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Utilizando a nutrição para aumentar a gordura do leite

POR JOÃO PEDRO ANDRADE REZENDE

E MARINA A. CAMARGO DANÉS

MARINA A. CAMARGO DANÉS

EM 14/09/2021

9 MIN DE LEITURA

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A composição do leite ganha importância no Brasil. O volume de leite produzido continua o critério mais importante na definição do preço pago ao produtor, já que o mercado no país é voltado principalmente para leite fluído. No entanto, passamos por um momento de transformação.

Já há algum tempo, diversos laticínios têm focado na melhoria da qualidade do leite, bonificando significativamente a redução da contagem bacteriana total (CBT), contagem de células somáticas (CCS) e o aumento dos teores de gordura e proteína.

Tais bonificações podem ser impactantes ao ponto de viabilizar a atividade para o pequeno e médio produtor, além de tornar a atividade mais lucrativa para grandes produtores, podendo alcançar até 30 centavos no cenário atual, segundo levantamento recentemente realizado e publicado nesta plataforma (CARVALHO et al., 2021, CEPEA, 2021).

Como o consumidor final se interessa cada vez mais pelos nutrientes do leite e menos pela quantidade de água contida no mesmo, esta valorização dos sólidos do leite aparece como uma forte tendência de mercado.

Sendo assim, surge uma importante questão. O que fazer para aumentar a produção e teor de gordura do leite? E essa questão, além de importante, é complexa. Complexa porque diversos fatores regulam a síntese de gordura pela glândula mamária.

Tal questão foi tema recente de uma das palestras do VI Formuleite, que ocorreu nos dias 17 e 18/08/21, em conjunto com a 56 Reunião da Sociedade Brasileira de Zootecnia – SBZ 2021. O palestrante Dr. Harvatine, professor de Nutrição e Fisiologia na Pennsylvania State University, conduziu a apresentação intitulada “Regulação da síntese de gordura do leite por nutrição, genética e ambiente”.

Trazemos aqui alguns pontos importantes abordados durante a palestra.

Segundo Dr. Harvatine, os fatores que regulam a síntese da gordura do leite podem ser divididos em fatores não nutricionais e fatores nutricionais. Os fatores não nutricionais são basicamente: genética, estação do ano, estresse térmico, nível de produção, estágio de lactação, paridade e mastite (CCS).

Detalhando melhor os efeitos de estação do ano, por exemplo, trabalhos realizados nos últimos anos pela equipe do Dr. Harvatine demonstraram claramente a existência de um ritmo biológico anual que afeta o teor e produção de gordura do leite (Salfer et al., 2019; Salfer et al., 2020). Nestes trabalhos, foi possível constatar que os teores de gordura se alinham aos solstícios do ano (quanto menor a duração do dia, maior teor de gordura), enquanto a produção de gordura parece se alinhar melhor aos equinócios.

Nosso grupo de pesquisa na UFLA (@inppar.ufla) está trabalhando de forma semelhante em dados brasileiros neste momento, em parceria com a Clínica do Leite, e esperamos ter resultados publicados em breve.

Dos fatores não nutricionais, alguns podem e devem ser contornados nas fazendas com medidas de manejo, como o estresse térmico e a CCS.

A genética também está sob controle do produtor, sendo possível alcançar bons resultados no longo prazo. Nos Estados Unidos, por exemplo, o ganho para teor de gordura foi de 0,17 unidades percentuais nos últimos 10 anos, enquanto o ganho de produção de gordura foi de 48 kg/lactação no mesmo período.

Os fatores não nutricionais devem ser sempre levados em consideração nas tomadas de decisão em fazendas, sendo fundamental considerá-los no estabelecimento de metas para o trabalho nutricional visando aumento de sólidos do leite. Como cada fazenda é única, a melhoria do teor de gordura do leite (bem como de qualquer outro componente) deve ser trabalhada a partir da linha base de cada fazenda.

Tendo este contexto em mente, podemos refazer a pergunta inicial: o que fazer, utilizando a nutrição, para aumentar a produção e teor de gordura do leite?

Partindo do básico, os ácidos graxos insaturados da dieta que chegam ao rúmen passam por um processo de biohidrogenação, isto é, a quebra das duplas ligações pelos microrganismos ruminais. Algumas condições dietéticas levam à ocorrência de uma rota alternativa de biohidrogenação e causam depressão de gordura do leite (DGL). Isso porque alguns ácidos graxos (AG) trans-10 (C18:2 trans-10, cis-12, por exemplo), intermediários na rota de biohidrogenação alternativa, escapam do rúmen e inibem as rotas lipogênicas na glândula mamária.

