Já parou pra pensar que toda a produção de commodities agrícolas, inclusive as outras matérias-primas que utilizamos na produção desta commodities tem, em grande parte, relação com petróleo? Produtos como tratores, fertilizantes, agrotóxicos, rações, embalagens e processos como o transporte, tem o petróleo como base invisível.
Provavelmente você, caro leitor, deve ter se esbarrado em alguma notícia que tenha como pano de fundo o acesso a novas reservas de petróleo. Isso tem causado conflitos geopolíticos e instabilidade energética; o que escancara a dependência por este ‘ouro líquido’.
É nesse contexto que surge uma pergunta incômoda, mas necessária para o produtor de leite: o que o leite tem a ver com a recente busca por reservas de petróleo? Como isso me afeta?
O leite feito de óleo
Antes de mais nada, precisamos ponderar algumas coisas. O petróleo está por trás de tudo: no diesel que movimenta as máquinas agrícolas e o transporte de insumos até a sua porteira; no plástico das embalagens; no fertilizante utilizado na produção dos ingredientes da ração, etc. Assim, a produção de leite só é possível graças a disponibilidade de petróleo. Boa parte da produtividade leiteira só existe graças a este subsídio fóssil. Em outras palavras, fertilizantes nitrogenados, defensivos, ração comprada (e transportada), máquinas e transporte são, no fundo, petróleo transformado. Daí a provocação: “estamos produzindo leite feito de petróleo”.
Sem esse subsídio fóssil a capacidade da fazenda em se manter produtiva seria muito menor, limitada quase exclusivamente pela energia solar, que é renovável, já que todos os dias temos um sol sobre nossas cabeças. É aqui que a corrida global pelo petróleo deixa de ser um tema distante e passa a bater à porteira da fazenda. Quando o petróleo fica caro ou escasso, toda a estrutura produtiva sente. Ou ainda, quanto mais dependemos de insumos externos, mais nos tornamos reféns de agentes externos ao meu sistema produtivo.
Como podemos observar na ilustração abaixo, a elevação do preço do petróleo tem impacto direto nos custos de produção de leite, principalmente nos alimentos [1]. Isso ocorre porque a agricultura depende fortemente de insumos derivados do petróleo, especialmente os fertilizantes nitrogenados.
Figura 1. Correlação entre o custo de produção médio anual de leite (US$/100L) e o preço de importação médio anual do petróleo nos Estados Unidos (US$/barril; 2010-2024). Fontes: para o custo de produção do leite U.S. Department of Agriculture [2]; para o preço do petróleo U.S. Energy Information Administration [3]
Emergia, o custo verdadeiro e a real história por trás da produção: a memória da energia
Ok, entendemos até aqui a importância do petróleo e o impacto direto sobre os custos “explícitos”. Mas, e os custos “implícitos” provenientes de insumos “invisíveis”?
Muito além do diesel queimado no trator e na colheitadeira (e seus tantos coprodutos) que tornaram possível integrar todas as engrenagens do sistema de produção, cada litro de leite carrega consigo a lembrança dos raios de sol que fizeram crescer o pasto e as lavouras, da chuva que manteve o solo úmido, do trabalho biológico da vaca de transformar alimentos de difícil digestão (fibras) em leite e de tantos outros serviços fornecidos por diversos agentes do ecossistema.
E é aqui que entra a contabilidade em emergia. A emergia é uma forma de qualificar e quantificar insumos que, por vezes podem não ser percebidos facilmente, mas que são fundamentais para a produção.
Figura 2. A vaca como agente transformador: em sistemas de produção agropecuários, o animal atua como um centro de convergência que concentra a energia proveniente de diferentes fontes (sol, petróleo, elétrica, dos alimentos, etc.) no produto leite, rico em nutrientes e informação
Idealizada por Howard T. Odum, a emergia estuda sistemas a partir dos fluxos de energia, bem como os processos que os sustentam. Para tanto, Odum buscou desenvolver um método que permitisse avaliar de forma quantitativa a complexidade de sistemas socioeconômicos e ambientais. Um dos principais objetivos é compreender e quantificar os fluxos de energia de forma sistêmica e hierárquica, identificando processos de auto-organização e eficiência em sistemas naturais e sociais, analisando o esforço do ambiente para a geração de produtos e serviços.
A análise emergética pode ser complementar a outras abordagens utilizadas para análise ambiental e de sustentabilidade de sistemas complexos (Análises econômicas; Análise do Ciclo de Vida; Pegadas Hídrica, Ecológica e de Carbono; Análise do Fluxo de Materiais, etc.). A análise vai além das análises convencionais, integrando energia, economia e meio ambiente devido a sua capacidade de agrupar diferentes dimensões da sustentabilidade, permitindo analisar os resultados econômico, social e ambiental de maneira integrada.
A emergia pode ser entendida como a memória da energia. Ela representa toda a energia útil de um único tipo (geralmente solar) que foi gasta direta ou indiretamente para produzir determinado produto ou serviço; no nosso caso, o leite.
Enquanto o dinheiro mede o trabalho humano e os insumos comprados, a emergia mede a riqueza real, aquela que vem tanto da natureza quanto da tecnologia (informação). A unidade dessa contabilidade é o emjoule solar, uma forma de traduzir tudo, do sol ao petróleo, para uma mesma linguagem a partir da energia.
