A vaca leiteira de hoje é menos fértil do que antigamente?

Alguns dizem que a vaca leiteira moderna é menos fértil do que 20, 30 e 40 anos atrás. Mas estudos mostram que essa afirmação está, em parte, errada. Saiba mais

Publicado em: - 5 minutos de leitura

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A vaca leiteira moderna é menos fértil do que 20, 30 e 40 anos atrás? Alguns diriam, sim.

No entanto, especialistas em reprodução como o Dr. Richard Pursley, da Universidade do Estado de Michigan, Dr. Paul Fricke e Dr. Milo Wiltbank, Universidade de Wisconsin - Madison, realizaram uma pesquisa mostrando que a fertilidade não foi perdida, mas sim o sistema de produção de leite moderno com demandas por alta produção de leite coloca a vaca moderna em desvantagem reprodutiva.

A recuperação da taxa de fertilidade nas fazendas é alcançável quando um conjunto de relações complexas entre a produção de leite, metabolização hormonal e momento da inseminação estão bem sintonizados. Na verdade, de acordo com Dr. Pursley, aumentar as taxas de concepção no primeiro serviço em 20 pontos percentuais pode aumentar $65.000,00 dólares os lucros por ano de uma fazenda de 500 vacas.

A ciência da reprodução que está em constante evolução, continuamente novas informações são descobertas, o que requer uma mudança de mentalidade e um plano de ataque na fazenda. Neste caso, os pesquisadores estimulam os produtores a repensar três conceitos para ajudar o rebanho a entrar num ciclo de alta fertilidade (Como o início da gestação no momento adequado em uma lactação pode resultar em menos problemas?).

Os quais são:

 

1. Manutenção de ECC adequado

Fim da lactação e período seco eram tradicionalmente momento para aumento do ECC em preparação para o parto, com o pensamento de que o ECC extra seria aproveitado para a produção de leite nos primeiros 30 a 60 dias da lactação.

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No entanto, pesquisa feita pelo Dr. Jack Britt, e replicada por Dr. Fricke e Dr. Pursley, leva a uma mudança de paradigma de que a manutenção do ECC mais baixo ao longo da lactação e do período seco beneficia a qualidade do embrião, os resultados reprodutivos e a saúde geral das vacas. Vacas que mantiveram ou ganharam ECC após o parto tiveram maiores taxas de concepção, menor perda de gestação e eram mais saudáveis do que as vacas que perderam ECC no pós-parto.

Nos estudos, a taxa de concepção no primeiro serviço foi de 25% para vacas que perderam ECC e 62%para aquelas que mantiveram. A taxa de concepção em todos os serviços foi de 42% para as que perderam e 61% para as que mantiveram. Vacas que mantiveram ECC tiveram 7,1% de perda de gestação, enquanto ambos os grupos de vacas que ganharam e perderam ECC apresentaram 14,3% de perda de gestação.

A incidência de metrite, mastite, cetose e pneumonia foram significativamente menor nas vacas mantiveram ou ganharam ECC. Das vacas que ganharam ECC, 60% apresentaram menos um problema de saúde no pós-parto.

 

2. Combinação de programas de IATF com detecção de cio

Existe o mito de que a inseminação após cio natural leva à maior fertilidade. Na realidade, a vaca leiteira de alta produção metaboliza hormônios rapidamente, e com isso a concentração plasmática dos hormônios fica diminuída, o que altera a capacidade dela ficar gestante e manter a gestação.

De 15 a 20% das vacas ovulam, mas não mostram sinais de cio; outras podem aceitar monta por uma ou duas horas. Estradiol está sendo produzido, mas a concentração plasmática não é suficiente para desencadear no hipotálamo o comportamento de cio.

A introdução de programas de fertilidade, como os protocolos de IATF, trouxeram tecnologia para ajustar as concentrações hormonais da vaca de alta produção para que ela expresse o comportamento de cio e fique gestante.

