A discussão sobre o alojamento de bezerras leiteiras na fase de aleitamento em pares ou grupos, tem ganhado cada vez mais espaço entre técnicos e produtores de leite. Sem dúvidas é um tema da maior relevância, cujo interesse é impulsionado por evidências científicas que apontam para benefícios muito significativos no bem-estar e desempenho dos animais. No entanto, a implementação dessas práticas demanda planejamento cuidadoso e a consideração de desafios específicos, que podem ser grandes em muitas fazendas no Brasil.
O alojamento social de bezerras, seja em pares ou em grupos, busca “imitar” as condições naturais de desenvolvimento social dos bovinos, que, na natureza, interagem em grupos de idade semelhante desde cedo.
Vantagens de alojar bezerras em pares
A prática tradicional de alojamento individual facilita o manejo sanitário e permite a observação individualizada de cada bezerra, mas priva os animais de interações sociais precoces que são muito importantes para o seu desenvolvimento. A literatura científica recente mostra uma série de benefícios que impactam positivamente o bem-estar, o desenvolvimento e a futura produtividade das bezerras, tais como:
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Melhores habilidades sociais e redução de medo: Como mostram os trabalhos de Costa et al. (2016), Gingerich et al. (2023) e Miller-Cushon (2024), bezerras alojadas socialmente (pares ou grupos) desde o nascimento desenvolvem melhores habilidades sociais e são menos medrosas em comparação com as alojadas individualmente. Elas demonstram menor reatividade a situações novas e desconhecidas, como mudanças de ambiente ou a presença de objetos estranhos.
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Melhor desenvolvimento cognitivo: A interação social precoce estimula o desenvolvimento cognitivo, de forma que as bezerras apresentam maior flexibilidade comportamental e capacidade de aprendizado, demonstrando maior interesse por novidades. Isso faz com que, na vida adulta, essas bezerras se tornem vacas que se adaptam com mais facilidade a situações novas, como mudanças de lote, um novo sistema de ordenha, novos tratadores, etc. Bezerros aprendem uns com os outros, de forma que a presença de um companheiro familiar pode atenuar o estresse em situações desafiadoras.
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Redução de comportamentos anormais: Quando o programa e o manejo da alimentação são adequados na fase inicial, o alojamento em pares ou grupos pode reduzir a ocorrência de comportamentos orais anormais, como a mamada cruzada, que é frequentemente uma resposta à privação de sucção ou à alimentação inadequada Miller-Cushon (2024).
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Melhora nas habilidades competitivas: Estudos recentes indicam que bezerros alojados em pares desenvolvem melhores habilidades competitivas, o que pode ser benéfico em situações de acesso a recursos limitados, como falta de espaço no cocho de alimentação. O trabalho de Suchon et al. (2023) mostrou que o alojamento social precoce melhorou o desempenho de bezerras leiteiras em um teste competitivo no momento do aleitamento. Os animais alojados individualmente diminuíram seu tempo de mamada e aumentaram o tempo para se aproximar da mamadeira, ao passo que os alojados em pares apresentaram maior tempo de mamada, sem alteração no tempo para se aproximar da mamadeira.
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Maior consumo de alimentos sólido e ganho de peso: Bezerros alojados em grupos desde o nascimento tendem a consumir mais concentrado e, consequentemente, apresentam maior ganho de peso diário (GPD) em comparação com os alojados individualmente, o que é crucial para o desenvolvimento ruminal e a transição para a dieta sólida. Além disso, maior desenvolvimento corporal precoce também tem efeitos positivos no início da puberdade e na produção de leite na primeira lactação e nas posteriores (Costa et al., 2016).
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Redução da Resposta ao Estresse: Como mostra o trabalho de McFarland et al. (2024), bezerros alojados socialmente vocalizam menos durante o desmame e podem apresentar níveis mais baixos de cortisol em resposta a eventos estressantes, indicando uma melhor capacidade de enfrentamento de situações de desafio, como o próprio processo de desmama.
Os benefícios são vários e, pela robustez dos trabalhos científicos disponíveis e também pelo que se observa claramente em fazendas que conseguiram implementar essa prática com sucesso, não há dúvidas de que recomendar sua adoção nas fazendas, ajudando na correta implementação, é papel dos consultores.
No entanto, como sempre dizemos, é preciso cuidado ao recomendar novas práticas ou tecnologias sem considerar o contexto local. Uma reflexão necessária é: As fazendas brasileiras estão preparadas para tal?
Logicamente muitas têm plenas condições de fazê-lo, mas é prudente generalizar?
