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Limitações nutricionais de vacas em lactação mantidas em pastagens bem manejadas

MARINA A. CAMARGO DANÉS

EM 04/05/2020

9 MIN DE LEITURA

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A produção de leite em pastagens contribui de forma importante para a produção total de leite no Brasil. A ciência nos permitiu avançar muito nas estratégias de manejo das forrageiras tropicais que resultem em alimento de bom valor nutritivo para os animais em pastejo. Adubação nitrogenada combinada com ciclos de pastejo que respeitem a fisiologia da planta aumentam a eficiência de colheita e permitem a produção de um alimento com alto teor de proteína bruta (PB) e alta digestibilidade da fibra. Neste cenário, a suplementação com concentrado para vacas em lactação mantidas em pastagens no verão tem como objetivo balancear (em quantidade e composição) os nutrientes provenientes da forrageira.

A intensificação de sistemas de produção de leite em pastagens é um dos alvos das pesquisas realizadas pelo Departamento de Zootecnia da Esalq, em Piracicaba. Em uma área de capim elefante estabelecida na década de 70, pelos professores Vidal Pedroso de Faria e Moacyr Corsi, funciona um sistema de pastejo rotacionado de 15 ha que trabalha com taxa de lotação de 9 UA/ha durante o verão. Atualmente, o rebanho é composto majoritariamente por vacas HPB, mas foi por muito tempo composto por mestiças HPBxJersey e por um pequeno período também contou com animais Girolando para alguns experimentos.

Essa pequena área já foi palco para geração de muito conhecimento, com diversas teses e dissertações desenvolvidas principalmente sob orientação dos professores Flávio Portela Santos e Sila Carneiro da Silva. Do lado do manejo do pastejo, saíram de lá recomendações que otimizam o consumo de forragem (Geremia et al., 2014), a produção de leite (Congio et al., 2018), a produtividade por área (Voltolini et al., 2010), a eficiência de uso do nitrogênio (Batalha, 2018), a rebrotação da planta (Pereira et al., 2013) e minimizam o impacto ambiental do sistema (Congio et al., 2019). Já do lado da suplementação concentrada, o conhecimento gerado inclui utilização de co-produtos industriais em substituição ao milho (Martinez, 2008), avaliação de análogo de metionina (Greco, 2008), de fontes de gordura (Souza et al., 2017), de aditivos (Navarro, 2018), de doses de concentrado (Macedo, 2012), de processamento de milho (Batalha, 2015) e de estratégias de suplementação proteica (Danes et al., 2013 e Chagas, 2011) e energética (Batistel et al., 2017).

Neste artigo gostaria de focar nos dois últimos itens desta lista e discutir um pouco sobre as limitações nutricionais das vacas mantidas em pastagens tropicais manejadas intensivamente. Por muito tempo, as forrageiras tropicais tiveram fama de apresentarem baixo valor nutritivo, em especial na concentração de PB. Por isso, concentrados comercializados para animais em pastejo frequentemente possuem alto teor de PB (20-24%). No entanto, o avanço nas técnicas de manejo do pastejo e da planta forrageira já nos provaram que é possível atingir valores elevados de PB (15-20%), com teores não tão altos de FDN (58-62%) e garantir alta eficiência de colheita.

Neste cenário, a utilização de concentrados com elevado teor de PB deve ser questionada. Essa foi a pergunta do meu trabalho de mestrado (Danes et al., 2013). Meu experimento utilizou vacas em terço médio de lactação com produção média de 20 L/d e avaliou três doses de PB no concentrado (8%, 13% e 18%). O capim elefante era manejado por altura (correspondente a 95% de interceptação luminosa), recebia 50 kg N/ha após cada pastejo e apresentou 18,5% PB durante o experimento. As vacas comeram aproximadamente 7 kg de concentrado por dia, dividido nas duas ordenhas e não responderam ao aumento de PB no concentrado com aumento de leite ou de proteína do leite, mostrando que o concentrado de 8% PB (composto apenas por milho moído e mistura mineral) foi suficiente para atender as exigências de proteína. A dieta completa (considerando o consumo de pasto também) neste tratamento apresentou em torno de 15,5% PB. A utilização de concentrado com ingredientes proteicos em uma situação como essa aumenta o custo da dieta e reduz a eficiência de utilização do N, fazendo com que o excesso seja excretado, contribuindo negativamente para o impacto ambiental do sistema. Na sequência, esse experimento foi repetido com vacas em terço inicial de lactação, produzindo aproximadamente 24 L/d (Chagas, 2011). Desta vez, o capim apresentou 15,5% PB e as vacas consumiam uma dose maior de concentrado (9 kg/d). Neste caso, as vacas responderam linearmente ao aumento de proteína no concentrado para produção de leite, gordura e proteína.

