A busca por alimentos funcionais cresce a cada ano, e os produtos lácteos têm se destacado como uma base ideal para a adição de compostos bioativos, como vitaminas, antioxidantes e probióticos. O desafio está em manter esses ingredientes estáveis e ativos durante o processamento e estocagem, sem comprometer a qualidade do produto (Mohite & Waghmare, 2020; Mitropoulou et al., 2013).
Nesse cenário, a imobilização de compostos bioativos surge como uma estratégia promissora. A técnica permite proteger moléculas sensíveis contra degradação e controlar sua liberação no organismo, aumentando a eficácia e o valor nutricional dos lácteos (Zabot et al., 2022; Vélez et al., 2017).
Entre as estratégias mais exploradas estão o uso de proteínas do leite, polissacarídeos e lipídios como carreadores naturais. Essas matrizes atuam como “escudos” que preservam os bioativos, garantindo maior estabilidade e biodisponibilidade. A microencapsulação em polímeros naturais, como alginato, pectina, caseína e amido modificado, além de lipossomas e nanopartículas proteicas, já mostrou resultados positivos na proteção de vitaminas, polifenóis e carotenoides em produtos lácteos (Shamil et al., 2023; Adinepour et al., 2022).
Estudos recentes ainda destacam o potencial das proteínas do leite, especialmente as caseínas e proteínas do soro, como veículos naturais de imobilização. Isso porque são biocompatíveis, biodegradáveis e capazes de formar micelas estáveis que protegem os compostos ativos (Santana et al., 2022).
Do ponto de vista industrial, o desafio consiste em adaptar métodos de imobilização que sejam eficientes, economicamente viáveis e compatíveis com processos já estabelecidos, sem comprometer a qualidade sensorial do produto.
Nesse contexto, a aplicação da imobilização na indústria láctea não apenas amplia o potencial nutricional e funcional desses alimentos, mas também abre caminho para a inovação tecnológica, permitindo o desenvolvimento de produtos diferenciados, de maior valor agregado e alinhados às novas demandas de consumo.
Como a imobilização protege os compostos bioativos nos produtos lácteos?
A imobilização de compostos bioativos pode ser feita por diferentes métodos, baseado no tipo de interação entre o bioativo e a matriz carreadora. Esses processos constituem a base para o uso de proteínas, polissacarídeos, lipídios e sistemas híbridos como veículos naturais (Maghraby et al., 2023). Entre os métodos de imobilização de compostos bioativos podem-se destacar:
-
Aprisionamento: consiste na incorporação do bioativo em uma rede polimérica (como proteínas ou polissacarídeos), sem interação química direta. O bioativo permanece fisicamente retido, sendo liberado gradualmente. É amplamente utilizado em sistemas de gelificação e nano/microgéis (Maghraby et al., 2023).
-
Adsorção: ocorre quando os bioativos se ligam superficialmente ao material de suporte por interações fracas (eletrostáticas, hidrofóbicas ou de van der Waals). É um método simples e de baixo custo, adequado para compostos fenólicos, enzimas e alguns peptídeos bioativos (Maghraby et al., 2023).
-
Ligação covalente: estabelece uma ligação química estável entre o bioativo e a matriz carreadora, proporcionando forte retenção e liberação controlada. Embora seja altamente eficaz, apresenta custo mais elevado e menor flexibilidade para aplicação em larga escala (Holyavka et al., 2025).
-
Microencapsulamento: envolve o recobrimento de bioativos com uma camada protetora (proteica, polissacarídica ou lipídica), geralmente em forma de micropartículas. É um dos métodos mais aplicados na indústria de laticínios, pois protege contra degradação térmica, oxidativa e enzimática e preserva sua funcionalidade ao longo da produção, do armazenamento e do transporte. Além disso, aumenta a resistência à ação de enzimas digestivas, o que, por sua vez, aumenta sua biodisponibilidade (Rezvankhah Emam-Djomeh, & Askari, 2020).
Figura 1. Métodos de imobilização: aprisionamento, adsorção, ligação covalente e microencapsulamento
(adaptado de Xie et al., 2022).
Do bioativo ao produto final: escolhendo a matriz ideal
A escolha da técnica de imobilização depende tanto das características do bioativo quanto das propriedades da matriz alimentar em que será incorporado. Cada alimento possui particularidades físico-químicas que podem afetar a eficiência do encapsulamento, a estabilidade do composto e sua biodisponibilidade. Por isso, selecionar materiais de parede adequados é essencial para garantir que vitaminas, antioxidantes, peptídeos ou probióticos mantenham sua funcionalidade em leite e produtos lácteos (Kwak et al., 2014).
