Novidades sobre a utilização de suplementos ricos em ácidos graxos na alimentação de vacas leiteiras

No final de 2025 foram publicadas duas excelentes revisões no Journal of Dairy Science, que trouxeram informações excelentes para que os nutricionistas de bovinos leiteiros possam utilizar da melhor forma os suplementos ricos em ácidos graxos nas dietas dos animais. O objetivo deste artigo é mostrar o que de mais importante foi publicado nessas revisões.

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No final de 2025 foram publicadas duas excelentes revisões no Journal of Dairy Science, que trouxeram informações excelentes para que os nutricionistas de bovinos leiteiros possam utilizar da melhor forma os suplementos ricos em ácidos graxos nas dietas dos animais. O objetivo deste artigo é mostrar o que de mais importante foi publicado nessas revisões, e em outras publicações científicas recentes sobre o tema, já que nos últimos anos a suplementação lipídica deixou de ser vista apenas como fonte de energia, passando a ser considerada uma forma de modular processos fisiológicos para favorecer a saúde e desempenho dos animais. 

Neste contexto, o ácido palmítico (C16:0) e o ácido oleico (C18:1) têm sido o foco das pesquisas, cada um com efeitos distintos sobre o desempenho e a saúde animal. O C16:0 é consistentemente associado ao aumento da produção de leite e gordura do leite, melhoria da eficiência alimentar e, em diversos cenários, da digestibilidade da fibra em detergente neutro (FDN). Por outro lado, o C18:1 destaca-se por favorecer a digestibilidade e absorção de ácidos graxos, a partição de energia para reservas corporais e a sensibilidade à insulina, oferecendo suporte metabólico crucial, especialmente em vacas no início da lactação, ou sob maior desafio fisiológico.

As publicações científicas recentes sugerem que a estratégia mais eficiente para favorecer a saúde e desempenho dos animais é utilizar suplementos com predominância de C16:0, mas com uma proporção relevante de C18:1, combinação que se mostra equilibrada para conciliar alta produção, eficiência e saúde metabólica. As propriedades e mecanismos de ação distintos desses compostos oferecem condições muito favoráveis para otimizar dietas de vacas leiteiras, principalmente no terço inicial da lactação. Dessa forma é muito importante compreender as particularidades de cada um para que os nutricionistas possam tirar o melhor proveito do que os suplementos podem oferecer.

Figura 1

Ácido palmítico: o que ele entrega na prática

O ácido palmítico (C16:0) é o ácido graxo mais frequentemente associado à melhoria da produção de leite e gordura do leite. A revisão de Lock et al. (2025) destaca que suplementos ricos em C16:0 resultam de forma consistente em aumento da produção de gordura do leite, do leite corrigido para energia (ECM) e da eficiência de utilização de nutrientes

Um aspecto importante destacado no trabalho é o impacto positivo do C16:0 na digestibilidade da fibra. O estudo de Sears et al. (2023), realizado em sistema in vitro de cultura contínua, demonstrou que adição de ácido palmítico à taxa de 1,5% da matéria seca aumentou a digestibilidade in vitro da fibra em 6 unidades percentuais.

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O C16:0 aumentou o fluxo total de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), favoreceu o crescimento bacteriano, com destaque para microrganismos degradadores de fibra, como Fibrobacter e Prevotella. Isso sugere que o C16:0 não apenas fornece energia, mas também atua como modulador do ambiente ruminal, otimizando a fermentação da fração fibrosa da dieta.

Ácido oleico: onde ele ganha espaço

O ácido oleico (C18:1) apresenta um perfil funcional distinto, com papel mais relevante na digestibilidade de lipídios, na partição de energia para reservas corporais e no suporte metabólico. A revisão de Lock et al. (2025) aponta que o C18:1 melhora a digestibilidade de ácidos graxos e o ganho de peso corporal, sendo particularmente útil em vacas de alta produção e no início da lactação.

A revisão de Abou-Rjeileh et al. (2025), focada no ácido oleico, o descreve como um nutriente funcional, que está associado a:

  • Melhora da sensibilidade à insulina.

