A gordura do leite está de volta: as novas oportunidades para a indústria de laticínios nos EUA

A nova era para os laticínios, segundo especialistas dos EUA, é definida por dois marcos importantes: a publicação das Diretrizes Alimentares para Americanos 2025-2030 e a aprovação histórica da Whole Milk for Healthy Kids Act.

Publicado por: MilkPoint

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Durante a reunião da Dairy Sustainability Alliance em 2026, especialistas discutiram uma "nova era para os laticínios", destacando as Diretrizes Alimentares 2025-2030 e a Lei de Leite Integral para Crianças Saudáveis. As novas diretrizes promovem laticínios integrais, reconhecendo seus benefícios à saúde, enquanto a lei permite que escolas ofereçam leite integral novamente. No entanto, desafios operacionais e propostas regulatórias sobre açúcares adicionados e alimentos ultraprocessados podem impactar a implementação. A indústria busca uma abordagem unificada para maximizar o consumo.
Durante a reunião de primavera de 2026 da Dairy Sustainability Alliance, em Illinois, Estados Unidos, um painel de especialistas se reuniu para discutir o que chamaram de uma “nova era para os laticínios”. Essa era é definida por dois marcos importantes: a publicação das Diretrizes Alimentares para Americanos 2025-2030 e a aprovação histórica da Lei de Leite Integral para Crianças Saudáveis.

Moderada por Dana Engel, do National Dairy Council, a sessão reuniu as perspectivas de uma produtora de leite e nutricionista, uma especialista em nutrição escolar e uma especialista em regulamentação. Juntas, elas traçaram o retrato de uma indústria que sai de uma postura defensiva para um período de crescimento, impulsionado pela ciência que finalmente reconhece os benefícios dos laticínios integrais.

As Diretrizes Alimentares 2025-2030: uma mensagem mais enxuta e forte

As Diretrizes Alimentares (DGA) servem como base para todos os programas federais de nutrição, desde merendas escolares até o WIC. Abby Copenhaver, produtora de leite em Nova York e nutricionista registrada, destaca uma mudança significativa na forma como essas diretrizes são apresentadas. Enquanto as versões anteriores eram documentos extensos de 170 páginas, a versão 2025-2030 foi condensada em uma estrutura objetiva de nove páginas focada em oito mensagens centrais.

Os laticínios aparecem com destaque em três dessas oito mensagens, especificamente em relação à ingestão de proteína, ao consumo de lácteos e — o mais notável — à incorporação de gorduras saudáveis. Pela primeira vez em décadas, as diretrizes abandonaram a exigência rígida de produtos sem gordura ou com baixo teor de gordura, abrindo espaço para opções de laticínios integrais ao longo de toda a vida.

“Este é um momento realmente empolgante para os laticínios e a nutrição”, observa Copenhaver. Ela ressalta que, embora a indústria tenha travado uma longa batalha contra o equívoco de que as gorduras lácteas contribuem para doenças cardiovasculares, as novas diretrizes refletem mais de 20 anos de pesquisas — grande parte financiada pelos próprios produtores — mostrando resultados neutros ou positivos para a saúde associados aos laticínios integrais.

Fechando a lacuna nutricional

Apesar da recomendação de três porções de laticínios por dia, o americano médio atualmente consome apenas cerca de 1,5 porção. Copenhaver interpreta isso tanto como uma crise de saúde pública quanto como uma enorme oportunidade de mercado. “Se conseguíssemos simplesmente fazer as pessoas consumirem essas três porções completas, estaríamos falando de muito mais leite”, afirma.

O desafio está na educação. Copenhaver argumenta que, durante anos, o visual do MyPlate relegou os laticínios a um pequeno círculo lateral, fazendo parecer que eram um detalhe secundário ou um complemento opcional. A nova era da comunicação precisa reposicionar os laticínios como um grupo alimentar fundamental, essencial para tudo, desde o desenvolvimento cerebral infantil até a manutenção da massa muscular em idosos.

O retorno do leite integral às escolas

Enquanto as Diretrizes Alimentares fornecem a base científica, a Whole Milk for Healthy Kids Act de 2025 fornece a força legislativa. Assinada em 14 de janeiro de 2025, a lei restabeleceu a opção de as escolas servirem leite integral e leite com teor reduzido de gordura (2%) — opções que haviam praticamente desaparecido das cantinas desde 2012.