A análise conjunta destes dois experimentos nos ensina diversas coisas. A exigência de proteína dietética depende do nível de produção e estágio de lactação das vacas. Para as vacas em meio de lactação produzindo 20 L/d, a dieta com 15,5% PB foi suficiente. Já para vacas em início de lactação produzindo 24 L/d, o teor necessário foi próximo de 17% PB. Além disso, a formulação do concentrado deve levar em conta a composição do capim. No experimento de Danes, com uma forragem de 18,5% de PB, foi possível formular um concentrado apenas com ingrediente energético (milho moído). Já no trabalho de Chagas, o teor de PB do capim era menor (15,5%) e o concentrado com apenas milho resultou em uma dieta de 12% PB, obviamente deficiente para qualquer nível de produção. Neste trabalho, foi necessário o concentrado de 20% PB para fechar a dieta com 17% PB que atendesse a necessidade dessas vacas de maior produção. Outro ponto importante em mencionar é que conforme o nível de produção aumenta, a quantidade de concentrado oferecido também aumenta, e a relação forragem:concentrado da dieta muda. Isso afeta diretamente a necessidade de PB do concentrado. No caso do experimento de Danes, o pasto de 18,5% de PB foi 67% da dieta. Já no trabalho de Chagas, o capim com 15,5% PB ocupou apenas 54% da dieta, fazendo ainda mais necessária a inclusão de ingredientes proteicos no concentrado.

Ainda assim, em pastos que recebem altas doses de adubação nitrogenada, a limitação nutricional mais provável para é energética durante a maior parte da lactação. Por melhor que seja o manejo do pastejo, a densidade energética da planta forrageira fresca é muito baixa. Alia-se a isso o fato de que o pastejo ocorre no período quente do ano, em que a radiação solar reduz o número de horas aptas ao pastejo ao longo do dia, o que limita o tempo de pastejo e, consequentemente, o consumo de forragem.

Essa hipótese de limitação energética foi testada no experimento de Batalha (2015), que avaliou diferentes formas de processamento do milho no concentrado de vacas em lactação pastejando essa mesma área de capim elefante. Nenhuma resposta produtiva foi observada ao se substituir o milho moído fino por milho reidratado e ensilado ou por milho floculado. No entanto, as vacas estavam produzindo somente 13 kg/d neste experimento, reduzindo muito a probabilidade de resposta. Por outro lado, a quantidade de concentrado afetou a produção de leite de vacas produzindo um pouco mais. Quando um concentrado composto por 81% de milho moído foi oferecido na dose de 1 kg/d para cada 2,5 L/d ou de 1 kg/d para 5 L/d, a produção caiu de 17,6 na maior dose para 14,8 L/d na menor dose. A maior dose de concentrado, apesar de ter reduzido o consumo de pasto por efeito de substituição, aumentou o consumo de matéria seca total e, consequentemente, o consumo de energia.

Da mesma forma que com a suplementação proteica, os estudos com suplementação energética se voltaram então para o terço inicial da lactação. Neste período, como a produção de leite é alta, a oferta de concentrado também é alta, podendo chegar a 10-12 kg/dia, geralmente divididos em apenas dois fornecimentos durante as ordenhas. Nessa situação, fica difícil aumentar a quantidade de carboidratos fermentáveis da dieta sem comprometer o funcionamento ruminal. Por isso, o primeiro trabalho dessa sequência avaliou a suplementação com gordura como estratégia de aumentar o consumo de energia em vacas no início da lactação. As vacas HPBxJersey foram suplementadas com 9 kg de concentrado por dia contendo ou não 400 g de uma das duas fontes de gordura protegida (óleo de palma X óleo de soja) durante 90 dias (dia 15 ao dia 105 de lactação). Após esse período foi avaliado o efeito residual da gordura até 275 dias de lactação. Durante os 90 dias de suplementação com gordura, a produção de leite aumentou em 2,6 (de 24,2 para 26,8) e 4,8 (de 24,2 para 29,0) kg por dia quando os óleos de soja e palma foram utilizados, respectivamente, em comparação com as vacas não suplementadas com gordura. O fornecimento de óleo de soja protegido na dose de 400 g por dia reduziu drasticamente o teor de gordura do leite, de 3,48% para 2,87%. Esse experimento já foi discutido nesta coluna (clique aqui para ler o artigo.