  • Modulação da inflamação e redução do estresse oxidativo.

  • Suporte à função mitocondrial.

  • Potencial à síntese de tecido adiposo e ao armazenamento de reservas em contextos específicos.

Esses mecanismos são cruciais para vacas no período de transição e no início da lactação, onde via de regra as vacas estão em balanço energético negativo e alta demanda metabólica. Dessa forma, o oleico pode contribuir para a preservação do escore corporal e a estabilidade metabólica, reduzindo o impacto negativo da mobilização excessiva de reservas no início da lactação.

Palmítico versus oleico: competição ou colaboração?

As evidências científicas recentes apontam claramente que a melhor alternativa para favorecer a saúde e desempenho das vacas leiteiras é utilizar suplementes que combinem ambos. O C16:0 direciona a energia para a produção de leite, especialmente gordura, enquanto o C18:1 favorece a digestibilidade dos lipídios, a reposição/manutenção das reservas corporais e o suporte metabólico. Os trabalhos consultados para a redação deste artigo não sugerem uma proporção única e ideal entre C16:0 e C18:1, aplicável a todas as situações. No entanto, eles oferecem referências valiosas para a tomada de decisões dos nutricionistas:

  • A meta-análise de dos Santos Neto et al. (2021) avaliou sais cálcicos de óleo de palma (SCP), que apresentam composição média de aproximadamente 46,0% C16:0 e 37,9% C18:1. O trabalho mostrou efeitos positivos significativos na produção de leite, gordura do leite, digestibilidade de FDN e eficiência alimentar. Os SCP são o tipo de suplemento lipídico mais utilizado em todo o mundo.

  • A revisão de Lock et al. (2025) sugere que formulações com maior participação de C16:0 (por exemplo, em torno de 60-70%), e com 30-35% de oleico podem ser mais indicadas quando o objetivo principal é maximizar a produção de leite e gordura do leite.

Com base nessas constatações, e como já mencionado anteriormente, a melhor estratégia parece ser a utilização de suplementos com predominância de ácido palmítico, mas com uma inclusão relevante de ácido oleico. Isso permite aproveitar os benefícios produtivos do C16:0 e, ao mesmo tempo, aproveitar o suporte metabólico e a melhor digestibilidade de lipídios proporcionados pelo C18:1. Mas, logicamente, sempre o nutricionista tem que pensar no benefício:custo, o famoso retorno sobre o investimento feito no suplemento.

Cuidado especial com vacas no início da lactação

O período de transição é uma fase de alta vulnerabilidade metabólica para vacas leiteiras, o que demanda atenção triplicada ao formular dietas para vacas nesse momento Embora o ácido palmítico seja um potente promotor de produção, os trabalhos revisados indicam um ponto de cautela importante:

  • O C16:0 tende a direcionar a energia para a produção de leite, em detrimento da recomposição de reservas corporais (Lock et al., 2025). Em vacas que já estão mobilizando intensamente suas reservas, um suplemento excessivamente rico em palmítico pode intensificar essa mobilização, aumentando o risco de distúrbios metabólicos.

Em contraste, o ácido oleico, com seus efeitos sobre a sensibilidade à insulina e a partição de energia para reservas corporais, oferece um perfil mais alinhado à necessidade de suporte metabólico e preservação do escore corporal nessa fase crítica. Não há qualquer evidência de que o uso de suplementos ricos em ácido palmítico para vacas em início de lactação possa aumentar a chance de desenvolvimento de distúrbios metabólicos, mas os trabalhos recentes sugerem que um perfil palmítico-predominante pode ser menos favorável à resiliência metabólica geral em vacas sob estresse fisiológico intenso.

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Dessa forma, para vacas no terço inicial da lactação, tudo indica que o uso de suplementos quem combinem palmítico com oleico é uma estratégia mais segura para equilibrar o desempenho produtivo com a saúde e a estabilidade metabólica.

E o ácido esteárico?