Os AG do leite mais afetados, então, são justamente aqueles sintetizados pela glândula mamária, principalmente a partir de acetato. A DGL pode reduzir em até 50% o teor de gordura do leite (Harvatine et al., 2009).

Os 2 principais fatores de risco para a DGL estão explicados abaixo:

  • AG dietéticos:
    - Nível de AG insaturados (AGins)
    - Perfil de AG da dieta
    - Velocidade de liberação dos AG no rúmen

O nível de AGins determina o tamanho do desafio para as bactérias que realizam o processo de biohidrogenação. O perfil dos AG que chegam no rúmen também tem grande importância, existindo diversas evidências na literatura que o ácido linoléico (C18:2) aumenta mais o risco de ocorrência de DGL, já que ele é o precursor do C18:2 trans-10, cis-12. Por fim, a velocidade de liberação dos AGins no rúmen também desempenha um papel crítico.

Quanto mais rápida a liberação, mais a rota de biohidrogenação fica sobrecarregada, aumentando a chance de acúmulos de intermediários que escapam do rúmen.

Alimentos que liberam AGins rapidamente no rúmen (óleo de soja, por exemplo) trazem um risco muito maior de DGL do que alimentos de liberação lenta (caroço de algodão, por exemplo).

  •  Carboidratos dietéticos:
    - Quantidade de amido
    - Degradabilidade ruminal do amido
    - Teor de FDN fisicamente efetivo (FDNfe)

Qualquer condição dietética que aumente o risco de acidose ruminal, aumenta o risco de DGL. Tal associação existe porque o baixo pH ruminal favorece a rota alternativa de biohidrogenação. Sendo assim, é de grande importância balancear bem a quantidade de amido e de fibra fisicamente efetiva na dieta, visando garantir o aporte energético para a produção de leite almejada, sem, no entanto, sacrificar a saúde ruminal e reduzir o teor de gordura do leite.

É fundamental adequar os níveis de AG e carboidratos dietéticos quando o objetivo é maximizar sólidos e saúde na fazenda. Caso exista um problema e a dieta seja reformulada, o esperado é o que os níveis de gordura do leite voltem ao normal em 14 dias (Rico e Harvatine, 2013).

Indo além, a formulação da dieta muitas vezes não explica tudo. É comum fazendas com dietas bem formuladas enfrentarem problemas de DGL. Assumindo que a dieta formulada está sendo seguida e os ingredientes são pesados corretamente, a causa para o problema estará no manejo alimentar.

É preciso considerar, além da composição da dieta fornecida, como as vacas estão comendo e se existe estabilidade na fermentação ruminal ao longo do dia. Algumas práticas de manejo que podem ajudar a reduzir o risco de DGL são: divisão de lotes de vacas em lactação, lote exclusivo para primíparas, boa qualidade de mistura (quando a fazenda utilizar TMR), espaço de cocho >60 cm/vaca e monitoramento frequente do teor de MS da forragem.

É fundamental realizar mudanças e acompanhar os resultados, visando detectar possíveis problemas precocemente. Mudanças que causem DGL tipicamente reduzem o teor de gordura do leite em 7 dias (Rico e Harvatine, 2013).

Até agora foram apresentadas formas de evitar a DGL, ou seja, garantir o fornecimento de uma dieta e condições de manejo que permitam que cada vaca expresse seu potencial para produção de gordura do leite. Frequentemente as fazendas tem baixo teor de gordura por errarem nestes aspectos. No entanto, considerando uma fazenda que já tenha bons teores de gordura do leite, o que podemos fazer para aumentar ainda mais?

A literatura mostra que é possível e estes incrementos são importantes, apesar de serem mais modestos que os incrementos observados na recuperação de DGL. Tais incrementos envolvem o aumento do aporte de substrato para síntese de gordura do leite.

As principais duas formas de aumentar este aporte são:

  • Aumentar digestibilidade de fibra das forragens (em uma condição em que a DGL não está ocorrendo);
  • Fornecer ácido palmítico (C16:0).

É necessário ter cautela com o fornecimento de AG, uma vez que aumentar a quantidade de AG pré-formados que vem da dieta chegando à glândula mamária pode reduzir a síntese de AG de novo (Glasser et al., 2008). Contudo, o fornecimento de C16:0 parece não causar essa redução na síntese de AG de novo, aumentando o teor de gordura de maneira consistente nos trabalhos já realizados.

Com o objetivo de demonstrar o possível ganho em gordura do leite com o maior aporte de substrato, dois trabalhos que obtiveram resultados positivos em produção e teor de gordura do leite com infusões de acetato de sódio foram apresentados pelo Dr. Harvatine (Urrutia et al,. 2017; Urrutia et al., 2019).

