A análise de dados de 91 propriedades leiteiras de Minas Gerais, pertencentes ao banco de dados da Labor Rural e sem utilização de áreas arrendadas, referentes ao ano de 2023, com os valores monetários corrigidos pelo Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI), tendo maio de 2026 como data-base, evidenciou diferença estatisticamente significativa na produção diária de leite entre os grupos classificados conforme o capital empatado na atividade (R$/litro/dia), mas não na área destinada à produção.
Apesar de apresentarem dimensões semelhantes, as propriedades com menor capital empatado por litro produzido registraram maior produção diária. Esse resultado indica que as diferenças observadas estão mais associadas à eficiência na utilização dos ativos do que ao tamanho físico da propriedade.
Figura 1. Comparação das médias de produção diária (litros/dia) e área destinada à atividade (ha) entre faixas de estoque de capital empatado por litro de leite, em 91 propriedades leiteiras de Minas Gerais (2023), sem área arrendada. Fonte: Labor Rural/Embrapa Gado de Leite (2026). a–c: Médias seguidas por letras distintas diferem entre si pelo teste de Tukey (p-valor ≤ 0,1).
Esse comportamento torna-se evidente ao analisar a taxa de vacas em lactação por hectare. As propriedades com capital empatado inferior a R$ 2,5 mil por litro/dia apresentam maior número de vacas em lactação por área, além de maior produtividade média desses animais. Em outras palavras, utilizam o espaço produtivo de forma mais eficiente, concentrando maior quantidade de vacas efetivamente em produção e com maior produção individual.
Em contrapartida, propriedades com maior capital empatado por litro de leite tendem a subutilizar a área disponível, mantendo um número de vacas em lactação inferior ao potencial produtivo da fazenda. A combinação de menor lotação animal e menor produtividade por vaca resulta em menor produção por hectare e reduz a capacidade de diluição do capital empatado na atividade.
Figura 2. Comparação das médias do número (cabeças) e produtividade das vacas em lactação (litros/vaca/dia) entre faixas de estoque de capital empatado por litro de leite, em 91 propriedades leiteiras de Minas Gerais (2023), sem área arrendada. Fonte: Labor Rural/Embrapa Gado de Leite (2026). Médias seguidas por letras distintas diferem entre si pelo teste de Tukey (p-valor ≤ 0,1).
A análise dos custos mostra que diferenças mais expressivas no Custo Operacional Efetivo (COE) ocorrem nas propriedades com maior estoque de capital empatado por litro de leite. Nesses casos, destacam-se os custos operacionais não alimentares, especialmente aqueles relacionados à mão de obra e aos demais custos estruturais da atividade. Esse comportamento indica que, em fazendas com menor produção por unidade de capital empatado, esses custos são menos diluídos, elevando o custo por litro de leite e comprometendo a eficiência econômica.
Figura 3. Comparação das médias do Custo Operacional Efetivo (COE) e dos custos operacionais não alimentares (R$/litro) entre faixas de estoque de capital empatado por litro de leite, em 91 propriedades leiteiras de Minas Gerais (2023), sem área arrendada. Fonte: Labor Rural/Embrapa Gado de Leite (2026). a–b: Médias seguidas por letras distintas diferem entre si pelo teste de Tukey (p-valor ≤ 0,1).
Esse conjunto de condições se reflete diretamente na taxa de giro do capital, indicador que mostra a proporção de receita gerada em relação ao estoque de capital da propriedade. As fazendas com menor estoque de capital empatado por litro apresentam taxas de giro significativamente superiores (mínima de 40% e mediana de 50%), indicando maior capacidade de transformar os ativos produtivos em receita.
Em contrapartida, as propriedades com maior capital empatado exibem taxas de giro reduzidas (mínima de 9% e mediana de 20%), evidenciando menor eficiência na remuneração do capital empatado e maior risco de comprometimento da sustentabilidade econômica da atividade. Esse resultado reforça que a eficiência econômica depende não apenas do volume de capital empatado, mas principalmente da capacidade de convertê-lo em geração de receita.
