Argentina SanCor pede falência: dívidas são estimadas em US$ 120 milhões e 8 meses de salários

A cooperativa de lácteos argentina SanCor, que enfrenta um processo de recuperação judicial desde fevereiro do ano passado e que carrega uma dívida em torno de US$ 120 milhões, pediu na quarta-feira, 17 de abril, sua própria falência à Justiça de Santa Fé, Argentina

Publicado por: MilkPoint

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A cooperativa argentina SanCor, com dívidas de aproximadamente US$ 120 milhões, solicitou sua própria falência ao tribunal de Santa Fé após um processo de recuperação judicial iniciado em fevereiro de 2025. A decisão será ratificada em assembleia no dia 30 de abril. A cooperativa, que já foi líder do setor, enfrenta problemas financeiros e trabalhistas, incluindo atrasos salariais. A situação se agravou com dívidas históricas relacionadas a acordos com a Venezuela e conflitos sindicais.

A cooperativa de lácteos argentina SanCor, que enfrenta um processo de recuperação judicial desde fevereiro do ano passado e que carrega uma dívida em torno de US$ 120 milhões, pediu na quarta-feira, 17 de abril, sua própria falência à Justiça de Santa Fé, Argentina.

A Associação dos Trabalhadores da Indústria Leiteira (Atilra) adiantou a decisão da empresa, confirmada pelo Juizado de Primeira Instância do Distrito 5 em matéria Cível e Comercial da Quarta Vara de Rafaela, sob responsabilidade do juiz Marcelo Gelcich, que conduz o caso. “A recuperanda SanCor solicitou sua própria falência no processo em que tramita a recuperação judicial (falência indireta), por ela iniciado em fevereiro de 2025. O pedido se baseia em uma decisão do Conselho de Administração da Cooperativa, que convocou uma assembleia para ratificá-lo no próximo 30 de abril”, indicou o tribunal em seu site que acompanha o caso. Segundo informaram no juizado, “agora caberá ao Tribunal decidir se aceita — e em que termos — ou rejeita o pedido de falência própria”.

A SanCor carrega uma dívida de US$ 120 milhões. Isso foi determinado pelo juizado a partir da análise de 1.519 pedidos de verificação, sobre um total de 2.702 credores no âmbito do processo. Esse valor é composto por US$ 90 milhões e 40 bilhões de pesos (US$ 29,5 milhões), tendo como principais credores a Agência de Arrecadação e Controle Aduaneiro (ARCA) e fundos financeiros internacionais.

Além disso, foi constatada uma dívida próxima de 6,35 bilhões de pesos (US$ 4,68 milhões) posterior ao início da recuperação judicial. “Após os relatórios apresentados pela administração judicial, pelo Comitê Provisório de Controle e pela coadministradora designada pelo Juizado, todos coincidentes em comprovar o estado de cessação de pagamentos, incapacidade e insolvência patrimonial geral e definitiva da recuperanda, a SanCor CUL acaba de solicitar sua própria falência”, afirmou um comunicado assinado pelo secretário-geral da Atilra, Etín Ponce.

Embora ainda não haja um comunicado oficial por parte da empresa, nas últimas horas veio à tona a convocação para uma assembleia extraordinária na quinta-feira, 30 de abril, em Sunchales, onde fica a sede central da cooperativa. No item três da pauta da assembleia será tratada a “confirmação da decisão do Conselho de Administração de apresentar o pedido de falência da SanCor”.

Na visão do sindicato, esse pedido “não acrescenta nem tira nada, sendo a essa altura um gesto irrelevante que coloca fim a uma postura teimosa que negava a realidade” e acrescentaram: “Isso demonstra que a SanCor CUL vinha se sustentando com o patrimônio dos trabalhadores, aos quais deve 8 meses de salários mais o décimo terceiro”.

“Tanto para os trabalhadores quanto para nossa entidade que os representa, a decretação da falência não constitui um fim, mas sim o início de uma nova etapa em que a marca SanCor, despojada da estrutura que a levou à beira da extinção, deve voltar a florescer impulsionada pela qualidade dos produtos que as trabalhadoras e os trabalhadores da Atilra produzem”, conclui o texto.

