O fim do sistema de cotas, que por anos regulou a produção de leite no bloco, levou a um crescimento acelerado da oferta. “Desde o fim do sistema de cotas, todos os freios foram removidos e a produção aumentou rapidamente, especialmente no noroeste da Europa”, afirma Booijink. Segundo ele, 11 anos após o encerramento das cotas, esse crescimento começa a se estabilizar. Para os próximos cinco a dez anos, a expectativa é de um leve declínio na oferta de leite no noroeste europeu.
Esse movimento pode gerar desafios para a indústria. Após o fim das cotas em 2015, muitos processadores investiram fortemente na ampliação da capacidade, prevendo aumento contínuo da oferta — o que de fato ocorreu entre 2015 e 2020. Com a estabilização atual e a perspectiva de queda gradual, Booijink avalia que parte dessa capacidade poderá ficar ociosa.
Entre os fatores que sustentam a expectativa de declínio estrutural do volume de leite está o ambiente regulatório da União Europeia. De acordo com Booijink, normas ambientais relacionadas a nitrogênio, fosfato e emissões de carbono tendem a limitar a expansão da produção. Regras mais rígidas sobre descarte e produção de esterco, além da necessidade de licenças, também elevam os custos e restringem o crescimento.
Outro ponto relevante é o perfil demográfico do setor. “Uma base de produtores envelhecida é outro fator importante”, destaca Booijink. Ele observa que o despovoamento em algumas regiões europeias agrava o cenário. “Na Europa Oriental, há falta de mão de obra e muita migração para as partes ocidentais da União Europeia. Por exemplo, a Bulgária perdeu 20% de sua população desde 2000, e isso afeta a disponibilidade de mão de obra e a viabilidade do setor leiteiro nessas regiões”, afirma.
Segundo Booijink, a maior contração da oferta deve ocorrer nos países com regulamentações mais rígidas — justamente aqueles que mais cresceram após o fim das cotas. Holanda, Bélgica, Alemanha e Dinamarca respondem juntas por cerca de 35% a 40% da produção total de leite da Europa. No caso da França, a expectativa também é de queda, atribuída principalmente ao envelhecimento dos produtores.
A redução do volume de leite tende a impactar diretamente os processadores, que precisarão ajustar sua estratégia junto aos fornecedores. Booijink aponta duas medidas centrais para manter a competitividade: fortalecer o relacionamento com os produtores, oferecendo preços competitivos, e gerir os ativos com eficiência diante da menor oferta, assegurando níveis adequados de utilização das plantas industriais. “A taxa de utilização é fundamental para o custo de produção de queijo, por exemplo”, ressalta.
No mercado global, a projeção é de retração. Booijink estima que a oferta mundial de leite pode cair 5% nos próximos dez anos. “Pode não parecer muito, mas uma grande parte dos produtos lácteos europeus é exportada e, com a demanda estável e a oferta diminuindo, haverá menos excedente disponível para os mercados de exportação — portanto, com a queda de 5% na oferta de leite, isso significará que a União Europeia terá aproximadamente 40% menos equivalentes de leite disponíveis para exportação para o resto do mundo — uma lacuna da qual outras regiões podem se beneficiar”, afirma.
Para Harvey, trata-se de um cenário de longo prazo, sujeito a mudanças ao longo do tempo. “Este é um cenário de longo prazo, e muita coisa pode mudar ao longo do caminho, mas acredito que a realidade é uma contração sustentada no declínio estrutural do volume de leite na Europa. Isso criará outras oportunidades para outros exportadores, um efeito de transbordamento potencial no mercado de commodities, porque é uma lacuna significativa que precisará ser preenchida”, disse.
As informações são do Dairy Global, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.