Vinte anos atrás, a taxa de prenhez média em 21 dias dos rebanhos leiteiros dos EUA estava em 14%. A maioria dos rebanhos mal conseguia atingir a meta de 20% e raramente ultrapassava os 40%. O início dos programas de fertilidade como Double-Ovsynch ou G6G usados para IATF aumentou tanto as taxas de serviço, quanto prenhez/IA. A média da taxa de prenhez em 21 dias atual nos EUA é acima de 20%. Mais de 60% dos rebanhos da raça holandesa com dados registrados no Dairy Records Management Systems, excedem 50% das taxas de concepção, graças à sincronização da ovulação e aos programas de fertilidade.

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Não há dúvida de que programas mais complexos que requerem múltiplos tratamentos ao longo de vários dias pode apresentar questões em relação a mão de obra, custo, gerenciamento do protocolo e documentação extra. Mas existem muitos programas de fertilidade para atender a uma variedade de necessidades e circunstâncias.

Dispositivos de detecção de cio como marcadores de cauda devem ser incluídos como parte de um sistema completo de manejo reprodutivo.

Dr. Fricke aconselha estabelecer e manter uma regra dura sobre o número de vezes que cada vaca do rebanho vai ser inseminada durante a lactação, e depois de atingir esse número a vaca deve parar de receber inseminação e ser marcada para o descarte ao final da lactação.

 

3. Redução do número de partos gemelares

Um segundo mito é que os programas de IATF são culpados por um aumento dos partos gemelares. Mas na verdade a vaca de alta produção, geralmente produzindo de 40 a 45 kg de leite por dia, terá naturalmente uma baixa concentração plasmática de progesterona, assim como uma vaca mais velha.

Devida a baixa concentração de progesterona, um segundo folículo muitas vezes amadurece, resultando em dupla ovulação e fertilização, e consequentemente uma gestação gemelar.

Manipulação hormonal das vacas para aumentar a progesterona durante o desenvolvimento do folículo ovulatório resulta em menor incidência de ovulações duplas. O programa Double Ovsynch presincroniza as vacas para maximizar a concentração de progesterona enquanto o folículo ovulatório cresce, diminuindo as taxas de ovulação dupla e subsequente de gestação gemelar.

Toda fazenda deve se esforçar para conseguir fazer a vaca ficar gestante o mais rápido possível após o período de espera voluntária. Conseguir e manter vacas em um ciclo de alta fertilidade é possível.

Vacas que mantêm ou ganham ECC após o parto têm maior fertilidade do que as vacas que perdem ECC, essa é uma mudança de paradigma vale a pena ser considerada. Um aumento no desempenho reprodutivo e uma redução dos partos gemelares é alcançável usando programas de fertilidade. Gerenciados corretamente, os objetivos do manejo reprodutivo podem ser alcançados e os resultados multiplicados com o tempo.

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Referências

Este texto é parte do artigo: Boost herd fertility with high fertility cycle practices, de Bev Berens para a revista Progressive Dairy, publicado em 08 dezembro de 2020.

Figura 1

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Material escrito por:

Ricarda Maria dos Santos

Ricarda Maria dos Santos

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia. Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

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Ricarda Maria dos Santos
RICARDA MARIA DOS SANTOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 21/06/2021

Obrigada pela participação DIETER ROESE!
Realmente esses conceitos são muito interessantes! Condenamos a vacas, mas na maioria das vezes pecamos no manejo!!!!
A melhor pessoa para responder essa sua duvida eh o técnico que vai definir a dieta das suas vacas!
Boa sorte nas suas novas instalações!!!!
Dieter Roese
DIETER ROESE

SALVADOR DO SUL - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 21/06/2021

Achei interessantíssima a matéria, principalmente sobre a manutenção do ECC e o aumento da taxa de fertilidade. Estamos fazendo instalações novas, free stal com ordenha robotizada, e me foi sugerido colocar um silo extra de ração, que abastece o robô, para vacas em início de lactação com racao exclusiva para elas. O que vc acha Ricarda? Abraço
Qual a sua dúvida hoje?