A qualidade do colostro pode ser afetada por diversos fatores, e Pastorini e colaboradores (2025) realizaram um estudo para avaliar o impacto da alta contagem de células somáticas (CCS) no final da lactação na qualidade do colostro e na eficiência da TIP.
O objetivo foi entender melhor os efeitos da mastite subclínica (indicada por altas contagens de células somáticas nos controles mensais) sobre a qualidade do colostro e a saúde dos bezerros.
Para isso, Pastorini e colaboradores (2025) dividiram 40 vacas holandesas em dois grupos com base na CCS registrada nos três últimos controles mensais antes da secagem: H-cow (vacas com CCS acima de 200.000 células/mL, indicando mastite subclínica) e L-cow (vacas com CCS abaixo de 200.000 células/mL, sem mastite).
Além disso, também dividiram os bezerros a serem colostrados, bezerros filhos de vacas com alta CCS (H-Calf) e bezerros filhos de vaca com baixa CCS (L-Calf). Então assim formaram-se 4 grupos – bezerros filhos de vaca de baixa CCS e que mamaram o colostro de L-cow, bezerros filhos de vaca de baixa CCS e que mamaram o colostro de H-cow, bezerros filhos de vaca de alta CCS e que mamaram o colostro de L-cow e bezerros filhos de vaca de alta CCS e que mamaram o colostro de H-cow.
As vacas do grupo de baixa contagem de células somáticas tiveram um colostro de qualidade superior (25,9% Brix) e com menor CCS (631.000 células/mL) comparadas com o grupo de alta CCS (22,7% Brix e 1.584.000 células/mL) e um aumento de 24% na concentração de IgG (92,8 vs 74,7 g/L) e 3,7 pontos percentuais na concentração de proteínas (17,87 vs 14,17 %). Esse dado reforça que, mesmo sendo normal o colostro ter CCS muito mais alta que a do leite comercial, existe um limite de tolerância; quando os valores ultrapassam a marca de 400.000 a 500.000 células/mL, ocorre uma degradação severa da qualidade imunológica do colostro que será fornecido ao bezerro.
Apesar da superioridade do colostro de vacas de baixa CCS na secagem, todos os bezerros tiveram uma TIP aceitável nesse estudo. Métricas de desempenho e crescimento não tiveram diferença significativa. Entretanto, o grande alerta do estudo está na limitação do próprio bezerro. Os dados revelaram que a eficiência de absorção de IgG diminuiu de 30% nos filhos de vacas sadias para apenas 24,5% nos bezerros nascidos de vacas com alta CCS. Como consequência direta dessa redução de absorção, a concentração de anticorpos no sangue (IgG sérico) caiu significativamente, passando de 28,8 g/L para 22,8 g/L. Este resultado chama atenção, pois indica que a condição inflamatória da mãe durante a gestação afeta o desenvolvimento do trato gastrointestinal do feto, prejudicando sua capacidade de absorver as IgGs, independentemente de ele ter mamado colostro de excelente qualidade.
Já está bem estabelecido que a mastite impacta significativamente a pecuária leiteira no mundo todo, tanto na qualidade e preço do leite, quanto em impactos na reprodução. O estudo de Pastorini et al. (2025), destaca agora a importância da saúde da glândula mamária no final da lactação na qualidade do colostro e na TIP, fator fundamental para o desenvolvimento saudável dos bezerros. Embora a mastite subclínica, indicada pela alta CCS, reduza a qualidade do colostro, o estudo revelou que todos os bezerros, independentemente da origem do colostro ou da saúde das vacas mães, conseguiram alcançar níveis aceitáveis de TIP. A eficiência de absorção de IgG, no entanto, foi menor nos bezerros filhos de vacas com alta CCS, o que implica que a condição inflamatória da mãe pode afetar negativamente o desenvolvimento do bezerro, prejudicando sua capacidade de absorver imunoglobulinas.
Esse dado sugere que, além dos efeitos diretos sobre a produção de leite, a mastite subclínica pode ter efeitos duradouros, influenciando a TIP dos bezerros. Portanto, a redução da mastite nas vacas não só melhora a qualidade do colostro, mas pode também impactar positivamente o futuro da produção, com implicações na saúde e desempenho do rebanho a longo prazo.
Para o manejo prático no bezerreiro, fica uma lição valiosa: bezerros nascidos de vacas que secaram com mastite devem ser identificados como 'animais de risco' logo na maternidade. Sabendo que esses bezerros têm eficiência significativamente menor para absorver as imunoglobulinas, o tratador não pode ter margem para erros.
A estratégia para mitigar os efeitos da menor absorção nesses animais é fornecer colostro de alta qualidade nos períodos corretos, relembre em: Colostragem: você já readequou seu manejo? No estudo, o sucesso em atingir uma TIP aceitável nesses bezerros ocorreu devido ao rigor do protocolo adotado: o fornecimento de 4 litros de colostro logo nas primeiras 3 horas de vida, estratégia que conseguiu amenizar a limitação absortiva intestinal.
Portanto, dada a relevância e os impactos que a mastite provoca na atividade leiteira, é imprescindível o uso intensivo de estratégias eficazes de higiene de ordenha e controle de qualidade do leite, como: monitoramento constante da CCS, manutenção de práticas rigorosas de limpeza e desinfecção das instalações, treinamento adequado da equipe de ordenha, uso de práticas preventivas como a secagem apropriada e a utilização de tratamentos para prevenir mastite clínica e subclínica, garantindo, assim, a saúde do rebanho e a qualidade do colostro, essenciais para o bom desempenho da produção leiteira.
Fique atento pois todo o manejo da vaca ao final da lactação vai interferir em sua saúde e consequentemente na saúde de sua bezerra.
Para aprofundar esse debate, Carla Bittar estará entre os palestrantes do Interleite Brasil 2026, onde abordará como protocolos avançados de aleitamento podem acelerar o ganho de peso, reduzir a idade ao parto e potencializar a produção futura — um desdobramento direto dos conceitos de nutrição de precisão discutidos neste artigo.
O evento será realizado nos dias 18, 19 e 20 de agosto, no Gaudium Hall, em Uberlândia (MG), reunindo especialistas e profissionais para discutir caminhos mais eficientes e sustentáveis para a produção de leite no Brasil. Saiba mais aqui!
Fontes consultadas:
PASTORINI, M. et al. Transference of passive immunity and growth in dairy calves born to dams with high or low somatic cell counts at dry-off and fed colostrum from cows with high or low somatic cell counts at dry-off. Journal of Dairy Science, v. 108, n. 3, p. 2767–2779, 1 mar. 2025.