Por fim, o outro experimento conduzido com este objetivo comparou o aumento do fornecimento de energia por meio de processamento do grão de milho (floculação) ou por suplementação com gordura (sais de cálcio de óleo de palma), bem como a interação entre as duas estratégias. As vacas (HPBxJersey e Girolando) receberam 8 kg/d de concentrado, em duas ofertas. Esse concentrado era composto por milho moído fino ou milho floculado, com ou sem gordura protegida (400 g/d), totalizando 4 tratamentos. Os concentrados experimentais foram oferecidos da semana 3 a semana 16 de lactação. No entanto, as vacas foram acompanhadas até os 280 dias de lactação (consumindo todas o mesmo tipo de concentrado, com milho moído fino e sem gordura) para avaliação do efeito residual desses tratamentos. A produção de leite nos quatro tratamentos desse experimento está demonstrada no gráfico abaixo.

energia dieta vacas leiteiras milho

Figura 1. Produção de leite (milk yield, kg/d) nas semanas de lactação (weeks on experiment). A suplementação com os concentrados experimentais ocorreu da semana 3 a semana 16 (linha pontilhada) e a produção foi acompanhada até o final da lactação.

O gráfico mostra que as vacas responderam expressivamente ao aumento no fornecimento de energia tanto na forma do processamento do milho quanto na forma de gordura. A maior resposta foi obtida com a combinação das duas estratégias. Na média do período de tratamento (entre 3 e 16 semanas de lactação), as vacas que comeram concentrado com milho floculado e gordura protegida produziram 4,8 L/d a mais do que as vacas que comeram concentrado com milho moído fino sem gordura. É importante ressaltar também que a produção de gordura do leite não foi prejudicada com a suplementação de gordura, nem mesmo na dieta com milho floculado, que poderia abaixar o pH ruminal e facilitar a síntese e o escape do CLA trans-10, cis-12, molécula bioativa proveniente de lipídeos dietéticos que inibe a síntese de gordura no leite. Na verdade, a síntese de gordura aumentou com as duas estratégias de aumento no aporte energético. A suplementação com gordura teve um efeito residual maior ao longo da lactação do que a do milho floculado.

A avaliação conjunta de todos esses experimentos nos mostra que em pastagens bem manejadas, com a suplementação concentrada adequada, é possível atingir altos níveis de produção. A composição do concentrado suplementar depende da composição do pasto, do nível de produção e do estágio de lactação. Os programas de formulação de dieta podem ser utilizados na formulação do concentrado, com consumo de pasto estimado, e a melhor forma de monitorar a nutrição das vacas em pastejo é pela análise de leite, já que não é possível medir o consumo de pasto de forma prática.

Este breve histórico é apenas uma amostra do tamanho do impacto que nossos mestres, Prof. Vidal e Prof. Moacyr, atingiram na produção de leite e manejo do pastejo. Tudo começou com a semente plantada por eles há 50 anos. Além de toda geração de conhecimento, outro grande ativo foi a formação de recursos humanos que essas pesquisas possibilitaram e que hoje espalham esses conceitos pelo Brasil. Aos mestres, nossa eterna gratidão e admiração!