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Fontes da indústria consideraram a situação como “uma crônica de uma morte anunciada. É a própria empresa que acaba pedindo. Não havia saída”. Um industrial do setor avaliou que “foi tempo demais operando, mas com um modelo totalmente inviável”, ao considerar que “poderia ter sido evitada a sangria que ocorreu nesses últimos meses”. A partir desse passo, “é provável que apareçam interessados por algumas plantas”, afirmou.

No fim do ano passado, o juiz Gelcich, responsável pelo processo da empresa láctea, havia decidido pela intervenção na cooperativa diante dos constantes descumprimentos por parte da empresa, tanto no pagamento de salários quanto na falta de informações detalhadas solicitadas pela Justiça.

Nesse sentido, Gelcich destacou três problemas graves apontados pela administração judicial e pelo Comitê de Controle. Entre eles, a “resistência em fornecer informações”, já que “a empresa não apresentou documentação clara sobre como estão operando suas plantas nem sobre seus contratos com outras empresas, quanto produz, como comercializa, quanto recebe e o que faz com o que recebe”.

O segundo ponto dizia respeito à “crise trabalhista e previdenciária” enfrentada pela SanCor. O Comitê Provisório de Controle informou que a cooperativa deve salários desde junho de 2025 e o décimo terceiro integral deste ano. “Além disso, foi denunciado o uso de contracheques com dados supostamente falsos para evitar contribuições à seguridade social”, acrescenta o documento.

SanCor e sua queda

A SanCor foi fundada em 1938 como uma cooperativa de produtores de leite e chegou a ser líder incontestável do setor. Segundo dados do Observatório da Cadeia Láctea Argentina (OCLA), em 1994 processava 4,6 milhões de litros por dia, liderando a indústria nacional.

No entanto, ao longo dos anos foi perdendo participação: 15 anos depois, em 2009, processava 3 milhões de litros e caiu para a segunda posição, enquanto em 2022 desceu para o 12º lugar do ranking, com pouco mais de 533 mil litros diários.

Atualmente, e segundo fontes do setor, a cooperativa processa cerca de 700 mil litros por dia, entre produção própria e de terceiros, em seis plantas localizadas em Santa Fé e Córdoba, muito abaixo dos volumes históricos que a posicionaram como referência de mercado.

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As seis plantas estão operando, mas com volume variável em cada uma. O leite próprio é destinado aos produtos de maior rentabilidade no mercado, enquanto, paralelamente, mantêm vários acordos com diferentes empresas para fabricar produtos específicos, alguns por encomenda, outros com participação nos resultados e outros com remuneração por custo.

A situação se agravou entre 2023 e 2024 com conflitos sindicais prolongados com a Atilra, que provocaram bloqueios nas plantas e atrasos salariais, cenário que acabou levando a SanCor à recuperação judicial, apresentada em fevereiro de 2025.

Outro fator que levou a tradicional empresa láctea ao colapso foi o conflito comercial com a Venezuela, originado a partir dos acordos bilaterais firmados desde 2006 entre os governos de Hugo Chávez e Néstor Kirchner.

A SanCor participou do Fundo Fiduciário Bilateral entre Argentina e Venezuela, um mecanismo financeiro destinado à troca de combustível venezuelano por produtos argentinos. Além disso, realizou vendas adicionais desse produto para empresas controladas pelo Estado venezuelano.

O problema surgiu quando a Venezuela entrou em default em 2017 e deixou de cumprir os pagamentos. Segundo fontes próximas à cooperativa, a dívida chegou a ultrapassar os US$ 30 milhões. Com o passar do tempo, parte desse valor foi quitada, mas ainda restam cerca de US$ 18 milhões, com chances praticamente nulas de recuperação.

A empresa realizou diversas tentativas junto a diferentes governos argentinos para recuperar esses recursos e conseguir uma intervenção oficial que destravasse a cobrança, mas nenhuma dessas iniciativas teve sucesso.

As informações são do Clarín, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.

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