A resposta mais comum da indústria, quando o assunto é sustentabilidade, costuma seguir um roteiro conhecido: um novo selo, uma certificação adicional e mais uma lista de exigências para quem está na ponta produtiva. A Arla foi por um caminho diferente. Em vez de começar cobrando, a cooperativa começou perguntando: como tornar a mudança financeiramente interessante para o produtor de leite?
Antes de estruturar qualquer programa de incentivo, a Arla precisou entender com profundidade o que acontecia dentro de cada fazenda. Foi assim que surgiu o FarmAhead™ Check, uma ferramenta que coleta mais de 200 pontos de dados por propriedade. Alimentação do rebanho, manejo de dejetos, consumo e origem de energia, uso de fertilizantes, práticas de solo, tudo entra no sistema.
Cada dado é verificado por um consultor climático independente e integra um dos maiores bancos de dados climáticos de fazendas do setor, cobrindo a grande maioria do volume de leite entregue à cooperativa. O objetivo não é gerar relatórios para arquivo. É construir um diagnóstico real de onde cada fazenda está e, mais importante, onde ela pode evoluir.
Os “big 5” e o foco no que realmente importa
Com base nos dados, a Arla identificou os cinco fatores que mais influenciam a pegada de carbono das propriedades, os chamados “big 5”:
- eficiência alimentar;
- eficiência proteica;
- saúde e longevidade do rebanho;
- manejo de fertilizantes e;
- uso do solo.
Em vez de dispersar esforços, o modelo concentra energia onde o impacto é maior. E conecta isso diretamente à remuneração.
A partir desse mapeamento, a cooperativa estruturou um sistema de pontos onde cada ação sustentável adotada pelo produtor, seja na dieta do rebanho, no uso de energia renovável ou na proteção da biodiversidade, se converte em valor adicional por quilo de leite entregue. Até 500 milhões de euros por ano estão destinados ao programa de incentivos climáticos da cooperativa, remunerando essas atividades.
O que isso tem a ver com o Brasil?
Tudo. O setor lácteo brasileiro enfrenta, ou enfrentará em breve, as mesmas perguntas:
- Como engajar um produtor pulverizado numa agenda de transformação?
- Quem financia esse processo?
- Como criar incentivos que funcionem de verdade, sem travar a operação de quem está no campo?
- Como transformar sustentabilidade em ganho concreto, e não apenas em custo?
O modelo não é transplantável diretamente, mas os princípios são. E entender como uma grande cooperativa conseguiu estruturar isso em escala oferece um ponto de partida consistente para qualquer cadeia que queira evoluir.
No Milk Pro Summit, dias 28 e 29 de maio, Tatiani Bula Sundgaard, da Arla Foods, vai apresentar a palestra "Tecnologias, programas de incentivo e parcerias para promover a transformação dos produtores de leite".
Uma conversa sobre o incentivo ao produtor, as fazendas de inovação e como a Arla trabalhou nessa jornada de transformação. Serão dois dias de conteúdo de alto nível, com palestrantes nacionais e internacionais, que vão tratar de temas que já estão impactando a produção hoje — e que, em breve, vão separar quem se antecipa de quem ficará para trás.