O país ocupa uma posição de destaque no mercado global de lácteos. Em 2025, a produção totalizou aproximadamente 6,3 milhões de toneladas de leite corrigido para sólidos. Desse total, cerca de 5,3 milhões de toneladas foram destinadas à exportação, refletindo uma trajetória consistente de crescimento nos últimos anos.
Esse desempenho é resultado de um modelo produtivo altamente estruturado, baseado em eficiência, gestão e forte integração entre os diferentes elos da cadeia. Neste primeiro artigo, vamos explorar a estrutura das fazendas e uma visão geral do sistema produtivo.
Raio-X da produção leiteira na Dinamarca
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Produção total: 6,3 milhões de toneladas de leite corrigido
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Número de vacas leiteiras: 547 mil
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Número de fazendas: 2.060
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Tamanho médio das fazendas: 266 vacas/fazenda
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Produção média por vaca: 11,7 toneladas/ano
Estrutura do setor
A produção leiteira na Dinamarca vem passando por um intenso processo de consolidação ao longo das últimas décadas. Entre 2015 e 2025, o tamanho médio das fazendas aumentou de 166 para 266 vacas por propriedade, refletindo a saída de produtores menores e a expansão das propriedades mais competitivas.
Atualmente, a Dinamarca apresenta o maior tamanho médio de rebanho (266 vacas) entre os principais países produtores de leite da Europa — uma região tradicionalmente caracterizada por propriedades menores. Para efeito de comparação, a média de vacas por fazenda é de aproximadamente 114 na Holanda, 76 na Alemanha, 73 na França e 62 na Itália. A expectativa é de continuidade desse movimento: projeções indicam que o tamanho médio das fazendas pode alcançar cerca de 380 vacas nos próximos anos, e fazendas com menos de 100 vacas praticamente desaparecerão.
Apesar da crescente escala, muitas fazendas ainda mantêm um perfil familiar, porém com elevado nível de profissionalização e uso de mão de obra externa (frequentemente trabalhadores estrangeiros). Um dos principais fatores que viabilizam estruturas enxutas de trabalho é o elevado nível de adoção de tecnologia. A ordenha automatizada é amplamente difundida, estando presente em aproximadamente 30% a 40% das fazendas. Nas demais propriedades, predominam sistemas como espinha de peixe e ordenha rotatória.
Além disso, é comum o uso de sensores para monitoramento de atividade, ruminação e saúde animal, assim como softwares de gestão que integram dados produtivos, reprodutivos e nutricionais. O uso de dados é intensivo e parte central da tomada de decisão nas fazendas.
O Dairy Management System (DMS) é uma plataforma dinamarquesa que reúne dados produtivos, reprodutivos e sanitários em nível individual de animal, permitindo acompanhamento contínuo e detalhado do desempenho do rebanho. Atualmente, cerca de 90% das propriedades na Dinamarca utilizam esse sistema. Na alimentação, também se observa um alto nível de automação, com sistemas para mistura e distribuição de dietas, além de equipamentos automatizados para empurrar o alimento no cocho, garantindo maior consistência no consumo.
Quando integradas, essas tecnologias permitem maior agilidade no dia a dia e assertividade na tomada de decisão, resultando em ganhos expressivos de eficiência — seja alimentar, reprodutiva ou produtiva — além da redução de perdas de tempo e recursos.
Sistema produtivo
Sistema de alojamento
O sistema produtivo dinamarquês é predominantemente baseado em confinamento, com uso de instalações do tipo free-stall, e o uso de pastagens é limitado. Esse modelo permite maior controle sobre alimentação, saúde e produção, contribuindo para a consistência do sistema.
Sistema nutricional
A produção de leite na Dinamarca é baseada predominantemente em sistemas de dieta total misturada (TMR). Esse modelo permite alto controle da ingestão e maior consistência no fornecimento de nutrientes, sendo um dos pilares da eficiência produtiva do país.
