O motivo, segundo ele, não está nos equipamentos, nos algoritmos ou na falta de inovação. “O problema não é tecnológico. A história da IA é mais profunda: ela fala sobre gestão”, afirmou durante palestra no Milk Pro Summit.
Windemuller abriu sua apresentação contando que não cresceu em uma fazenda, mas sempre admirou a capacidade de produtores e funcionários experientes perceberem rapidamente quando algo não estava bem com um animal. “Eu sempre fui muito focado em dados”, contou.
Foi justamente essa visão analítica que o levou a perceber, na prática, o potencial transformador da inteligência artificial dentro da atividade leiteira. Em um dos exemplos compartilhados durante a palestra, ele relembrou o momento em que identificou precocemente um caso de pneumonia em uma vaca a partir da interpretação integrada de dados da fazenda. “Um dia cheguei na fazenda e vi um colaborador olhando um gráfico. Pensei: acho que essa vaca está com pneumonia”, relatou.
Ao analisar os dados do animal junto às condições meteorológicas daquela semana e outras informações do sistema, a suspeita se confirmou. “A vaca estava há 16 horas com os primeiros sintomas”, explicou.
O diagnóstico precoce mudou completamente o desfecho do caso. O tratamento foi mais simples, rápido e barato. O leite não precisou ser descartado e o risco de agravamento da doença foi drasticamente reduzido. “Se tivéssemos esperado mais horas, provavelmente precisaríamos usar antibióticos, descartar leite e ainda correríamos risco de perda do animal”, afirmou.
Para Windemuller, esse exemplo resume o verdadeiro papel da inteligência artificial dentro da fazenda: ampliar a capacidade humana de tomar decisões melhores e mais rápidas. “A IA não elimina a nossa capacidade. Ela fortalece o nosso poder de decisão”, destacou.
Segundo ele, a produção leiteira moderna se tornou complexa demais para depender apenas da capacidade humana de interpretação. “Produzir leite hoje exige muito mentalmente da gente”, afirmou.
A combinação entre reprodução, sanidade, nutrição, clima, manejo, genética, equipe, custos e eficiência operacional cria um sistema biológico extremamente complexo, capaz de gerar uma quantidade de dados que ultrapassa a capacidade natural de análise das pessoas. É justamente nesse ponto que a inteligência artificial passa a fazer diferença. “A IA consegue analisar em segundos todo o rebanho, cruzando inúmeras fontes de informação atualizadas continuamente”, explicou.
Apesar disso, Windemuller destacou que muitas propriedades ainda não conseguem capturar o real valor dessa tecnologia. Segundo ele, o setor vive hoje uma espécie de “lacuna do lucro da IA”. “Quantos dados você coleta e quantos realmente impactam suas decisões?”, questionou.
Na avaliação do produtor, muitas fazendas investiram em sensores, softwares e automação, mas mantiveram exatamente os mesmos processos de tomada de decisão. “Algumas propriedades adicionaram tecnologia, mas não redesenharam a forma como tomam decisões”, afirmou. O resultado é um cenário de alto volume de dados e baixo retorno prático. “Eu vejo isso acontecendo repetidamente em centenas de propriedades”, disse.
Para ele, as fazendas que realmente conseguem extrair valor da inteligência artificial são aquelas que conseguem transformar dados em ação antes que os problemas aconteçam. “Os líderes em IA são produtores que tomam muitas decisões de alta qualidade”, destacou.
Windemuller explicou que o desenvolvimento da inteligência artificial dentro da fazenda acontece em quatro grandes etapas. A primeira é a coleta de dados. A segunda é quando esses dados passam a gerar valor para a gestão e deixam de ser apenas informação armazenada. O terceiro nível envolve o “valor de prova”, quando os dados demonstram de forma objetiva como a fazenda é administrada. E o estágio mais avançado é a chamada inteligência coletiva, quando informações de diferentes propriedades são integradas para gerar aprendizados em nível setorial. “Em cada degrau, o valor dos dados se multiplica”, afirmou.
Ao longo da palestra, ele reforçou diversas vezes que a tecnologia não substitui a experiência do produtor, mas potencializa sua capacidade de gestão. “A IA não toma a decisão por mim. Ela me entrega a informação certa para eu seguir no caminho certo”, explicou.
Segundo Windemuller, propriedades que conseguem integrar diferentes fontes de dados passam a operar em outro nível de eficiência, previsibilidade e segurança nas decisões. “Você começa a tomar decisões com muito mais confiança”, afirmou.
Essa evolução impacta diretamente áreas como reprodução, saúde animal, descarte, produtividade e eficiência operacional. Muitas vezes, segundo ele, produtores altamente eficientes não são necessariamente melhores intuitivamente — apenas compreendem mais profundamente como o sistema funciona. “Antes isso chegava pela intuição. Agora, chega com a velocidade da máquina”, resumiu.
Mas se a tecnologia já existe, o que ainda impede a transformação digital das fazendas? Para Windemuller, grande parte das barreiras é cultural e está relacionada à liderança.
Ele compartilhou um episódio vivido em sua própria fazenda após a implementação de um sistema remoto de monitoramento alimentar. Durante uma viagem, recebeu uma foto mostrando que o equipamento estava sendo utilizado de forma incorreta. “Fiquei bravo. Mas depois percebi que o erro era meu”, contou.
Segundo ele, a falha não estava na equipe, mas no fato de não ter explicado adequadamente por que aquela tecnologia era importante. “Eu apenas pedi para implementarem”, afirmou. Na avaliação do produtor, muitas resistências surgem exatamente da falta de envolvimento das pessoas nos processos de mudança. “As pessoas precisam entender por que aquela tecnologia está ali”, destacou.
Por isso, Windemuller acredita que o avanço da inteligência artificial no leite depende menos da tecnologia em si e muito mais da capacidade de liderança, integração e reorganização dos fluxos de trabalho dentro das propriedades. “O que vemos em comum nesses problemas não é tecnologia. São questões estruturais e de liderança”, afirmou.
Segundo ele, a implementação da IA também não acontece da noite para o dia. Em sua fazenda, o processo começou pela área reprodutiva e evoluiu gradualmente conforme os dados passaram a reduzir carga cognitiva, desperdícios e descarte de animais.
Ao final da palestra, Windemuller deixou uma provocação aos produtores presentes no Milk Pro Summit: identificar quais decisões são repetidas constantemente dentro da fazenda e quais tarefas continuam consumindo energia excessiva da equipe. “O que tira seu sono?”, questionou.
Para ele, o futuro da competitividade no leite não estará apenas relacionado à escala, mas principalmente à capacidade de operar sistemas integrados baseados em dados. “As operações orientadas por dados serão o grande divisor de águas”, afirmou.
Na visão do produtor norte-americano, fazendas capazes de integrar tecnologia, gestão e tomada de decisão terão mais capacidade de se proteger da volatilidade, operar com maior eficiência e alcançar um novo patamar competitivo nos próximos anos.
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