Um estudo brasileiro, Luiz et al. [4], avaliou um sistema de produção de leite semi-intensivo a partir da emergia. Foi observado que os “insumos naturais” diretamente relacionados ao sistema de produção (por exemplo, a chuva e a evapotranspiração das culturas vegetais) contribuíram com 3% de todo o fluxo de riqueza real, sendo equivalente a um valor de 22,7 mil dólares de contribuição dos insumos naturais. Parece pouco!
Observando a contribuição dos demais itens, tais como combustíveis (2,32%), eletricidade (0,5%) e medicamentos (0,87%), pode-se notar que os insumos naturais tiveram papel fundamental para o bom funcionamento do sistema de produção. Por outro lado, se considerarmos a contribuição indireta dos insumos naturais (por exemplo, o fluxo de energia solar, chuva e outros serviços provenientes do ambiente, que contribuem para a produção de ingredientes da ração), estes 3% podem chegar a mais de 40% de contribuição.
Embora extremamente útil e validada em várias áreas do conhecimento, a análise emergética ainda é pouco aplicada na atividade leiteira, onde dominam abordagens como de ciclo de vida e análises econômicas. Isso se dá por este tipo de análise ainda ser de domínio de um pequeno grupo da ciência nacional e mundial e/ou pela dificuldade de entendimento dos conceitos que abarcam a teoria.
Riqueza real versus valor de mercado
Aqui está um ponto crucial: os preços de mercado geralmente são inversos à contribuição da natureza. Água, solo fértil, clima favorável e serviços da biodiversidade têm preço baixo ou nulo, justamente por serem abundantes, mas são responsáveis por uma enorme parcela da emergia do leite. Ou seja, são fundamentais para que o leite seja produzido. Já os insumos industriais, derivados ou não de combustíveis fósseis, são caros porque podem estar escassos e/ou concentrados nas mãos de poucos.
Assim, a emergia propõem devolver o valor utilizado para a produção do leite aos ativos naturais da fazenda, frequentemente vistos como “gratuitos”, mas que são, na prática, a base que sustenta todo o sistema produtivo. Sem eles, não há tecnologia que sustente o sistema produtivo.
Aqui convidamos o(a) leitor(a) a refletir! Já parou para pensar que, “sem água não há leite”? Ou ainda que a água consumida não é necessariamente somente aquela bombeada até o bebedouro ou à sala de ordenha; e que as chuvas têm um papel fundamental sobre todo o processo produtivo, não apenas dentro da minha fazenda?
Neste momento, você deve ter percebido que, embora fundamental para o seu processo produtivo, você (provavelmente) não considera a chuva dentre os seus fluxos de caixa, o que parece bastante óbvio. Você deve estar se questionando sobre a quem se pagaria esse valor? A ideia aqui não é o pagamento direto, mas, sim, um investimento para tornar possível que estes serviços “invisíveis” continuem ocorrendo e beneficiando a atividade produtiva.
Assim, promover práticas que garantam a disponibilidade hídrica é uma das formas que podem garantir o abastecimento de corpos d’água. É importante frisar que este não é um custo, por si. Mas sim, a garantia da continuidade (ou não) da sua produção.
Sustentabilidade é feedback
A emergia mostra que sistemas sustentáveis precisam de retorno. Parte da riqueza de alta qualidade gerada pelo leite deve voltar ao sistema produtivo para fortalecer suas bases naturais. Isso significa investir na saúde do solo, na reciclagem de nutrientes, na conservação da água e na manutenção da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos.
Sistemas que apenas extraem, sem reinvestir na sua base energética, tornam-se frágeis e altamente dependentes de insumos externos, exatamente os mais vulneráveis às crises energéticas e econômicas. E não tem prática regenerativa que possa dar conta disso.
Uma nova visão de sucesso
Por fim, destacamos que olhar a fazenda pela ótica da emergia é enxergá-la como um sistema integrado e que o sucesso não está apenas em reduzir custos monetários, mas em otimizar a combinação entre o trabalho gratuito da natureza e o trabalho pago do homem.
Em um mundo dependente de fontes fósseis como o petróleo, e cada vez mais inseguro em relação a ele, compreender a riqueza real do leite e as muitas bases que movem sua produção, pode ser a diferença entre depender estritamente do mercado e construir resiliência. Afinal, quando o preço do petróleo sobe, quem conhece o valor do sol, da chuva, do solo e da biodiversidade, sai na frente.
Vale a pena ler também: Leite a pasto: alternativa viável para uma pecuária leiteira pressionada?
Referências:
[1] Silva et al., 2016. Correlação entre preços do petróleo e de commodities agrícolas Novas perspectivas. Revista de Políticas Agrícolas, Ano XXV, Nº2 – Abr/Maio/Jun. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1134839/1/Custo-producao-leite.pdf; acessado em: 22 de janeiro de 2026.
[2] U.S. Department of Agriculture (USDA). Milk Cost of Production Estimates. Disponível em https://www.ers.usda.gov/data-products/milk-cost-of-production-estimates; acessado em 21 de janeiro de 2026
[3] Energy Information Administration (EIA). Short-Term Energy Outlook. Disponível em: https://www.eia.gov/outlooks/steo/realprices/; acessado em 20 de janeiro de 2026)
[4] Luiz, V. T., Nacimento, R. A., Rezende, V. T., Almeida, T. F. A. d., Paz, J. V., Giannetti, B. F., & Gameiro, A. H. (2023). Sustainability Assessment of Intensification Levels of Brazilian Smallholder Integrated Dairy-Crop Production Systems: An Emergy and Economic-Based Decision Approach. Sustainability, 15(5), 4674. https://doi.org/10.3390/su15054674