O modelo dinamarquês de produção leiteira: estrutura, eficiência e organização do sistema

O país ocupa uma posição de destaque no mercado global de lácteos. Em 2025, a produção totalizou aproximadamente 6,3 milhões de toneladas de leite corrigido para sólidos. Desse total, cerca de 5,3 milhões de toneladas foram destinadas à exportação, refletindo uma trajetória consistente de crescimento nos últimos anos.

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A Dinamarca, com cerca de 6 milhões de habitantes e 43 mil km², destaca-se na produção de leite, totalizando 6,3 milhões de toneladas em 2025, com 5,3 milhões destinadas à exportação. O país possui 2.060 fazendas, com 547 mil vacas, e um crescente tamanho médio de rebanho. O sistema produtivo é baseado em confinamento e dietas totais misturadas (TMR), com forte uso de tecnologia e melhoramento genético, garantindo alta eficiência e qualidade do leite.
A Dinamarca é um pequeno país no norte da Europa, com aproximadamente 6 milhões de habitantes. Conectada ao continente europeu pela Alemanha e composta por diversas ilhas, possui uma área total de cerca de 43 mil km² — praticamente o mesmo tamanho do estado do Rio de Janeiro. Pequena em tamanho e população, mas com uma produção de leite de gente grande — altamente eficiente e voltada para a exportação.

O país ocupa uma posição de destaque no mercado global de lácteos. Em 2025, a produção totalizou aproximadamente 6,3 milhões de toneladas de leite corrigido para sólidos. Desse total, cerca de 5,3 milhões de toneladas foram destinadas à exportação, refletindo uma trajetória consistente de crescimento nos últimos anos.

Esse desempenho é resultado de um modelo produtivo altamente estruturado, baseado em eficiência, gestão e forte integração entre os diferentes elos da cadeia. Neste primeiro artigo, vamos explorar a estrutura das fazendas e uma visão geral do sistema produtivo.

Raio-X da produção leiteira na Dinamarca

  • Produção total: 6,3 milhões de toneladas de leite corrigido

  • Número de vacas leiteiras: 547 mil

  • Número de fazendas: 2.060

  • Tamanho médio das fazendas: 266 vacas/fazenda

  • Produção média por vaca: 11,7 toneladas/ano

Estrutura do setor

A produção leiteira na Dinamarca vem passando por um intenso processo de consolidação ao longo das últimas décadas. Entre 2015 e 2025, o tamanho médio das fazendas aumentou de 166 para 266 vacas por propriedade, refletindo a saída de produtores menores e a expansão das propriedades mais competitivas.

Atualmente, a Dinamarca apresenta o maior tamanho médio de rebanho (266 vacas) entre os principais países produtores de leite da Europa — uma região tradicionalmente caracterizada por propriedades menores. Para efeito de comparação, a média de vacas por fazenda é de aproximadamente 114 na Holanda, 76 na Alemanha, 73 na França e 62 na Itália. A expectativa é de continuidade desse movimento: projeções indicam que o tamanho médio das fazendas pode alcançar cerca de 380 vacas nos próximos anos, e fazendas com menos de 100 vacas praticamente desaparecerão. 

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Apesar da crescente escala, muitas fazendas ainda mantêm um perfil familiar, porém com elevado nível de profissionalização e uso de mão de obra externa (frequentemente trabalhadores estrangeiros). Um dos principais fatores que viabilizam estruturas enxutas de trabalho é o elevado nível de adoção de tecnologia. A ordenha automatizada é amplamente difundida, estando presente em aproximadamente 30% a 40% das fazendas. Nas demais propriedades, predominam sistemas como espinha de peixe e ordenha rotatória.
                                       Figura 1
Além disso, é comum o uso de sensores para monitoramento de atividade, ruminação e saúde animal, assim como softwares de gestão que integram dados produtivos, reprodutivos e nutricionais. O uso de dados é intensivo e parte central da tomada de decisão nas fazendas.

O Dairy Management System (DMS) é uma plataforma dinamarquesa que reúne dados produtivos, reprodutivos e sanitários em nível individual de animal, permitindo acompanhamento contínuo e detalhado do desempenho do rebanho. Atualmente, cerca de 90% das propriedades na Dinamarca utilizam esse sistema. Na alimentação, também se observa um alto nível de automação, com sistemas para mistura e distribuição de dietas, além de equipamentos automatizados para empurrar o alimento no cocho, garantindo maior consistência no consumo.

Quando integradas, essas tecnologias permitem maior agilidade no dia a dia e assertividade na tomada de decisão, resultando em ganhos expressivos de eficiência — seja alimentar, reprodutiva ou produtiva — além da redução de perdas de tempo e recursos.

