Nutrição de precisão pode otimizar o crescimento de bezerras

Estratégias nutricionais de precisão, que respeitam a fase de vida do animal, balanço energético e perfil de aminoácidos, são ferramentas poderosas para criar bezerras mais eficientes, saudáveis e produtivas no futuro. E talvez a pergunta que reste ao produtor seja: vale a pena continuar apostando em dietas padrão quando já sabemos que a personalização é o caminho?

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Nos últimos anos, temos falado muito sobre aumentar a eficiência dos sistemas leiteiros, mas ainda há um ponto chave que merece atenção: a proteína na dieta das bezerras. Uma revisão recentemente publicada no Journal of Dairy Science reforça que não basta fornecer maiores quantidades de proteína, por exemplo fornecendo concentrado com alto teor de proteína bruta, é preciso olhar para o perfil de aminoácidos e o momento da vida do animal. 

A nutrição precoce exerce influência significativa sobre a saúde e a produtividade ao longo da vida do animal. Durante o período de aleitamento, o aporte energético é originado, principalmente, da lactose e da gordura, enquanto as proteínas são direcionadas majoritariamente para o crescimento e desenvolvimento dos tecidos corporais. À medida que o animal se desenvolve, é comum que as proteínas provenientes da dieta líquida continuem a ser utilizadas prioritariamente para o crescimento muscular.

Por outro lado, a lactose e a gordura passam a exercer papel mais ativo na formação de reservas energéticas. Logo após o desaleitamento, observa-se um aumento na deposição de proteína no trato gastrointestinal, cerca de 24% de proteína retida comparado a 14% a 20% em animais mais velhos, enquanto a deposição de gordura ainda permanece baixa. 

Além de variações em função da idade do animal, o trabalho de Ghaffari et al. (2025) mostra que as exigências de proteína também variam conforme o ritmo de crescimento (figura 1). Um bezerro de 50 kg, por exemplo, pode precisar de 102 g/d de proteína bruta para ganhar 200 g/dia, mas esse valor mais que triplica se quisermos que ele ganhe 1 kg/dia, chegando a 315g/d. Assim como a exigência de proteína, a energia metabolizável também aumenta, indo de 2,56 para 5,66 Mcal/dia.

A relação entre proteína e energia é determinante: excesso de proteína sem energia suficiente não gera mais crescimento, apenas desperdício. Quando o fornecimento de aminoácidos excede a necessidade dos tecidos, a proteína oriunda da dieta é metabolizada e contribui para síntese de ureia, reduzindo a eficiência de uso do nitrogênio.

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Figura 1. Exigências de energia e proteína para bezerra holandesa de 50kg alimentada com sucedâneo baseado no NASEM 2021 (Adaptado de Ghaffari et al., 2025)

Outro ponto central é a atenção aos aminoácidos, importantíssimos para o desenvolvimento muscular, resposta imune e funções enzimáticas. Lisina, metionina e treonina são os aminoácidos essenciais mais limitantes para crescimento, sendo que as exigências variam de acordo com idade, ritmo de crescimento e estado de saúde. Tendo em vista que a proteína do leite sozinha pode não ser suficiente em lisina e metionina para animais com objetivo de ganho médio diário maior que 500 g/dia, ajustar sucedâneos lácteos e concentrados iniciais para garantir esse perfil pode fazer toda a diferença na saúde e no desempenho futuro da bezerra.

Diferente de ruminantes funcionais, as bezerras ainda não contam com grande contribuição de proteína microbiana no fornecimento de aminoácidos a partir da síntese de proteína microbiana, devido a imaturidade ruminal, de forma que dependem completamente da composição em aminoácidos da dieta. Essa visão amplia o papel do nutricionista: não basta oferecer um alimento rico em proteína bruta, é preciso garantir que o perfil de aminoácidos seja capaz de sustentar crescimento de tecido magro e resposta imunológica eficiente.

