Figura 1. Animais alojados em sistema de “compost barn”.
Por ser um tipo de confinamento, o sistema de “compost barn” impacta de forma diferente a demanda de água dos animais quando comparado aos sistemas mais tradicionais no país, pasto e semi-confinamento. Isso exige que o sistema de captação e distribuição de água seja projetado e dimensionado corretamente a fim de evitar desperdícios ou falta de água.
Há uma carência de informações sobre o consumo de água de vacas em lactação no sistema “compost barn”. Considerando que estes animais são a categoria animal que, diariamente, mais consome água em um sistema de produção leiteira, ter referências técnicas deste consumo é necessário para a correta gestão hídrica da fazenda.
Nesta publicação apresentamos valores médios do consumo diário de água de vacas em lactação alojadas em sistema de “compost barn” bem como valores de referência para o indicador de litros de água por litro de leite por dia.
A água medida foi a água livre consumida pelas vacas em lactação. Ela é definida como a água consumida diretamente do bebedouro. O monitoramento utilizou hidrômetros analógicos de fluxo contínuo, instalados especificamente para medir o consumo de água. O consumo avaliado pode incluir a água utilizada para lavagem dos bebedouros. A tabela 1 mostra os aspectos produtivos de cada fazenda durante o período de monitoramento.
Tabela 1. Aspectos produtivos médios de cada propriedade durante o período de monitoramento do consumo de água.
|
Fazenda |
Número de vacas em lactação* |
Produção de leite (L/dia) |
Litros de leite por vaca (L/dia) |
Ingestão de matéria seca (kg/dia) |
|
1 |
86 |
2.847 |
33,5 |
23,2 |
|
2 |
88 |
1.986 |
22,7 |
19,7 |
|
3 |
95 |
2.612 |
27,5 |
26,2 |
|
4 |
129 |
4.689 |
36,6 |
24,1 |
*Animais da raça Holandesa.
O consumo diário das vacas em lactação nas quatro fazendas variou de 78,3 a 101,2 L água/vaca/dia (tabela 2). A diferença entre os valores médios máximo e mínimo foi de 22,9 L água/vaca/dia.
Não houve relação única entre a estação do ano e a ingestão de água dos animais. Nas fazendas 1 e 3, as médias da estação chuvosa foram maiores, 102,1 e 88,2 L água/vaca/dia, respectivamente (Tabela 2). O oposto foi observado nas fazendas 2 e 4, onde as médias da estação seca foram mais altas, 82,9 e 90,2 L água/vaca/dia, respectivamente (Tabela 2).
Tabela 2. Estatística descritiva do consumo diário de água das vacas em lactação de cada fazenda.
O consumo diário de água dos animais em sistema de “compost barn” é determinado por diversos aspectos, como a densidade de vacas no galpão, o posicionamento e a disponibilidade linear de bebedouros por animal, os equipamentos disponíveis para manter o conforto térmico dos animais (ventiladores e aspersores) e o manejo correto da cama. Além desses aspectos específicos do sistema, outros também influenciam o consumo de água, como a raça do animal, a ingestão diária de matéria seca, a relação volumoso/concentrado da dieta e o estágio de lactação dos animais.
Ressalta-se que o manejo de limpeza dos bebedouros e a possível ocorrência de vazamentos de água também influenciaram nos valores de consumo.
Na tabela 3 observam-se os valores do indicador de eficiência hídrica. A fazenda 4 apresentou a melhor eficiência média do indicador, 2,5 L de água/L de leite/dia. Para as demais fazendas, a média variou de 3,0 a 3,6 L de água/L de leite/dia.
A ampla variação entre os valores mínimo e máximo destaca a natureza dinâmica do uso da água em sistemas de produção leiteira. De forma geral, esses resultados enfatizam a influência do manejo específico de cada propriedade rural na eficiência hídrica e a importância do monitoramento dos indicadores de desempenho ao longo do tempo.
Tabela 3. Estatística descritiva do indicador L de água/L de leite/dia de cada fazenda.
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Fazenda |
Número de leituras do hidrômetro |
Média |
Média estação seca¹ |
Média estação chuvosa² |
Mediana |
Mínimo |
Máximo |
Coeficiente de variação (%) |
|
1 |
36 |
3,0b |
3,0 |
3,0 |
3,0 |
1,3 |
5,0 |
24,0 |
|
2 |
46 |
3,6a |
3,5 |
3,5 |
3,5 |
1,8 |
6,7 |
28,0 |
|
3 |
28 |
3,1b |
3,0 |
3,2 |
3,0 |
2,5 |
3,8 |
10,7 |
|
4 |
20 |
2,5c |
2,4 |
2,6 |
2,4 |
0,5 |
5,3 |
39,4 |
1. Média da estação seca - avaliada na estação seca (de maio a setembro), 2. Média da estação chuvosa - avaliada na estação chuvosa (de outubro a abril), Letras diferentes nas médias indicam diferença significativa (p < 0,05).
Como a medição da produção de leite é comum em fazendas leiteiras, multiplicar essa quantidade pelos valores da tabela 3, considerando as características da fazenda que seja mais similar a sua realidade produtiva, é uma forma de estimar o consumo de água por vaca em lactação. Vale ressaltar que valores de referência são úteis, mas o melhor valor será sempre aquele medido na fazenda, pois tem relação direta com a realidade da produção e suas variações.
Os valores de consumo e do indicador podem conter as seguintes incertezas:
(i) Como as medições foram feitas em fazendas comerciais, nem todas as informações sobre os manejos que podem influenciar o consumo de água dos animais estavam disponíveis;
(ii) Os hidrômetros instalados mediam o consumo médio dos lotes de animais, o que impede a associação do consumo de cada lote com suas características de manejo;
(iii) Os valores de consumo lidos no hidrômetro podem, em algum momento, incluir outros consumos além dos das vacas em lactação, como o consumo para lavagem de bebedouros.
Os valores apresentados permitem que produtores(as) e técnicos(as) gerenciem os recursos hídricos nas fazendas com maior precisão. Vale ressaltar que os valores devem ser utilizados como referência, uma vez que, características específicas de cada fazenda podem influenciar significativamente o consumo das vacas em lactação e a eficiência hídrica do sistema produtivo.
Agradecimentos
Aos quatro produtores de leite e consultores técnicos que contribuíram para o monitoramento do consumo de água.
Bibliografia consultada
PALHARES, J. C. P.; NACIMENTO, R. A. Consumo de água de bebida de vacas em lactação em sistema de Compost Barn. São Carlos, SP: Embrapa Pecuária Sudeste, 2026. (Embrapa Pecuária Sudeste. Comunicato Técnico, 121). Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/handle/doc/1188145