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Gestação gemelar

POR RICARDA MARIA DOS SANTOS

E JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

JOSÉ LUIZ M.VASCONCELOS E RICARDA MARIA DOS SANTOS

EM 18/07/2019

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Este texto é baseado no artigo: Management of Twinning in Dairy Cows, do Dr. Paul M. Fricke, Department of Dairy Science, University of Wisconsin – Madison.

Incidência de gestação gemelar

Baseado em um estudo epidemiológico de partos gemelares publicado em 1998 (Kinsel et al., 1998), os partos gemelares nos EUA aumentaram ao longo de um período de 10 anos (de 1983 para 1993). Os autores apontaram o aumento da produção de leite durante este período como um dos fatores mais importante associados ao aumento dos partos gemelares (Kinsel et al., 1998). Para determinar se esta tendência de aumento continuou ao longo do tempo, foi feita uma análise observacional de nascimentos gêmeos em vacas Holandesas na região do alto-oeste dos EUA de 1996 a 2004 (Silva del Rio et al., 2007).

Esse conjunto de dados dos registros de parto de vacas Holandesas entre os meses de janeiro de 1996 a setembro de 2004 compreendem:

  • 4.103 rebanhos;
  • 2.304.278 eventos de parto representados por 1.164.233 vacas e 96.069 nascimentos de gêmeos.

Os dados foram extraídos dos arquivos DHIA de Minnesota para avaliar a tendências dos partos gemelares ao longo do tempo.

Em geral, a ocorrência de parto gemelar relatada foi em média de 4,2% e aumentada com paridade (1,2% para nulíparas vs. 5,8% para vacas multíparas) e com o tempo (3,4% em 1996 para 4,8% em 2004). Baseados nesses dados a expectativa é de que a taxa de partos gemelares provavelmente tenha crescido. 

Figura 1. Taxa de parto gemelar em vacas Holandesas nos EUA de 1983 a 2003. Barras abertas: dados adaptados de Kinsel et al. (1998). Barras sólidas: dados adaptados de Silva del Rio et al. (2007).

Tipos de gestação gemelar

A gestação gemelar pode ser classificada em dois tipos: monozigótica e dizigótica. Gêmeos monozigóticos (gêmeos idênticos) resultam da divisão espontânea in vivo do embrião na fase inicial do desenvolvimento. Enquanto os gêmeos dizigóticos (gêmeos fraternos) resultam da fertilização de dois oócitos diferentes, resultantes de uma dupla ovulação.

Em um estudo observacional (Silva del Rio et al., 2006) foi relatado 7,5% de gestação gemelar monozigótica nos casos de gêmeos do mesmo sexo e 4,7% de todos os gêmeos. A gestação gemelar monozigótica ocorre com pouca frequência em fêmeas bovinas e o principal mecanismo da gestação gemelar nas vacas leiteiras é dupla ovulação.

Fisiologia da gestação gemelar

Uma ligação fisiológica pode ser feita entre o aumento da produção de leite, o aumento da taxa de dupla ovulação, gestação gemelar dizigótica e a diminuição dos níveis circulantes de progesterona em vacas leiteiras lactantes (Wiltbank et al., 2000). A concentração de progesterona circulante resulta de um equilíbrio entre produção de progesterona pelo corpo lúteo e catabolismo de progesterona pelo fígado (Wiltbank et Al., 2014). Como a produção de leite está altamente correlacionada (r = 0,88) com o consumo de matéria seca (Harrison et al., 1990), o fluxo sanguíneo hepático aumenta à medida que a produção de leite e a ingestão aumentam.

O metabolismo hepático de progesterona aumenta à medida que o consumo de matéria seca associado à alta produção de leite cresce resultando num mecanismo fisiológico de diminuição das concentrações de progesterona circulante em vacas leiteiras (Sangsritavong et al., 2002). Assim, como a produção de leite aumentou ao longo do tempo em vacas leiteiras, a progesterona circulante diminuiu, resultando num aumento da incidência de dupla ovulação e gestações gemelares dizigóticas.