Também é importante lembrar que a forma física e a qualidade dos ingredientes do concentrado inicial modulam o consumo, a fermentação ruminal e o desenvolvimento das papilas do rúmen. Uma dieta mal ajustada nessa fase compromete não apenas o crescimento imediato, mas também a capacidade de aproveitar alimentos sólidos no período pós desaleitamento. No estudo, recomenda-se que o concentrado inicial contenha entre 20% e 23% de proteína bruta na matéria seca, quando se adota um nível moderado de fornecimento de dieta líquida. Por outro lado, no caso de um fornecimento intensivo de dieta líquida, o teor de proteína bruta pode ser elevado para 24% a 25% na matéria seca. Estas recomendações estão alinhadas com aquelas do NASEM (2021). 

O equilíbrio entre proteína degradável no rúmen (PDR) e não degradável (PNDR) representa um ponto crítico de ajuste nutricional, com impacto direto na retenção de nitrogênio e na eficiência de utilização de nutrientes.

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Durante a fase de aleitamento, a proteína da dieta é oriunda, predominantemente, do leite, que apresenta alta digestibilidade. Estima-se que a digestibilidade verdadeira das proteínas do leite atinja cerca de 95% em bezerros jovens, mas esse valor pode superestimar a real absorção em animais com menos de 2 a 3 semanas de idade, devido à imaturidade do sistema enzimático digestivo.

À medida que o consumo de concentrado aumenta, a síntese de proteína microbiana no rúmen passa a ter papel central no fornecimento de nitrogênio e aminoácidos, especialmente com o avanço da maturação ruminal no período pós desaleitamento. O fornecimento de carboidratos fermentáveis favorece a atividade microbiana, aumentando a contribuição do nitrogênio microbiano para o animal. Nesse cenário, a relação PNDR:PDR deve ser ajustada de acordo com o estágio de desenvolvimento do animal. 

A avaliação do sistema como um todo, percebe-se que a “nutrição de precisão” traz ganhos que vão além do desempenho individual. Melhorar a eficiência de utilização de proteína significa também reduzir a excreção de nitrogênio, um tema cada vez mais relevante diante das pressões ambientais sobre a pecuária. Portanto, acertar a mão na formulação é investir tanto em produtividade quanto em sustentabilidade.

No fim das contas, a mensagem é clara: estratégias nutricionais de precisão, que respeitam a fase de vida do animal, balanço energético e perfil de aminoácidos, são ferramentas poderosas para criar bezerras mais eficientes, saudáveis e produtivas no futuro. E talvez a pergunta que reste ao produtor seja: vale a pena continuar apostando em dietas padrão quando já sabemos que a personalização é o caminho para desbloquear todo o potencial das nossas bezerras?

Para aprofundar esse debate, Carla Bittar estará entre os palestrantes do Interleite Brasil 2026, onde abordará como protocolos avançados de aleitamento podem acelerar o ganho de peso, reduzir a idade ao parto e potencializar a produção futura — um desdobramento direto dos conceitos de nutrição de precisão discutidos neste artigo.

O evento será realizado nos dias 18, 19 e 20 de agosto, no Gaudium Hall, em Uberlândia (MG), reunindo especialistas e profissionais para discutir caminhos mais eficientes e sustentáveis para a produção de leite no Brasil. Saiba mais aqui! 

Fontes consultadas:

GHAFFARI, M. H.; DRACKLEY, J. K.; KERTZ, A. F. Invited review: Unlocking growth and development potential in dairy calves through precision protein feeding. Journal of Dairy Science, v. 108, p. 6601–6616, 2025. https://doi.org/10.3168/jds.2025-26419

NASEM, 2021. Nutrient Requirements of Dairy Cattle: 8th rev. ed. The National Academies Press, Washington, DC.

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Material escrito por:

Yumi Camila Tsukamoto Taguti

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Carla Maris Machado Bittar

Carla Maris Machado Bittar

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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