De forma geral, os suportes utilizados podem ser divididos em três categorias principais: carreadores orgânicos, inorgânicos ou híbridos, cada um com vantagens específicas dependendo do bioativo e da aplicação desejada (Figura 2).
Figura 2. Principais categorias de carreadores: orgânicos, inorgânicos e híbridos.
Fonte: os autores, (2025).
Carreadores orgânicos: proteínas, polissacarídeos e lipídios
Os carreadores orgânicos protegem bioativos em produtos lácteos usando proteínas, polissacarídeos ou lipídios.
-
Proteínas do leite: a caseína e as proteínas do soro formam micelas ou nanopartículas que carregam vitaminas, antioxidantes e peptídeos bioativos. Além de proteger os compostos, ajudam na textura, viscosidade e sabor dos produtos (Livney, 2010; Adinepour et al., 2022).
-
Polissacarídeos: alginato, carragena, pectina, celulose, amido e quitosana formam cápsulas e géis que protegem vitaminas e probióticos durante produção e armazenamento. Estudos mostram aumento significativo na viabilidade de Lactobacillus e Bifidobacterium em iogurtes e queijos funcionais (Li et al., 2019; Silva, 2018; Khosravi Zanjani et al., 2016).
-
Lipossomas e nanoemulsões: encapsulam bioativos hidrofóbicos ou hidrofílicos, aumentam a estabilidade, protegem da oxidação e aumentam a absorção de nutrientes e compostos antioxidantes. Também ajudam a manter sabor e aparência dos produtos (Ribeiro et al., 2020; De Avila et al., 2023; Ghorbanzade et al., 2017; Rasti et al., 2017; Panghal et al., 2019; Queirós et al., 2020).
Carreadores inorgânicos: fortes e estáveis
Carreadores como sílica, alumina e titânia são resistentes, duráveis e com alta área de superfície. Podem ser usados para proteger bioativos, mas é preciso observar normas de segurança e regulamentação (Yushkova et al., 2019).
Carreadores híbridos: combinação estratégica entre matrizes orgânicas e inorgânicas
-
Unem propriedades de estabilidade, proteção e biocompatibilidade (Xie et al., 2022).
-
A formação de complexos entre proteínas lácteas (caseína, lactoalbumina) e polissacarídeos (pectina, goma arábica, quitosana) estabilizam bioativos sensíveis e modulam a sua liberação no organismo. Protege antioxidantes e vitaminas e podem ser aplicados em iogurtes e bebidas lácteas funcionais, mantendo o sabor e valor nutricional (Sun et al., 2022).
-
Gelificação iônica: polissacarídeos carregados negativamente (como o alginato) com cátions divalentes (como Ca2+). Protege vitaminas lipossolúveis, probióticos e antioxidantes durante produção e armazenamento de leites, queijos e iogurtes (Souza et al., 2024).
Alguns exemplos do uso do complexo proteína-polissacarídeo para encapsulamento de compostos bioativos com aplicação em produtos lácteos são apresentados na Tabela 1.
Tabela 1. Aplicações de complexos proteína-polissacarídeo no encapsulamento de compostos bioativos para uso em matrizes lácteas.
|
Complexo Proteína–Polissacarídeo |
Características Funcionais |
Aplicações em Produtos Lácteos |
|
Caseína + Alginato |
Formação de microgéis que protegem bioativos; controle de liberação em pH intestinal; estabilidade térmica. |
Encapsulamento de vitaminas, antioxidantes e probióticos em iogurtes e queijos funcionais. |
|
Soro de leite (Whey) + Pectina |
Boa dispersão em líquidos; capacidade de formar filmes e microesferas; alta biocompatibilidade. |
Iogurtes bebíveis e bebidas lácteas enriquecidas com compostos bioativos hidrossolúveis ou lipossolúveis. |
|
Albumina + Quitosana |
Formação de filmes e microesferas; proteção de bioativos contra oxidação e degradação térmica; efeito antimicrobiano da quitosana. |
Queijos e sobremesas lácteas com bioativos sensíveis à luz e oxigênio. |
|
Gelatina + Carragenana |
Capacidade de formar géis termo-reversíveis; controle da textura; liberação prolongada de compostos bioativos. |
Sobremesas lácteas (pudins, mousses) e iogurtes funcionais com antioxidantes ou probióticos. |
Fonte: Wei et al., (2024); Wei & Huang, (2019).
Escolhendo o carreador correto
Nem todo material é adequado para imobilização de bioativos em alimentos. O carreador ideal deve:
-
Ser estável quimicamente, fisicamente e biologicamente durante processamento;
-
Ter resistência mecânica, para suportar reatores e operações industriais;
-
Ser não tóxico tanto para o bioativo como para o produto;
-
Possuir alta capacidade de carregamento.