Sistema produtivo

Sistema de alojamento

O sistema produtivo dinamarquês é predominantemente baseado em confinamento, com uso de instalações do tipo free-stall, e o uso de pastagens é limitado. Esse modelo permite maior controle sobre alimentação, saúde e produção, contribuindo para a consistência do sistema.

Sistema nutricional

A produção de leite na Dinamarca é baseada predominantemente em sistemas de dieta total misturada (TMR). Esse modelo permite alto controle da ingestão e maior consistência no fornecimento de nutrientes, sendo um dos pilares da eficiência produtiva do país.

produção de leite na Dinamarca

A base das dietas é composta principalmente por silagem de milho e silagem de capim, que frequentemente representam entre 50% e 70% da matéria seca total. Esses volumosos são, em sua maioria, produzidos nas próprias fazendas, com forte foco na qualidade da silagem, especialmente em termos de digestibilidade e conservação.

A suplementação é realizada com concentrados, com destaque para fontes proteicas como soja e canola (rapeseed), amplamente utilizadas no sistema dinamarquês. Além disso, cereais como trigo e cevada e subprodutos como polpa de beterraba também são frequentemente incluídos nas dietas, contribuindo para o ajuste energético e econômico da alimentação.

Um dos principais diferenciais do sistema dinamarquês é o elevado nível de precisão na formulação das dietas. Grande parte das fazendas utiliza o sistema nórdico NorFor, que baseia a formulação não apenas em valores brutos de energia e proteína, mas em parâmetros como digestibilidade real, cinética ruminal e eficiência de utilização dos nutrientes. Esse nível de precisão permite maximizar a eficiência por quilo de matéria seca ingerida, contribuindo para altos níveis de produção, melhor aproveitamento dos alimentos e redução de perdas no sistema.

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Um aspecto interessante do sistema dinamarquês é que, em comparação com outros países europeus, as dietas tendem a ser relativamente mais simples, com um número mais limitado de ingredientes. Em muitas fazendas, a alimentação é baseada em poucos componentes principais, o que reforça a importância da qualidade dos volumosos e do manejo alimentar. É o famoso “básico bem feito” que dá resultado. 

Melhoramento genético

A produção leiteira dinamarquesa também se destaca pelo uso intensivo de melhoramento genético. A principal raça utilizada é a Holandesa, reconhecida pelo alto potencial produtivo e adaptação a sistemas intensivos. Em menor escala também encontramos animais das raças Jersey e Danish Red

produção de leite na Dinamarca

O melhoramento é altamente estruturado, com forte uso de avaliação genômica e índices econômicos como o Nordic Total Merit (NTM), que considera produção, fertilidade, saúde e longevidade. Esse enfoque permite ganhos consistentes de produtividade ao longo do tempo.

Saúde animal e qualidade do leite

A saúde animal na produção leiteira dinamarquesa é gerida de forma estruturada e baseada em dados, com integração direta a sistemas como o DMS mencionado anteriormente. Informações da ordenha, sensores e registros veterinários são consolidadas por animal, permitindo monitoramento contínuo e identificação precoce de desvios. Assim, a gestão deixa de ser reativa e passa a ser majoritariamente preventiva, apoiada por indicadores técnicos e benchmarking entre fazendas.

Os dados de qualidade do leite refletem o elevado nível de controle da saúde da glândula mamária no país. Em 2024, a contagem de células somáticas (CCS) apresentou média geométrica de 175.300 células/mL, com 64% dos animais abaixo de 200.000 células/mL, 29% entre 200.000 e 300.000 e apenas 7% acima de 300.000.  Além disso, os teores médios de sólidos — aproximadamente 3,67% de proteína e 4,42% de gordura — reforçam a consistência produtiva e a qualidade da matéria-prima, refletindo a integração entre nutrição, manejo e saúde do rebanho.

Considerações finais 

Com esse panorama, fica claro que a Dinamarca é um exemplo de que o básico bem feito funciona — e muito bem. O uso consistente de dados, aliado à nutrição de precisão, ao foco em saúde animal e ao melhoramento genético contínuo, resulta em um sistema altamente produtivo. Os produtores são guiados pela ciência e pela excelência na execução, sem depender de soluções complexas ou de “produtos milagrosos”.

No entanto, a estrutura produtiva, por si só, não explica totalmente a eficiência desse modelo. No próximo artigo, vamos explorar outros elementos que sustentam o sistema dinamarquês, como a estrutura da cadeia, a relevância do cooperativismo e o papel da extensão rural. Fique de olho!

Referências bibliográficas 

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Material escrito por:

Maria de Meireles Reis

Maria de Meireles Reis

Médica veterinária pela Unesp Botucatu, mestre pela Oregon State e MBA em Marketing FEA-RP. Atua em marketing de saúde e nutrição animal, residindo na Dinamarca

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