Talvez seja desnecessário voltar a falar que o estresse por calor é um dos piores inimigos de uma fazenda leiteira, mas sempre é bom reforçar a importância de também resfriar as vacas secas. Nós não temos dúvidas de que os grupos que mais se beneficiam de um resfriamento adequado as vacas – e novilhas! – que estão nos últimos 60 dias de gestação.
Muitos produtores ainda são resistentes a essa recomendação. Resfriar os animais no pré-parto já é prática com adoção crescente, mas estender esse cuidado para as vacas no período seco inicial ainda não é comum de ser ver por aqui. Manter vacas – e novilhas! - frescas, não é apenas um custo, mas sim um investimento estratégico, que traz resultados muito impactantes para a saúde da própria vaca, e também para a saúde e produtividade da bezerra que ela vai ter, por toda a vida dela. Não somos nós que dizemos isso, há muitas comprovações científicas sobre o tema, e já muitos casos de grande sucesso nas fazendas que adotaram essa prática.
Efeitos do resfriamento na saúde pré e pós-parto
Vamos entender melhor como o resfriamento nesse período pode transformar os resultados das fazendas. Quando a vaca não passa por estresse por calor no final da gestação, ela se prepara muito melhor para o parto e a próxima lactação. Vacas e novilhas sob estresse por calor diminuem o consumo de matéria seca (CMS) como mecanismo de redução da produção de calor endógeno. Isso, em um período de alta demanda metabólica para o crescimento fetal, resulta em balanço energético negativo acentuado. A consequente mobilização excessiva de reservas adiposas pré-parto aumenta a predisposição a distúrbios metabólicos e doenças no pós-parto imediato, como:
- Metrite,
- Cetose,
- Deslocamento de abomaso etc.
Além disso, a redistribuição do fluxo sanguíneo para a periferia, para facilitar a dissipação de calor, compromete o aporte de nutrientes para a glândula mamária e o útero, afetando não apenas o desenvolvimento e regeneração do tecido mamário, mas também a síntese e a qualidade do colostro.
Além disso, o estresse por calor é um potente agente imunossupressor. A hipertermia e a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), com consequente elevação dos níveis de cortisol sanguíneo, resultam em disfunção do sistema imune. Vacas e novilhas expostas ao calor no final da gestação exibem menor competência imunológica, manifestada por maior incidência de mastite clínica e subclínica, metrite e retenção de placenta no pós-parto. Esta supressão imune prolonga bastante o período de recuperação pós-parto, com queda na produção de leite e maiores gastos com tratamentos. E trabalhos como o de Fabris et al. (2019) mostram claramente que para ter benefícios robustos e consistentes no pós-parto, não basta resfriar os animais apenas no período pré-parto, é fundamental que o resfriamento seja em todo o período seco.
Além de ganhos em torno de 10-15% em volume na lactação subsequente, as vacas resfriadas por todo o período seco apresentam produção de colostro, com maior concentração de imunoglobulinas. Ou seja, o benefício é muito grande, e normalmente compensa todos os investimentos feitos nos sistemas de resfriamento para esses animais.
Outro benefício muito importante do resfriamento de vacas e novilhas em final de gestação é a melhoria na eficiência reprodutiva. Vacas resfriadas no período seco recuperam-se mais rapidamente do estresse do parto. Isso envolve involução uterina mais rápida e retorno precoce à ciclicidade estral. O estresse fisiológico menos intenso contribui bastante para que os animais resfriados apresentem maior taxa de concepção e menor incidência de problemas reprodutivos, o que encurta o intervalo entre partos e melhora a eficiência reprodutiva geral do rebanho, como mostram diferentes trabalhos como o de Laporta et al. (2020).
Efeitos do resfriamento da vaca na saúde e produtividade da bezerra
Mas talvez o ganho mais importante do resfriamento desses animais em final de gestação seja a melhoria da saúde, desempenho e longevidade das suas crias. Nos últimos 5 anos diversos trabalhos científicos mostraram de forma bastante clara que as bezerras cujas mães sofreram estresse por calor no período seco nascem mais leves, desmamam mais leves, e se tornam vacas menos produtivas e menos longevas em comparação a bezerras cujas mães não sofreram estresse por calor no final da gestação. Diversas são as explicações para isso, a seguir vamos discutir as principais.