Desafios do alojamento de bezerras em pares
Outra reflexão importante: a quase totalidade desses trabalhos foi realizada em outros países, sob condições bastante diferentes do que se encontra em muitas regiões de nosso país. E como os próprios trabalhos de pesquisa mostram, há uma série de desafios para se obter sucesso com o alojamento coletivo precoce de bezerras leiteiras. Vejamos alguns deles:
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Risco aumentado de transmissão de doenças: Se as práticas de higiene e manejo não forem rigorosas, a proximidade entre os animais nas primeiras semanas de vida em pares ou grupos, pode facilitar a disseminação de patógenos, aumentando o risco de doenças como diarreias e problemas respiratórios.
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Dificuldade na monitorização individual: Especialmente em grupos maiores, a identificação precoce de animais doentes ou com baixo desempenho, pode ser mais difícil, exigindo um olhar mais atento e ótimo treinamento da equipe.
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Mamada cruzada: Se a oferta de leite for restrita e/ou o sistema de aleitamento não permitir a expressão do comportamento natural de sucção, a mamada cruzada pode se tornar um problema significativo, como o desenvolvimento de mastite em novilhas.
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Stress por calor: Em muitas regiões do Brasil esse é um problema que pode ser ainda mais intenso para animais alojados em grupos, caso na fazenda não haja mecanismos eficazes de controle. Sob estresse por calor, há redução do consumo de alimentos, comprometimento da imunidade e aumento da suscetibilidade a doenças respiratórias, o que certamente será um problema significativo nos estágios iniciais de desenvolvimento das bezerras.
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Umidade elevada: Nos períodos chuvosos, o ambiente úmido favorece bastante a proliferação de patógenos. Para animais alojados em grupos desde o nascimento, o controle da umidade ambiental precisa ser muito bem feito para evitar a disseminação de doenças e problemas precoces de casco.
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Qualificação da mão de obra: O manejo de animais muito jovens em grupos exige uma equipe muito bem treinada para observar atentamente o comportamento dos animais, identificar precocemente os sinais sutis de doenças, o que tem atualmente sido apontado como um dos grandes desafios das fazendas brasileiras.
Considerando os claros benefícios do alojamento coletivo precoce, e os desafios evidentes que encontramos em grande parte das fazendas brasileiras, qual o melhor caminho a seguir?
Em nossa opinião, a recomendação deve ser feita considerando a situação de cada fazenda, individualmente. Não é prudente ter uma recomendação generalizada, uma vez que há uma enorme disparidade de condições entre as fazendas brasileiras.
De maneira geral o que pode fazer mais sentido para as fazendas que já possuem uma boa estrutura e qualidade de manejo seja manter as bezerras em alojamento individual por pelo menos 20 a 30 dias e depois movê-las para alojamentos coletivos. Esse já é o modelo adotado por muitas fazendas em todo o Brasil, e pode ser um bom caminho para quem ainda mantem as bezerras alojadas individualmente até a desmama.
Não há dúvidas de que quanto mais cedo começa o convívio social das bezerras, melhor é para o seu desenvolvimento. Vão se tornar vacas com mais habilidades, com melhor capacidade de enfrentar situações desafiadoras, o que vai favorecer o seu desempenho. Mas isso só vai acontecer se essas bezerras chegarem saudáveis à vida adulta, e, para isso, é fundamental evitar a ocorrência precoce de doenças.
Cada fazenda deve encontrar a melhor combinação de técnicas e práticas para produzir vacas saudáveis, produtivas e eficientes, e o papel dos consultores é estar atualizados com a produção científica e o que acontece nos melhores sistemas de produção para poder orientar adequadamente seus clientes, conhecendo os pontos fortes e desafios de cada fazenda.
Referências bibliográficas
COSTA, J. H. C., et al. 2016. Invited review: Effects of group housing of dairy calves on behavior, cognition, performance, and health. Journal of Dairy Science 99:2453–2467.
GINGERICH K. N., et al. 2023. Social contact from birth influences personalitytraits of group-housed dairy calves. Journal of Dairy Science Communications 4:484–488.
McFARLAND, D. S., et al., 2024. Calf Management: Individual or Paired Housing Affects Dairy Calf Health and Welfare. Animals, 14, 1540.
MILLER-CUSHON E. K., 2024. Current research considering social behavior to improve the welfare of commercially raised dairy calves. Journal of Dairy Science Communications 5:264–269.
SUCHON, M., 2023. Social housing improves dairy calves’ performance in a competition test. Journal of Dairy Science Communications 4:479–483.