Setor leiteiro lança ferramenta para enfrentar volatilidade de preços

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) sediou, na quarta-feira (13), o lançamento de uma nova ferramenta de proteção de preços voltada ao setor lácteo brasileiro.

Publicado em: - 5 minutos de leitura

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A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) sediou, na quarta-feira (13), o lançamento de uma nova ferramenta de proteção de preços voltada ao setor lácteo brasileiro. Desenvolvida pela StoneX Leite Brasil, com apoio da CNA e parceria do Cepea, a iniciativa busca introduzir no país mecanismos de gestão de risco já consolidados em mercados mais maduros. A proposta chega em um momento em que a cadeia leiteira ainda enfrenta um problema estrutural: a baixa previsibilidade de preços e margens em um ambiente de alta volatilidade.

Na abertura do evento, o vice-presidente da CNA, Gedeão Pereira, destacou a evolução do agronegócio brasileiro nas últimas décadas e o papel da eficiência produtiva nesse avanço. Segundo ele, a cadeia do reúne aproximadamente 1,2 milhão de produtores e registrou crescimento de 50% nos últimos 20 anos — mesmo com redução de 25% no rebanho. Para Pereira, a adoção de ferramentas que aumentem a previsibilidade é um passo necessário para a continuidade desse desenvolvimento, especialmente em um cenário de sucessão no campo e maior digitalização das propriedades.

mercado futuro leite StoneX e CNA

O presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da CNA e um dos maiores produtores de leite do Brasil, Jonadan Ma, classificou o lançamento como um marco para o setor. Segundo ele, a falta de previsibilidade sempre foi um dos principais gargalos da atividade. “O Brasil é um dos poucos países em que o produtor trabalha o mês inteiro sem saber exatamente quanto vai receber pelo leite”, afirmou.

mercado futuro leite StoneX e CNA

Ele também chamou atenção para os impactos diretos dessa dinâmica no fluxo de caixa, apontando que a instabilidade de receitas compromete a sustentabilidade financeira da produção. Nesse contexto, a ferramenta surge como uma tentativa de estruturar melhor a gestão e reduzir a exposição às oscilações de mercado. Apesar do tom otimista, o próprio dirigente reconheceu que se trata de um ponto de partida: “Entramos em campo. Ainda precisamos ajustar o jogo, mas pode ser um divisor de águas”.

O CEO da StoneX no Brasil, Glauco Monte, destacou a trajetória da empresa no agronegócio e a experiência internacional na atuação com gestão de risco. Segundo ele, a companhia já atua há cerca de duas décadas no agro brasileiro e acompanha de perto a dinâmica dos mercados em que está inserida, com presença em diferentes regiões do país. Na mesma linha, o diretor da StoneX, Caio Toledo, afirmou que a entrada no setor lácteo responde a uma lacuna identificada pela empresa. De acordo com ele, a ausência de instrumentos estruturados de gestão de risco no leite colocava o Brasil como uma peça ainda não integrada ao modelo já aplicado em outros mercados.

Um mercado que ainda opera no curto prazo

A pesquisadora do Cepea, Nathalia Grigol, trouxe uma leitura mais estrutural sobre os desafios da cadeia. Segundo ela, o setor leiteiro brasileiro ainda opera excessivamente focado no curto prazo, o que limita os ganhos de competitividade no longo prazo.

mercado futuro leite StoneX e CNA

De acordo com a pesquisadora, essa dinâmica incentiva comportamentos oportunistas e reduz a capacidade de planejamento dos agentes, especialmente em uma atividade de ciclo produtivo longo como a leiteira. “O produtor fica exposto à volatilidade e, com isso, sua margem também se torna volátil. Isso gera instabilidade nos investimentos e acaba comprometendo o desenvolvimento do setor”, explicou. Na avaliação dela, a ausência de instrumentos de gestão de risco contribui para gargalos importantes, como a menor competitividade internacional e a dificuldade de avançar rumo à autossuficiência.