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MARINA A. CAMARGO DANÉS

Professora do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Lavras. Engenheira Agrônoma e mestre pela ESALQ/USP. PhD em Dairy Science pela Universidade de Wisconsin-Madison, WI, EUA. www.marinadanes.com

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SIDNEY LACERDA MARCELINO DO CARMO

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 08/05/2020

Pensa bem se repetirmos estes trabalhos no capim elefante BRS Kurumi?
SIDNEY LACERDA MARCELINO DO CARMO

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 08/05/2020

Excelente material.
RICARDO SASÍAS

ARARANGUÁ - SANTA CATARINA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 07/05/2020

De los mejores artículos sobre alimentación de vacas lecheras en pastoreo presentados en Milkpoint. Muchas gracias Doctora
MARINA A. CAMARGO DANÉS

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 11/05/2020

Muito obrigada! Fico feliz que foi útil!
Um abraço
LUCIANO PATTO NOVAES

NATAL - RIO GRANDE DO NORTE - PESQUISA/ENSINO

EM 06/05/2020

Profa. Marina, permita-me expressar dois cumprimentos, um pelo artigo (foco nutricional para vacas em pastejo e manejo da forrageira e curva da lactação) e, outro pela homenagem aos Professores Vidal e Corsi com os quais tive a oportunidade de trabalhar e aprender quando pesquisador da Embrapa Gado de Leite. Com o seu consentimento acrescento outro integrante daquela época, o prof. Aristeu M. Peixoto. E, pela sua homenagem, meus parabéns aos demais docentes, discentes e egressos do DZ Esalq.
Luciano Patto Novaes
MARINA A. CAMARGO DANÉS

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 11/05/2020

Prezado Luciano, muito obrigada por suas palavras e por mencionar o Prof. Aristeu! Com certeza ele trilhou o caminho para que toda essa ciência saísse e continue saindo de nossa escola!
Forte abraço.
CARLOS ROBERTO DO NASCIMENTO

SÃO TIAGO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 06/05/2020

Parabéns,
Excelente artigo.
Muito esclarecedor.
Trabalho com piquetes rotacionados e no inverno faço sobressemeadura de aveia e azevem. Que tal fazer uma avaliacao baseado nessas duas culturas?
MARINA A. CAMARGO DANÉS

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 11/05/2020

Muito obrigada! Você fica em MG Carlos?
EM RESPOSTA A MARINA A. CAMARGO DANÉS
CARLOS ROBERTO DO NASCIMENTO

SÃO TIAGO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 12/05/2020

Sim, município de Nazareno
MARCOS CALIANI

ASTORGA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 05/05/2020

Parabéns pelo pequeno resumo de trabalhos científicos de grande valor afim de expor e contribuir para nós consultores e técnicos que muitas vezes somos indagados que a produção a pasto em sistema de produção de leite , não é compatível como boas produtividades. Para os produtores gostaria de relatar que temos técnicos altamente qualificados espalhados peo Brasil, e desconsiderar toda esta oportunidade de melhorar seus negócios com a contratação, ou parceria com um técnico é continuar a navegar em um mar de incertezas!.
JOÃO LEONARDO PIRES CARVALHO FARIA

MONTES CLAROS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 05/05/2020

Que uma pastagem bem manejada é um excelente volumoso, não tenho dúvidas, o maior desafio é manter, como você mesmo citou,a composição do pasto de maneira regular durante toda a estação....
ALICE NASCIMENTO DE MORAES CARDOZO

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO

EM 05/05/2020

Ótima matéria... nos faz entender que investimentos em pesquisa são a chave para se baratear o custo do animal, sem permitir a perda de qualidade. O desenvolvimento de novos padrões de experimentação do solo e de sua plantações nos trará muitos benefícios!!!
ALICE NASCIMENTO DE MORAES CARDOZO

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO

EM 05/05/2020

Ótima matéria... nos faz entender como funciona a pesquisa e implantação de um novo conceito de alimentação dos rebanhos que se desenvolvem no Brasil!
MARINA A. CAMARGO DANÉS

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 05/05/2020

Obrigada Alice!
Abraço,
Marina
ALEX MOREIRA

NOVA INDEPENDÊNCIA - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 04/05/2020

Boa tarde!!!

Ótimo artigo!!!! Muito esclarecedor... Em momentos como agora baixar custo de alimentação concentrada e fundamental!!!
MARINA A. CAMARGO DANÉS

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 05/05/2020

Muito obrigada Alex! O interessante de lembrar também é que em períodos chuvosos, quanto o pasto é a forragem exclusiva, o manejo correto do pastejo não implica em custos adicionais e traz muitos benefícios, incluindo maior produção e melhor uso do concentrado. Isso reduz desperdícios e aumenta a eficiência do processo produtivo.