarques da Europa para o Sudeste Asiático, que normalmente levam entre nove e dez semanas, podem agora demorar até doze semanas.

Sentimento de mercado versus fundamentos

No curto prazo, o mercado de lácteos devem continuar sensíveL aos desdobramentos geopolíticos e às reações provocadas pelas manchetes. Mesmo assim, os fundamentos estruturais do setor permanecem favoráveis.

A produção de leite em níveis elevados, os estoques maiores de produtos estocáveis e a exposição relativamente limitada aos mercados mais afetados indicam que o setor está hoje melhor posicionado do que em crises geopolíticas anteriores.

À medida que o mercado se ajusta ao cenário geopolítico em evolução, o sentimento de curto prazo pode continuar alimentando a volatilidade de preços. Com o tempo, porém, os fundamentos de oferta e demanda tendem a retomar seu papel como principais determinantes da direção do mercado.

Possível cronograma dos impactos no mercado

Os efeitos potenciais do conflito sobre os mercados de lácteos tendem a se desenvolver em diferentes fases.

No curtíssimo prazo, durante os primeiros um a dois meses, os principais impactos devem vir de ajustes logísticos e redirecionamento de rotas marítimas. Esse cenário pode favorecer temporariamente exportadores da Nova Zelândia e dos Estados Unidos, enquanto importações para países do Golfo — como Catar, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Kuwait — podem enfrentar interrupções pontuais.

Nos meses seguintes, com o avanço do pico sazonal de produção de leite no Hemisfério Norte, processadores podem intensificar as exportações para evitar acúmulo de estoques. Isso pode levar a uma redistribuição dos fluxos comerciais, com volumes adicionais sendo direcionados a mercados alternativos, como África ou América do Sul, aumentando a concorrência nos mercados globais de commodities lácteas.

Mais adiante, entre cinco e nove meses, o foco pode se deslocar para o lado da oferta. O aumento dos custos de energia, fertilizantes e ração pode pressionar a rentabilidade das fazendas, potencialmente acelerando o descarte de vacas e contribuindo para uma redução na produção de leite.

Nesse estágio, a dinâmica do mercado pode evoluir de uma volatilidade de curto prazo, impulsionada por logística e percepção de risco, para um cenário de oferta mais restrita. Assim, a atual crise parece ter maior potencial para remodelar fluxos comerciais e padrões logísticos no curto prazo do que para provocar um choque estrutural de oferta nos mercados globais de lácteos.

As informações são de análise elaborada por José Saiz, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.

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