Figura 4. Comparação das médias da taxa de giro do estoque de capital (%) entre faixas de estoque de capital empatado por litro de leite, em 91 propriedades leiteiras de Minas Gerais (2023), sem área arrendada. Fonte: Labor Rural/Embrapa Gado de Leite (2026). a–c: Médias seguidas por letras distintas diferem entre si pelo teste de Tukey (p-valor ≤ 0,1).
Do uso do capital ao resultado econômico
Depois de entender como diferentes faixas de capital empatado por litro se relacionam com uso da terra, estrutura de rebanho, custos e taxa de giro, o passo seguinte é observar como esse padrão se reflete no resultado econômico final. Essas mesmas 91 fazendas sem arrendamento foram separadas em dois grupos: aquelas que apresentaram margem líquida positiva e aquelas com margem líquida negativa.
A análise mostra inicialmente que, a produtividade das vacas em lactação é bastante semelhante entre os grupos, o que reforça que os principais gargalos estão menos na “vaca que produz pouco” e mais na organização do rebanho e no nível/uso do capital empatado, ou seja, a gestão se sobrepõe a produtividade quando se busca resultado econômico positivo, conforme resumido na tabela a seguir.
A comparação entre propriedades com margem líquida positiva e negativa demonstra que o desempenho econômico da atividade leiteira está menos associado ao volume produzido ou à produtividade individual das vacas e mais à eficiência na utilização dos recursos disponíveis. Fazendas economicamente mais sustentáveis apresentam maior proporção de vacas em lactação, utilizam a terra de forma mais intensiva e alcançam maior produtividade da mão de obra, fatores que contribuem para reduzir os custos por litro e aumentar a taxa de giro do capital.
Em contrapartida, propriedades com elevado estoque de capital empatado, menor ocupação produtiva da área e baixa participação de vacas em lactação apresentam maiores custos operacionais não alimentares, menor capacidade de diluição do capital empatado e dificuldade para remunerar o capital aplicado.
Tabela 1 – Indicadores técnicos e econômicos de propriedades leiteiras de Minas Gerais (2023), considerando todos os sistemas de produção, por margem líquida (ML).
|
Indicadores |
ML positiva |
ML negativa |
|
N° de propriedades |
78 |
13 |
|
Produção média diária (litros/dia) |
2.311 |
2.422 |
|
Área destinada à atividade (hectares) |
73 |
207 |
|
Vacas em lactação (cabeças) |
89 |
88 |
|
Vacas em lactação/total de rebanho (%) |
43,02 |
35,85 |
|
Produtividade da terra (litros/hectare/ano) |
11.570 |
4.272 |
|
Produtividade das vacas em lactação (litros/vaca/dia) |
26 |
28 |
|
Produtividade da mão de obra (litros/trabalhador/dia) |
527 |
431 |
|
Custo operacional total do leite (R$/litro) |
2,09 |
2,77 |
|
Custos operacionais alimentares (R$/litro) |
1,17 |
1,32 |
|
Custos operacionais não alimentares (R$/litro) |
0,92 |
1,45 |
|
Concentrados e minerais (R$/litro) |
0,87 |
1,00 |
|
Volumosos (R$/litro) |
0,29 |
0,32 |
|
Mão de obra total (R$/litro) |
0,28 |
0,33 |
|
Energia e combustível (R$/litro) |
0,12 |
0,24 |
|
Depreciação (R$/litro) |
0,13 |
0,29 |
|
Custo de oportunidade do capital (R$/litro) |
0,19 |
0,31 |
|
Preço do leite (R$/litro) |
2,71 |
2,70 |
|
Estoque de capital sem terra (R$) |
2.793.553,21 |
4.756.334,88 |
|
Estoque de capital com terra (R$) |
6.904.462,69 |
9.966.006,67 |
|
Taxa de giro do estoque de capital total (%) |
34,48 |
24,70 |
|
Lucratividade operacional (%) |
19,63 |
-6,37 |
Fonte: Labor Rural/Embrapa Gado de Leite (2026). Dados de 91 fazendas sem arrendamento deflacionados pelo Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna de maio de 2026.
Assim, mais do que ampliar investimentos, o principal desafio está em adequar a estrutura produtiva à capacidade de gerar leite, promovendo maior eficiência na utilização da terra, do rebanho e dos ativos da propriedade.