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Katie Bambacht, vice-presidente de assuntos nutricionais do National Dairy Council, explica que a implementação já está avançando rapidamente. Poucas horas após a assinatura da lei pelo presidente, o USDA emitiu orientações permitindo que as escolas diversificassem seus refrigeradores de leite. Agora, as escolas podem escolher entre opções integrais, semidesnatadas, desnatadas e sem gordura, incluindo versões saborizadas e sem lactose.

No entanto, a transição não é tão simples quanto trocar caixas de leite. As escolas enfrentam desafios operacionais significativos:

  • Orçamentos apertados: os programas de nutrição escolar operam com margens extremamente reduzidas. Cada centavo adicional no custo de uma embalagem de leite precisa ser justificado.
  • Limites calóricos: embora a lei exclua a gordura do leite dos limites semanais de gordura saturada, as escolas ainda precisam respeitar o total de calorias permitido nos cardápios.
  • Logística: os processadores precisam ser capazes de atender à maior demanda por opções com maior teor de gordura.

Para enfrentar esses desafios, o National Dairy Council lançou programas-piloto em estados como Arizona, Texas, Minnesota e Geórgia. Esses projetos medem três métricas principais: preferência dos estudantes, participação nos programas e — o mais importante — consumo efetivo.

“Queremos saber: eles realmente estão bebendo?”, diz Bambacht. Dados preliminares sugerem que, quando as crianças têm acesso ao leite que consomem em casa (predominantemente integral ou 2%), elas têm maior probabilidade de participar do programa de refeições escolares.

A batalha iminente sobre açúcares adicionados e leite saborizado

Embora o retorno do leite integral seja uma vitória, Miquela Hanselman, diretora sênior de assuntos regulatórios da National Milk Producers Federation (NMPF), alerta que novas nuvens regulatórias estão surgindo. A principal ameaça é uma proposta de limite para açúcares adicionados nas refeições escolares. As atuais Diretrizes Alimentares sugerem que os açúcares adicionados representem no máximo 10% das calorias totais. Em um ambiente escolar, isso poderia tornar quase impossível servir leite saborizado, que atualmente responde por dois terços de todo o leite consumido nas escolas. “Se perdermos o leite saborizado, a implementação do leite integral não será suficiente para compensar essa perda”, alerta Hanselman.

A análise econômica da NMPF mostra que, embora a adoção do leite integral beneficie a indústria, uma proibição do leite saborizado levaria a uma redução líquida no consumo total de leite entre as crianças. O argumento da indústria permanece firme: o pacote nutricional de 13 vitaminas e minerais essenciais presentes no leite saborizado supera amplamente a pequena quantidade de açúcar adicionada, especialmente quando comparado a refrigerantes ou bebidas esportivas.

O debate sobre os “ultraprocessados”

Outro desafio emergente é o crescimento da narrativa em torno dos alimentos ultraprocessados. Hanselman observa que FDA e USDA estão atualmente trabalhando em uma definição formal para UPFs (ultra-processed foods). Há preocupação dentro da comunidade láctea de que produtos minimamente processados, como iogurtes saborizados ou certos queijos, possam acabar sendo injustamente incluídos nessa categoria. “O secretário Kennedy falou sobre como os alimentos ultraprocessados estão tornando os americanos menos saudáveis”, afirma Hanselman.

A indústria de laticínios está trabalhando para garantir que processos necessários para segurança alimentar e conveniência — como pasteurização ou embalagens individuais para lanches escolares — não sejam confundidos com o “ultraprocessamento” associado a alimentos não saudáveis.

Uma estratégia unificada para o crescimento

Ao final da sessão, os participantes concordaram que essa nova era exige uma voz unificada. A indústria precisa abandonar disputas entre diferentes tipos de laticínios (por exemplo, baixo teor de gordura versus integral) e concentrar-se no objetivo de “uma porção a mais”.

Para uma produtora de leite que ordenha 1.800 vacas, como Abby Copenhaver, essas vitórias políticas são pessoais. Elas representam um futuro em que o produto que ela trabalha 365 dias por ano para produzir é valorizado por toda a sua complexidade nutricional. Para líderes de marcas e profissionais de marketing, trata-se de um convite para apostar em tendências como saúde intestinal, proteína e simplicidade dos alimentos integrais.

A mensagem para a aliança foi clara: a ciência está do lado dos laticínios, a legislação finalmente está acompanhando essa evolução e os próximos cinco anos serão definidos pela capacidade da indústria de executar bem tanto no nível das bandejas escolares quanto no corredor dos supermercados.

As informações são do Dairy Herd Management, adaptadas pela equipe MilkPoint.

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