O grupo dos estafilococos é um dos principais agentes causadores de mastite no pós-parto, tanto de primíparas quanto de vacas adultas. Existem mais de 20 espécies de estafilococos já isoladas do leite bovino de casos de mastite, sendo que a dinâmica e o impacto de cada uma durante o período seco ainda são pouco conhecidas, pois muitos estudos consideram esses patógenos como um grupo e não como efeito separado por espécie.
Um estudo recente descreveu, com nível de detalhe inédito, a dinâmica e o impacto das IIM causadas por estafilococos no período seco — tanto em novilhas primíparas quanto em vacas adultas. O trabalho foi desenvolvido em cinco fazendas comerciais no Canadá, todas operando com sistema de ordenha robótica. Foram incluídas 76 primíparas no início da primeira lactação e 447 vacas adultas antes da secagem e no pós-parto, totalizando 1.750 quartos mamários monitorados.
A identificação bacteriana foi feita por cultura microbiológica seguida de MALDI-TOF MS — método que identifica a espécie bacteriana de forma rápida com base no perfil de proteínas ribossomais. Para confirmar se as IIM que persistiram entre a secagem e o parto eram de fato causadas pela mesma cepa — e não por uma nova infecção com a mesma espécie, os pesquisadores utilizaram sequenciamento completo do genoma (WGS), comparando os pares de bactérias antes e depois da secagem.
Primíparas: S. chromogenes foi o mais frequente, mas não afeta a produção
Nas primíparas, a espécie mais isolada no pós-parto foi Staphylococcus chromogenes, presente em 10,3% dos quartos. A IIM por essa espécie elevou a contagem de células somáticas (CCS) durante toda a lactação seguinte, com escore de células somáticas (ECS) médio de 3,9 nos quartos infectados (~187.000 cel/mL), contra 1,7 nos quartos sadios (~41.000 cel/mL). No entanto, a produção de leite por quarto não foi afetada: quartos com IIM por S. chromogenes produziram em média 7,3 kg/quarto-dia, praticamente igual aos 7,6 kg/quarto-dia dos quartos sadios.
Uma explicação possível é que primíparas ainda não atingiram a capacidade completa de síntese de leite, pois a glândula mamária ainda está em desenvolvimento. Parte da energia disponível é redirecionada para o crescimento corporal, de modo que a glândula não opera no limite de sua capacidade e pode absorver a perda de algumas células epiteliais sem reduzir a produção.
Na prática, isso significa que tratar primíparas com IIM por S. chromogenes no início da lactação não tem justificativa econômica, ainda que medidas de prevenção continuam sendo recomendáveis, dado o impacto desse tipo de mastite sobre a CCS do rebanho.
Período seco em vacas adultas
Em vacas adultas, antes da secagem, apenas 39,3% dos quartos estavam sadios. No pós-parto, esse percentual subiu para 60,4%, o que confirma que o período seco tem efeito líquido positivo na eliminação de IIM. No entanto, esse processo não tem uma via única, pois ocorrem eliminações e aquisições de novas infecções ao mesmo tempo, variando de acordo com o tipo da espécie envolvida.
Seis espécies demonstraram capacidade de persistir do período seco até o pós-parto, com taxas bastante distintas: S. aureus (33,9%), S. xylosus (20%), S. chromogenes (19,6%), S. simulans (16,9%), S. epidermidis (9,9%) e S. haemolyticus (5,9%).
S. epidermidis apresentou uma das maiores taxas de novas infecções durante o período seco (2,5 novos casos por 100 quartos), combinada com baixa persistência. Isso indica que as IIM pré-existentes por essa espécie são mais facilmente eliminadas pelo tratamento antimicrobiano na secagem, mas novas infecções podem ocorrer se as condições de higiene durante o período seco forem inadequadas.
Impacto na produção de leite depende da espécie
Em vacas adultas, todas as seis espécies estudadas elevaram a CCS na lactação seguinte. Os valores médios de ECS foram: S. aureus 6,4 (~1.056.000 cel/mL); S. simulans 4,9 (~373.000 cel/mL); S. epidermidis 4,8 (~348.000 cel/mL); S. chromogenes 4,4 (~264.000 cel/mL); S. xylosus 4,4 (~264.000 cel/mL); e S. haemolyticus 3,4 (~132.000 cel/mL) — contra 1,9 nos quartos sadios (~47.000 cel/mL).
A perda de produção de leite foi significativa apenas para S. aureus e S. epidermidis, com reduções de 1,9 kg/quarto-dia e 1,7 kg/quarto-dia, respectivamente. Para S. chromogenes, S. haemolyticus, S. simulans e S. xylosus, as reduções observadas variaram de 0,1 a 0,9 kg/quarto-dia, sem significância estatística.
Um estudo mais amplo seria necessário para quantificar com precisão as perdas associadas a essas espécies, dado o baixo número de quartos infectados para algumas delas no período pós-parto.
Para ficar atento
O estudo indica quais espécies causam inflamação sem comprometer a produção e quais geram impacto econômico real.
S. epidermidis combina alta taxa de novas infecções durante o período seco, baixa persistência e redução de produção significativa no pós-parto. O manejo preventivo focado nesse período — higiene do ambiente das vacas secas, redução de estresse durante a transição e adequação da dieta — tem potencial de reduzir a prevalência dessa espécie ao parto.
A identificação em nível de espécie, que pode ser feita pela técnica de MALDI-TOF MS, torna-se informação útil para a tomada de decisão no campo. Saber que um quarto está infectado por S. chromogenes ou por S. epidermidis ao parto implica condutas distintas.
Esse resultado reforça a justificativa de uso de métodos de cultura microbiológica com identificação em nível de espécie nos programas de controle de mastite em fazendas leiteiras. O MALDI-TOF adotado por laboratórios como o Qualileite da FMVZ USP (www.qualileite.org) reduz o tempo de identificação de cerca de 5 dias (métodos convencionais) para cerca de 24 horas — o que viabiliza diagnósticos mais rápidos e decisões de manejo mais precisas.
Fonte: Kurban, D., et al. Journal of Dairy Science, 2025. https://doi.org/10.3168/jds.2025-26662