Além disso, deve-se avaliar custo-benefício e disponibilidade do material, bem como propriedades físicas como porosidade, capacidade de intumescimento e resistência à compressão. Aspectos da aplicação, como risco de crescimento microbiano, biodegradabilidade e solubilidade do suporte, também influenciam o desempenho do sistema.
Considerações finais
Por fim, pode-se concluir que a imobilização de compostos bioativos em lácteos é uma estratégia promissora para criar alimentos funcionais de maior valor agregado. Carreadores orgânicos, inorgânicos e híbridos oferecem soluções versáteis. Técnicas como aprisionamento, adsorção, ligação covalente e microencapsulação ajudam a: proteger moléculas sensíveis de calor, oxidação e processamento; aumentar a biodisponibilidade e a eficácia fisiológica dos bioativos; manter a qualidade sensorial dos produtos.
Agradecimentos:
Os autores agradecem a CAPES (Código Financiamento 001), Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) (APQ-00388-21; APQ-00785-23; APQ- 06600-24, RED-00157-23), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e FINEP (FINEP-01.23.0632.00).
Referências bibliográficas
ADINEPOUR, F.; POURAMIN, S.; RASHIDINEJAD, A.; JAFARI, S. M. Fortification/enrichment of milk and dairy products by encapsulated bioactive ingredients. Food Research International, v. 157, p. 111212, 2022.
De AVILA, M. T.; CONTESSA, C. R.; MICHELON, M.; MORAES, C. C.; BURKERT, J. F. de M. Técnicas de síntese de lipossomas aplicados à bacteriocinas. In: SILVA, J. C. da; ALMEIDA, M. A. de; PEREIRA, J. P.; SOUZA, A. C. de (Orgs.). Ciência e tecnologia de alimentos: pesquisas e avanços. 1. ed. São Paulo: Agron Food Academy, 2023. p. 157–172.
GHORBANZADE, T.; JAFARI, S. M.; AKHAVAN, S.; HADAVI, R. Nano-encapsulation of fish oil in nano-liposomes and its application in fortification of yogurt. Food Chemistry, v. 216, p. 146-152, 2017.
HOLYAVKA, M. G.; GONCHAROVA, S. S.; ARTYUKHOV, V. G. Various options for covalent immobilization of cysteine proteases—ficin, papain, bromelain. International Journal of Molecular Sciences, [s. l.], v. 26, n. 2, p. 547, 2025.
KHOSRAVI ZANJANI, M. A.; EHSANI, M. R.; GHIASSI TARZI, B.; SHARIFAN, A. Promoting probiotics survival by microencapsulation with Hylon starch and genipin cross-linked coatings in simulated gastro-intestinal condition and heat treatment. Iranian Journal of Pharmaceutical Research, v. 17, n. 2, p. 753–766, 2018.
KWAK, H.-S.; AL MIJAN, M.; GANESAN, P. Application of nanomaterials, nano-and microencapsulation to milk and dairy products. In: Nano-and Microencapsulation for Foods, v. 1, p. 273–300, 2014.
LI, M.; JIN, Y.; WANG, Y.; MENG, L.; ZHANG, N.; SUN, Y.; HAO, J.; FU, Q.; SUN, Q. Preparation of Bifidobacterium breve encapsulated in low methoxyl pectin beads and its effects on yogurt quality. Journal of Dairy Science, v. 102, n. 6, p. 4832-4843, 2019. DOI: http://dx.doi.org/10.3168/jds.2018-15597.
LIVNEY, Y. D. Milk proteins as vehicles for bioactives. Current Opinion in Colloid & Interface Science, v. 15, n. 1–2, p. 73–83, 2010.
MAGHRABY, Y. R.; EL-SHABASY, R. M.; IBRAHIM, A. H.; EL-SAID AZZAZY, H. M. Enzyme immobilization technologies and industrial applications. ACS Omega, v. 8, n. 6, p. 5184–5196, 2023.
MITROPOULOU, G.; NEDOVIC, V.; GOYAL, A.; KOURKOUTAS, Y. Immobilization technologies in probiotic food production. Journal of Nutrition and Metabolism, [s. l.], v. 2013, Article ID 716861, 15 p., 2013.
MOHITE, D.; WAGHMARE, R. B. Encapsulation techniques for delivery of bioactive compounds in milk and dairy products: a review. Journal of Dairy Research and Technology, v. 3, p. 017, 2020.