Estes resultados evidenciam o potencial de ganho em gordura do leite com o aumento de digestibilidade de fibra em forragens, condição em que uma maior produção de acetato no rúmen é esperada.

Outro ponto interessante da apresentação foi o uso de um análogo hidroxilado de metionina disponível no rúmen (HMTBa). Mostrando dados recentes, Dr. Harvatine relatou que a HMTBa evitou DGL em vacas de alta produção consumindo dietas de alto risco para DGL (Baldin et al., 2018), provavelmente por aumentar a velocidade de desaparecimento de ácidos graxos insaturados do rúmen e reduzir a síntese de AG trans-10.

Neste caso, ao final do experimento, as vacas recebendo HMTBa produziram leite com 0,7 unidades percentuais a mais de gordura do que as vacas controle.  Alguns trabalhos que indicam um potencial mecanismo de ação foram mostrados, com resultados em aumento de ácidos graxos de cadeia ímpar e ramificados no leite (Baldin et al., 2019) e aumento de diversidade microbiana no rúmen (Pitta et al., 2020) com o fornecimento de HMTBa.

Concluindo, a síntese de gordura pela glândula mamária é complexa e afetada por diversos fatores. Entre esses fatores, a nutrição aparece como um dos meios mais estudados, efetivos e rápidos para se evitar a DGL e aumentar a gordura do leite.

O que precisamos fazer é: buscar informação técnica de qualidade, aplicar as mudanças necessárias e plausíveis nas fazendas e seguir monitorando os resultados, tendo em mente que sempre é possível melhorar.

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Referências Bibliográficas

BALDIN, M.; TUCKER, H. A.; HARVATINE, K. J. Milk fat response and milk fat and urine biomarkers of microbial nitrogen flow during supplementation with 2-hydroxy-4-(methylthio) butanoate. Journal of dairy science, v. 102, n. 7, p. 6157-6166, 2019.

BALDIN, M.; ZANTON, G. I.; HARVATINE, K. J. Effect of 2-hydroxy-4-(methylthio) butanoate (HMTBa) on risk of biohydrogenation-induced milk fat depression. Journal of dairy science, v. 101, n. 1, p. 376-385, 2018.

CARVALHO, G. R; CHAVES, D.O; ROCHA, D. T. Pagamento por volume: um desafio para pequenos produtores de leite. Milkpoint, 2021.

GLASSER, Frederic et al. Long-chain fatty acid metabolism in dairy cows: A meta-analysis of milk fatty acid yield in relation to duodenal flows and de novo synthesis. Journal of Dairy Science, v. 91, n. 7, p. 2771-2785, 2008.HARVATINE, K. J; et al. Recent advances in the regulation of milk fat synthesis. Animal, v. 3, n. 1, p. 40-54, 2009.

PITTA, D. W. et al. Effect of 2-hydroxy-4-(methylthio) butanoate (HMTBa) supplementation on rumen bacterial populations in dairy cows when exposed to diets with risk for milk fat depression. Journal of dairy science, v. 103, n. 3, p. 2718-2730, 2020.

RICO, Daniel E.; HARVATINE, Kevin J. Induction of and recovery from milk fat depression occurs progressively in dairy cows switched between diets that differ in fiber and oil concentration. Journal of Dairy Science, v. 96, n. 10, p. 6621-6630, 2013.SALFER, I. J; et al. SALFER, I. J.; DECHOW, C. D.; HARVATINE, K. J. Annual rhythms of milk and milk fat and protein production in dairy cattle in the United States. Journal of dairy science, v. 102, n. 1, p. 742-753, 2019.

SALFER, I. J. et al. Annual rhythms of milk synthesis in dairy herds in 4 regions of the United States and their relationships to environmental indicators. Journal of dairy science, v. 103, n. 4, p. 3696-3707, 2020.

URRUTIA, Natalie L.; HARVATINE, Kevin J. Acetate dose-dependently stimulates milk fat synthesis in lactating dairy cows. The Journal of nutrition, v. 147, n. 5, p. 763-769, 2017.

URRUTIA, N. et al. Effect of dietary supplementation of sodium acetate and calcium butyrate on milk fat synthesis in lactating dairy cows. Journal of dairy science, v. 102, n. 6, p. 5172-5181, 2019.

JOÃO PEDRO ANDRADE REZENDE

MARINA A. CAMARGO DANÉS

Professora do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Lavras. Engenheira Agrônoma e mestre pela ESALQ/USP. PhD em Dairy Science pela Universidade de Wisconsin-Madison, WI, EUA. www.marinadanes.com

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FABIO VIEIRA

PARANAVAÍ - TOCANTINS - PRODUÇÃO DE LEITE

HÁ 2 DIAS

Excelente artigo
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