Pesquisadores como Melinda Kovacs, mestranda da University of Guelph, começaram a analisar mais de perto como esses bezerros se desenvolvem no início da vida, período em que a maioria dos desafios sanitários costuma aparecer. Um padrão que vem surgindo repetidamente é que os bezerros cruzados tendem a apresentar menos problemas digestivos do que os holandeses, especialmente diarreia.
Em seu trabalho, Kovacs descobriu que os bezerros cruzados beef on dairy apresentaram menores taxas de diarreia, menos dias com quadro diarreico e menos tratamentos repetidos do que os holandeses durante a fase de criação. “Os produtores estavam percebendo que a saúde desses bezerros cruzados era melhor”, explicou Kovacs durante um episódio recente do podcast The Dairy Health Blackbelt Podcast. “Eles estavam observando menos desafios sanitários, ou então que esses animais conseguiam se recuperar de doenças um pouco melhor do que os bezerros puros.”
Menor ocorrência de diarreia chamou atenção
O estudo acompanhou aproximadamente 640 bezerros alojados em uma única instalação de recria de bezerros durante cerca de 18 meses. Kovacs analisou registros de 446 bezerros holandeses e 194 bezerros cruzados.
Utilizando avaliações sanitárias duas vezes ao dia, Kovacs e sua equipe monitoraram diarreia e doenças respiratórias, além de coletarem semanalmente dados de peso corporal, consumo de leite e consumo de ração inicial. Quando comparou os dois grupos ao final do estudo, um problema sanitário se destacou imediatamente. “Descobrimos que os bezerros holandeses apresentaram maior incidência de diarreia em comparação com os bezerros cruzados”, afirma Kovacs. “Também verificamos que isso se traduziu em menos dias com diarreia.”
A mesma tendência apareceu quando ela avaliou casos graves de diarreia: “era isso que esperávamos com base em nossas conversas com produtores”, diz Kovacs. “Que os bezerros cruzados teriam menos diarreia na fase pré-desmama ou durante a recria.”
Para produtores de leite e recriadores de bezerros, menos casos de diarreia podem influenciar praticamente todos os aspectos do desempenho dos animais. A diarreia continua sendo uma das doenças mais caras da fase de cria nas fazendas leiteiras, devido aos custos de tratamento, perda de ganho de peso, demanda de mão de obra e prejuízos sanitários de longo prazo.
Bezerros cruzados precisaram de menos tratamentos repetidos
Kovacs também avaliou intervenções terapêuticas e encontrou outra diferença entre os grupos: “também descobrimos que os bezerros holandeses tinham maior probabilidade de precisar de múltiplos tratamentos tanto para diarreia quanto para doenças respiratórias”, afirma ela.
As taxas de doenças respiratórias em si foram semelhantes entre os grupos genéticos, mas a necessidade de tratamentos repetidos foi maior nos holandeses. Esse resultado pode se tornar ainda mais importante à medida que propriedades leiteiras e operações de recria buscam reduzir o uso de antibióticos sem comprometer a saúde e o desempenho dos animais. “Talvez exista uma maior capacidade desses bezerros cruzados de se recuperarem de doenças em comparação aos bezerros holandeses”, acrescenta Kovacs.
Por que os bezerros beef on dairy são mais resistentes?
O estudo não foi desenhado para identificar exatamente por que essas diferenças acontecem, mas Kovacs acredita que a genética provavelmente desempenha um papel importante. “Na indústria leiteira, vemos muito os efeitos negativos da consanguinidade nos animais holandeses”, afirma ela. “E acredito que talvez tenhamos heterose ou vigor híbrido nesses animais cruzados.”
A pressão de seleção genética também pode contribuir para a diferença de desempenho. A genética leiteira foi focada em características de produção de leite, enquanto a genética de corte enfatizou crescimento e musculatura. “Na indústria leiteira, selecionamos geneticamente animais para maior produção de leite, enquanto na indústria da carne selecionamos mais características de crescimento”, explica Kovacs. “Então talvez esses bezerros cruzados estejam se beneficiando dessas características de crescimento em comparação aos holandeses.”
Ela também observou que os bezerros cruzados ganharam peso mais rapidamente durante a fase de recria. “Os bezerros cruzados apresentaram maiores taxas de crescimento, ou seja, maior ganho médio diário”, afirma Kovacs. “Eles terminaram essa fase de recria cerca de 6,8 kg mais pesados que os bezerros holandeses.”
Diferenças continuaram até o abate
Kovacs e sua equipe posteriormente ampliaram o projeto para acompanhar alguns animais desde o nascimento até o abate, por volta dos 13 meses de idade. O objetivo era entender melhor como a saúde e o manejo na fase inicial influenciam o desempenho posterior no confinamento e na carcaça. “Atualmente existe uma grande desconexão entre os diferentes componentes da cadeia produtiva, entre a fazenda leiteira de origem, a recria, o confinamento e o frigorífico”, afirma Kovacs.
As diferenças de desempenho continuaram além da fase inicial de recria: “os bezerros cruzados eram cerca de 54,4 a 56,2 kg mais pesados que os holandeses”, afirma Kovacs. “Isso tem implicações significativas em termos de custo-benefício desses animais.”
Ela também identificou diferenças na área de olho de lombo e na composição de carcaça, sugerindo que as vantagens não estavam limitadas apenas ao crescimento inicial, mas se mantinham até a terminação e o abate.
Ainda são necessárias mais pesquisas
Mesmo com os resultados promissores, Kovacs afirma que os produtores leiteiros não devem presumir que os bezerros cruzados exigem menos atenção ou cuidados de menor qualidade. “Com nossos resultados, vemos que eles talvez sejam mais resistentes ou robustos”, diz ela. “Mas acredito que os produtores ainda precisam oferecer o melhor manejo possível a esses bezerros para garantir seu sucesso.”
Kovacs acrescenta que grande parte das pesquisas existentes sobre bezerros historicamente se concentrou em holandeses puros, deixando lacunas importantes de conhecimento sobre exigências nutricionais e de manejo para bezerros beef on dairy. “Muitas pesquisas feitas no passado focaram em bezerros holandeses puros”, afirma Kovacs. “Então ainda não sabemos realmente se as exigências desses bezerros cruzados, tanto para mantença quanto para crescimento, são as mesmas de um holandês puro.”
À medida que os programas beef on dairy continuam se expandindo na indústria leiteira, os produtores estão prestando cada vez mais atenção em quais bezerros permanecem mais saudáveis e apresentam melhor desempenho do início ao fim. Esta pesquisa sugere que a menor incidência de diarreia no início da vida pode fazer parte dessa vantagem, aumentando a rentabilidade geral dos bezerros beef on dairy.
As informações são do Dairy Herd Management, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.
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