PANGHAL, A; CHHIKARA, N; ANSHID, V.; CHARAN, M. V. S.; SURENDRAN, V.; MALIK, A.; DHULL, S. B. Nanoemulsions: a promising tool for dairy sector. In: PRASAD, R.; et al. (eds.). Nanobiotechnology in bioformulations. Nanotechnology in the Life Sciences Springer, Cham. p. 89-120. 2019.
QUEIRÓS, M. de S.; VIRIATO, R. L. S.; VEGA, D. A.; RIBEIRO, A. P. B.; GIGANTE, M. L. Milk fat nanoemulsions stabilized by dairy proteins. Journal of Food Science and Technology, v. 57, n. 9, p. 3295–3304, set. 2020.
RASTI, B.; ERFANIAN, A.; SELAMAT, J. Novel nanoliposomal encapsulated omega-3 fatty acids and their applications in food. Food Chemistry, v. 230, p. 690-696, 2017.
REZVANKHAH, A.; EMAM-DJOMEH, Z.; ASKARI, G. Encapsulation and delivery of bioactive compounds using spray and freeze-drying techniques: a review. Drying Technology, v. 38, n. 1–2, p. 235–258, 2020.
RIBEIRO, A. M.; ESTEVINHO, B. N.; ROCHA, F. Microencapsulation of polyphenols – The specific case of the microencapsulation of plant extracts with phenolic compounds for their application in food industry. Trends in Food Science & Technology, v. 98, p. 1–15, 2020.
SANTANA, M. S. de; LIMA MACHADO, E. C.; STAMFORD, T. C. M. Relevância do uso de proteínas na encapsulação de compostos bioativos. Editora Científica Digital, 2022.
SHAMIL, A.; NAUTIYAL, A.; OMAR, I. Microencapsulated bioactive compounds for fortification of dairy products: a review. The Pharma Innovation Journal, v. 12, n. 4, p. 1855–1865, 2023.
SILVA, J. A. B. Microencapsulação de Lactobacillus acidophilus por spray drying. Universidade Tecnológica Federal do Paraná, 2018.
SOUZA, H. F. d.; SANTOS, F. R. d.; CUNHA, J. S.; PACHECO, F. C.; PACHECO, A. F. C.; SOUTELINO, M. E. M.; MARTINS, C. C. N.; ANDRESSA, I.; ROCHA, R. d. S.; CRUZ, A. G. d.; PAIVA, P. H. C.; BRANDI, I. V.; KAMIMURA, E. S. Microencapsulation to Harness the Antimicrobial Potential of Essential Oils and Their Applicability in Dairy Products: A Comprehensive Review of the Literature. Foods, v. 13, n. 14, p. 2197, 2024.
SUN, X.; WANG, H.; LI, S.; SONG, C.; ZHANG, S.; REN, J.; UDENIGWE, C. C. Maillard-type protein–polysaccharide conjugates and electrostatic protein–polysaccharide complexes as delivery vehicles for food bioactive ingredients: formation, types, and applications. Gels, [s. l.], v. 8, n. 2, p. 135, 2022.
VÉLEZ, M. A.; PEROTTI, M. C.; SANTIAGO, L.; GENNARO, A. M.; HYNES, E. Bioactive compounds delivery using nanotechnology: Design and applications in dairy food. In: NUTRIENT DELIVERY. Elsevier, 2017. p. 221–250.
WEI, Z.; HUANG, J. Assembly of protein–polysaccharide complexes for delivery of bioactive ingredients: A perspective paper. Journal of Agricultural and Food Chemistry, v. 67, n. 5, p. 1344–1352, 2019.
WEI, Z.; HUANG, J.; WEI, T. Recent advances in polysaccharide-protein complex coacervates for bioactive compound encapsulation. Food Hydrocolloids, v. 123, p. 107118, 2024.
XIE, J.; ZHANG, Y.; SIMPSON, B. Food enzymes immobilization: novel carriers, techniques and applications. Current Opinion in Food Science, v. 43, p. 27–35, 2022.
YUSHKOVA, E. D.; NAZAROVA, E. A.; MATYUHINA, A. V.; NOSKOVA, A. O.; SHAVRONSKAYA, D. O.; VINOGRADOV, V. V.; SKVORTSOVA, N. N.; KRIVOSHAPKINA, E. F. Application of immobilized enzymes in food industry. Journal of Agricultural and Food Chemistry, v. 67, p. 11553–11567, 2019.
ZABOT, G. L.; SCHAEFER RODRIGUES, F.; POLANO ODY, L.; VINÍCIUS TRES, M.; HERRERA, E.; PALACIN, H.; CÓRDOVA-RAMOS, J. S.; BEST, I.; OLIVERA-MONTENEGRO, L. Encapsulation of bioactive compounds for food and agricultural applications. Polymers, v. 14, n. 4194, 2022.