A base das dietas é composta principalmente por silagem de milho e silagem de capim, que frequentemente representam entre 50% e 70% da matéria seca total. Esses volumosos são, em sua maioria, produzidos nas próprias fazendas, com forte foco na qualidade da silagem, especialmente em termos de digestibilidade e conservação.
A suplementação é realizada com concentrados, com destaque para fontes proteicas como soja e canola (rapeseed), amplamente utilizadas no sistema dinamarquês. Além disso, cereais como trigo e cevada e subprodutos como polpa de beterraba também são frequentemente incluídos nas dietas, contribuindo para o ajuste energético e econômico da alimentação.
Um dos principais diferenciais do sistema dinamarquês é o elevado nível de precisão na formulação das dietas. Grande parte das fazendas utiliza o sistema nórdico NorFor, que baseia a formulação não apenas em valores brutos de energia e proteína, mas em parâmetros como digestibilidade real, cinética ruminal e eficiência de utilização dos nutrientes. Esse nível de precisão permite maximizar a eficiência por quilo de matéria seca ingerida, contribuindo para altos níveis de produção, melhor aproveitamento dos alimentos e redução de perdas no sistema.
Um aspecto interessante do sistema dinamarquês é que, em comparação com outros países europeus, as dietas tendem a ser relativamente mais simples, com um número mais limitado de ingredientes. Em muitas fazendas, a alimentação é baseada em poucos componentes principais, o que reforça a importância da qualidade dos volumosos e do manejo alimentar. É o famoso “básico bem feito” que dá resultado.
Melhoramento genético
A produção leiteira dinamarquesa também se destaca pelo uso intensivo de melhoramento genético. A principal raça utilizada é a Holandesa, reconhecida pelo alto potencial produtivo e adaptação a sistemas intensivos. Em menor escala também encontramos animais das raças Jersey e Danish Red.
O melhoramento é altamente estruturado, com forte uso de avaliação genômica e índices econômicos como o Nordic Total Merit (NTM), que considera produção, fertilidade, saúde e longevidade. Esse enfoque permite ganhos consistentes de produtividade ao longo do tempo.
Saúde animal e qualidade do leite
A saúde animal na produção leiteira dinamarquesa é gerida de forma estruturada e baseada em dados, com integração direta a sistemas como o DMS mencionado anteriormente. Informações da ordenha, sensores e registros veterinários são consolidadas por animal, permitindo monitoramento contínuo e identificação precoce de desvios. Assim, a gestão deixa de ser reativa e passa a ser majoritariamente preventiva, apoiada por indicadores técnicos e benchmarking entre fazendas.
Os dados de qualidade do leite refletem o elevado nível de controle da saúde da glândula mamária no país. Em 2024, a contagem de células somáticas (CCS) apresentou média geométrica de 175.300 células/mL, com 64% dos animais abaixo de 200.000 células/mL, 29% entre 200.000 e 300.000 e apenas 7% acima de 300.000. Além disso, os teores médios de sólidos — aproximadamente 3,67% de proteína e 4,42% de gordura — reforçam a consistência produtiva e a qualidade da matéria-prima, refletindo a integração entre nutrição, manejo e saúde do rebanho.
Considerações finais
Com esse panorama, fica claro que a Dinamarca é um exemplo de que o básico bem feito funciona — e muito bem. O uso consistente de dados, aliado à nutrição de precisão, ao foco em saúde animal e ao melhoramento genético contínuo, resulta em um sistema altamente produtivo. Os produtores são guiados pela ciência e pela excelência na execução, sem depender de soluções complexas ou de “produtos milagrosos”.
No entanto, a estrutura produtiva, por si só, não explica totalmente a eficiência desse modelo. No próximo artigo, vamos explorar outros elementos que sustentam o sistema dinamarquês, como a estrutura da cadeia, a relevância do cooperativismo e o papel da extensão rural. Fique de olho!
Referências bibliográficas
- IFCN Dairy Platform
- Statistics 2024, Danish Dairy Board. mejeristatistik-2024.pdf
- SEGES Innovation. SEGES Innovation
- Tal om kvaeg, Landbrugsinfo, SEGES Tal-om-kvaeg