O resfriamento assegura um fluxo sanguíneo adequado para a placenta, garantindo fornecimento ininterrupto de nutrientes e oxigênio para o feto. As vacas e novilhas estressadas por calor desviam sangue para a pele para ajudar na perda de calor, de forma que o fluxo sanguíneo para a placenta fica prejudicado, o que resulta em bezerras com menor peso ao nascimento e menor vitalidade.
Outro ponto importante é que vacas e novilhas resfriadas no final da gestação produzem colostro em maior volume e com maior concentração de imunoglobulinas (anticorpos), devido à sua melhor saúde e função mamária. Bezerras que nascem mais pesadas, com mais vitalidade, e têm a oportunidade de receber colostro de alta qualidade terão melhor transferência passiva de imunidade, Consequentemente, observa-se nesses animais uma redução significativa na incidência de doenças neonatais como diarreia e pneumonia, e uma menor taxa de mortalidade na fase pré-desmame (Van Os et al., 2024).
Uma das constatações mais impactantes das pesquisas recentes é o conceito de "programação positiva" das bezerras, induzida pelo resfriamento materno. O ambiente intrauterino ideal, proporcionado pela mãe resfriada, "programa" o desenvolvimento dos sistemas metabólicos e produtivos do feto para um desempenho superior ao longo de toda a vida. Novilhas que foram gestadas por mães resfriadas demonstram:
-
Crescimento Pós-Nascimento Acelerado: Apresentam taxas de crescimento mais elevadas, atingindo o peso e a estatura desejados para a primeira cobertura mais rapidamente.
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Puberdade Precoce e Melhor Desempenho Reprodutivo: Consequência de um desenvolvimento corporal otimizado, essas novilhas tendem a atingir a puberdade mais cedo, o que permite um primeiro parto em idade mais adequada e maior eficiência reprodutiva vitalícia.
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Maior Produção de Leite: O benefício mais marcante é o aumento significativo na produção de leite, não apenas na primeira lactação, mas ao longo de toda a vida. O trabalho de Laporta et al. (2020) demonstrou isso de forma muito clara e impactante. Mais notavelmente, até mesmo a geração F2 (netas) de mães resfriadas no final da gestação produziram 1.3 kg/d a mais de leite em sua primeira lactação em comparação com netas de mães estressadas por calor. Este efeito transgeracional destaca o alcance e profundidade dessa programação fetal positiva.
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Maior Longevidade: As vacas resultantes dessa programação positiva são mais saudáveis, mais produtivas e mais férteis, o que se traduz em maior longevidade produtiva no rebanho. A menor taxa de descarte precoce, conforme indicado pelos estudos que correlacionam o estresse por calor materno com menor vida produtiva (Laporta et al., 2020; Toledo et al., 2024), confirma que essas vacas permanecem mais tempo no rebanho, produzindo mais leite, e maximizando o retorno sobre o investimento genético e custo da criação.
Em resumo, resfriar vacas e novilhas leiteiras nos últimos 60 dias de gestação não é um gasto a mais, mas sim um investimento inteligente. Os benefícios são robustos e consistentes, desde a saúde das bezerras recém-nascidas até a longevidade e alta produtividade das vacas adultas. Ao garantir o conforto térmico nesse período crítico, você está construindo um rebanho mais saudável, produtivo e, consequentemente, uma fazenda mais lucrativa e sustentável.
Referências bibliográficas
Fabris, T. F., et al. (2019). Effect of heat estresse during early, late, and entire dry period on dairy cattle. Journal of Dairy Science, 102:5647–5656.
Laporta, J., et al. (2020). Late-gestation heat estresse impairs daughter and granddaughter lifetime performance. Journal of Dairy Science, 103:7555–7568.
Toledo, I. M., et al. (2024). Birth season affects cow longevity. JDS Communications, 5:674–678.
Van Os, J., et al. (2023). Effects of thermal estresse on calf welfare. JDS Communications, 5:253–258.