De maneira geral o ácido esteárico (C18:0) tem menos destaque do que palmítico e oleico, apesar de estar presente em proporções significativas em muitos suplementos hidrogenados. Os trabalhos revisados mostram que ele tem um papel nutricional relevante, principalmente sobre a digestibilidade total dos ácidos graxos.

Segundo a revisão de Abou-Rjeileh et al. (2025), o esteárico tem papel nutritional importante por se tratar de produto final da biohidrogenação ruminal. Por isso, sua disponibilidade pós-ruminal pode ser maior do que um eventual aporte via dieta. Este é um detalhe importante, pois embora o C18:0 seja um dos principais ácidos graxos disponíveis para absorção no intestino das vacas, as revisões indicam que a suplementação adicional de esteárico pode reduzir a digestibilidade total dos ácidos graxos.

A revisão de Lock et al. (2025) traz um dado particularmente útil para o nutricionista: um blend com 60% de C16:0 + 30% de C18:1 aumentou a digestibilidade total de ácidos graxos em 9 pontos percentuais e elevou os ácidos graxos totais absorvidos em 120 g/dia quando comparado a um blend com 60% de C16:0 + 30% de C18:0. Os autores relatam que a inclusão do C18:1 em substituição ao C18:0 promoveu aumento linear na digestibilidade total de ácidos graxos e no total de ácidos graxos absorvidos.

Em termos práticos, o papel nutricional do esteárico é menos relevante como promotor de desempenho e mais como um possível gargalo para a eficiência de absorção dos suplementos lipídicos, dependendo da proporção em que ele entra na formulação.

Considerações finais

A suplementação com ácidos graxos específicos é uma ferramenta poderosa na nutrição de vacas leiteiras, mas sua eficácia depende de uma compreensão aprofundada de seus efeitos. O ácido palmítico (C16:0) é um aliado robusto para impulsionar a produção de gordura do leite, o leite corrigido e a eficiência alimentar, com benefícios adicionais para a digestibilidade da fibra.

O ácido oleico (C18:1 cis-9), por sua vez, oferece um suporte crucial para a saúde metabólica, a digestibilidade de lipídios e a preservação de reservas corporais, sendo particularmente valioso em fases de alto desafio fisiológico, como o início da lactação. Já o ácido esteárico (C18:0) pode limitar a eficiência de utilização dos próprios ácidos graxos.

Por tudo que mostra a literatura recente, o uso de suplementos com predominância de C16:0, mas com uma participação relevante de C18:1, permitem otimizar tanto o desempenho produtivo quanto a resiliência metabólica do rebanho. 

Fontes consultadas

Abou-Rjeileh, U., et al. (2025). Precision nutrition meets cellular insight: The mechanistic role of oleic acid in dairy cow metabolism. Journal of Dairy Science, 108, 12678-12688.

Santos Neto, J. M., de Souza, J., & Lock, A. L. (2021). Effects of calcium salts of palm fatty acids on nutrient digestibility and production responses of lactating dairy cows: A meta-analysis and meta-regression. Journal of Dairy Science, 104, 9752-9768.

Lock, A. L., dos Santos Neto, J. M., & de Souza, J. (2025). Moving from dietary fat to fatty acids: New insights into how fatty acids affect digestibility, metabolism, and performance in dairy cows. Journal of Dairy Science, 108, 11733-11756.

Sears, A., et al. (2023). Supply of palmitic, stearic, and oleic acid changes rumen fiber digestibility and microbial composition. Journal of Dairy Science.

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Material escrito por:

Alexandre M. Pedroso

Alexandre M. Pedroso

Doutor em Ciência Animal e Pastagens, CowSignals Expert, especialista em nutrição, manejo e bem-estar de bovinos leiteiros.

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Ricardo O. Rodrigues

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José Maurício
JOSÉ MAURÍCIO

EAST LANSING - MICHIGAN - PESQUISA/ENSINO

EM 08/04/2026

Excelente texto!
Alexandre M. Pedroso
ALEXANDRE M. PEDROSO

PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 09/04/2026

Muito obrigado, meu caro. Muito do que está no texto é trabalho seu e da fantástica equipe da MSU. Parabéns!
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