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A introdução de ferramentas de hedge, nesse sentido, pode ajudar a deslocar o foco do curto para o longo prazo, criando condições mais estáveis para investimentos, produção e formação de preços — com reflexos que chegam até o consumidor final. É importante destacar que hedge é uma estratégia para reduzir o risco de variação de preço, fazendo uma operação no mercado financeiro que anda no sentido oposto da sua exposição principal. Em outras palavras: você cria uma “proteção” para que oscilações de preço afetem menos o seu resultado.

Como funciona a ferramenta

Responsável pela operação, Marianne Tufani, Manager da StoneX Leite Brasil, explicou que a solução não envolve negociação em bolsa, funcionando em um modelo de balcão. Na prática, há um comprador e um vendedor, com a StoneX atuando como intermediadora financeira da operação. “O objetivo não é ganhar dinheiro com a ferramenta, mas proteger margem”, ressaltou.

mercado futuro leite StoneX e CNA

O mecanismo permite que produtores, indústrias e cooperativas fixem preços futuros para seus produtos, reduzindo a exposição às oscilações do mercado. Caso o preço caia, o agente recebe a diferença na conta da corretora; se subir, ele paga essa diferença. Independentemente do movimento, o preço efetivo da operação permanece travado. A operação é exclusivamente financeira, sem entrega física obrigatória. 

A ferramenta contempla quatro produtos:

  • Leite UHT (40 mil litros)
  • Leite ao produtor (40 mil litros)
  • Queijo muçarela (4 mil quilos)
  • Leite em pó integral (5 toneladas)

Segundo Tufani, os volumes foram definidos com base na experiência internacional da empresa, buscando atender desde pequenos até grandes agentes da cadeia. Apesar do tamanho padrão dos contratos, há possibilidade de fracionamento, o que, em tese, amplia o acesso. A entrada na operação exige abertura de conta na corretora, e as ordens podem ser feitas por canais diretos, como e-mail, telefone ou WhatsApp.

Um dos pontos mais enfatizados por Tufani foi a necessidade de entendimento correto da ferramenta. Segundo ela, o hedge só cumpre seu papel quando utilizado como instrumento de proteção, e não como tentativa de antecipação de ganhos. “O produtor precisa saber qual margem faz sentido para ele. A partir disso, ele trava o preço. Se usar a ferramenta para tentar ganhar com o mercado, já é outra lógica”, explicou.

Ela também destacou que o uso adequado pode facilitar o acesso a crédito, uma vez que a previsibilidade de receitas reduz o risco percebido pelas instituições financeiras.

Liquidez e construção de mercado

Um dos desafios apontados é a construção de liquidez. Como se trata de um mercado novo no Brasil, a própria StoneX terá o papel de articular compradores e vendedores. As contrapartes não são divulgadas, seguindo padrão comum em operações financeiras desse tipo. Segundo Tufani, a experiência internacional mostra que esse processo é gradual. “Há anos, estávamos nesse mesmo estágio na Europa. Hoje, a grande maioria do mercado já utiliza hedge”, afirmou.

Custo e percepção na cadeia

Questionada sobre o receio de que a ferramenta represente mais um intermediário e, consequentemente, mais custo, Tufani afirmou que a proposta não é onerar a cadeia, mas reduzir perdas já existentes. “Hoje, muitos agentes perdem dinheiro com a volatilidade. A ideia é justamente evitar isso”, disse, reconhecendo, no entanto, a existência de custos de corretagem.

O evento foi encerrado com uma operação simbólica de venda realizada por Jonadan Ma, marcando o início das atividades da ferramenta no país.

Figura 5

Mais do que uma solução imediata, o lançamento representa uma tentativa de mudança estrutural na forma como o setor leiteiro brasileiro lida com preços, risco e planejamento — um movimento que ainda dependerá de adesão, entendimento e adaptação dos diferentes elos da cadeia.

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Material escrito por:

Raquel Maria Cury Rodrigues

Raquel Maria Cury Rodrigues

Head do MilkPoint e Zootecnista pela UNESP de Botucatu

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