Concentrações reduzidas de progesterona perto do momento do desvio do folículo dominante pode causar um atraso na redução da concentração do hormônio folículo estimulante (FSH) e aumentar os pulsos do hormônio luteinizante (LH) resultando na seleção de dois ou mais folículos dominantes durante uma onda de crescimento folicular (Wiltbank et al., 2014).

Como o principal mecanismo da ocorrência da gestação gemelar é a dupla ovulação (Silva del Rio et al., 2006), um aumento na dupla taxa de ovulação seria a melhor explicação para o aumento da gestação gemelar em vacas leiteiras ao longo do tempo.

Identificação de vacas com gestações gemelares

O manejo de vacas com gestação gemelar depende da identificação precoce de vacas carregando gêmeos. A adoção da ultrassonografia transretal como ferramenta de manejo reprodutivo aumentou nos últimos 20 anos. As vacas com gestação gemelar podem ser identificadas com precisão usando a ultrassonografia transretal entre 40 a 55 dias após a inseminação (Echternkamp e Gregory, 1991; Davis e Heibel, 1993; Dobson et al., 1993).

Devido aos avanços na resolução de aparelhos de ultrassom e porque a maioria das gestações gemelares em vacas leiteiras é dizigóticos (Silva del Rio et al., 2006), a presença de dois ou mais corpos lúteos nos ovários no momento do diagnóstico de precoce de gestação realizado entre 32 a 39 dias após a inseminação pode ser usada para identificar vacas possíveis portadoras de gêmeos (Fricke, 2002), o que pode, após essa constatação, terem os cornos uterinos completamente examinados para a visualização dos dois conceptos.

Perda de gestação

A perda de gestação é maior em vacas com gestação gemelar, por isso a importância da identificação precoce das vacas com ela. Apesar da dupla ovulação resultar em maior taxa de concepção no primeiro diagnóstico (64% vs. 45%; Fricke e Wiltbank, 1999), a perda de gestação do primeiro diagnóstico até a reconfirmarão é três vezes maior em vacas inicialmente diagnosticadas com gestação gemelar em comparação com as gestações simples, resultando em taxa de sobrevivência de 92% para vacas com gestação simples e 76% para vacas com gêmeos (Silva del Rio et al., 2009).

A posição dos gêmeos no corno uterino também influencia a perda de gestação. A perda de gestação antes dos 90 dias é maior em vacas que apresentam os gêmeos no mesmo corno uterino (35%) comparado com vacas que tem os gêmeos cada um num dos cornos uterinos (8%; Lopez-Gatius and Hunter, 2005). É interessante que essa taxa de perda de gestação para gêmeos bilaterais é menor que a reportada para gestações simples (13%) em vacas Holandesas, dados esses baseados em 14 estudos com diagnóstico ultrassonográfico transretal (Santos et al., 2004).

A distribuição dos gêmeos nos cornos uterinos também influência a distocia e a sobrevivência dos bezerros. Num experimento com vacas geneticamente selecionadas para múltiplas ovulações, gestações bilaterais com gêmeos dizigóticos resultaram em maior sobrevivência e maior peso ao nascer dos bezerros, gestação mais longa e menor incidência de distocia em comparação com gestações dizigóticas unilateral (Echternkamp et al., 2007).

Manipulação hormonal antes da inseminação para reduzir a ovulação dupla.

O uso de protocolos de sincronização para a inseminação de vacas leiteiras aumentou ao longo do tempo (Norman et al., 2009). Os produtores de leite costumam associar o aumento do uso de protocolos de sincronização com aumento da gestação gemelar. Essa associação se deve ao fato de que nos EUA uma estratégia comum para submeter as vacas à primeira a inseminação é usar o protocolo Presynch Ovsynch e combinar a IA após a detecção do estro pós Presynch com a submissão de vacas que não foram detectadas em estro a IATF após o protocolo Ovsynch (Fricke e outros, 2014).

Neste sistema de manejo, as que vacas recebem IATF após o protocolo Ovsynch diferem das vacas inseminadas em estro, pois estas são provavelmente as vacas que produzem mais leite e expressam estro com uma duração mais curta (Lopez et al., 2004) e têm concentração de progesterona mais baixa no início do protocolo de Ovsynch.

Ambos as condições são fatores de risco para a dupla ovulação e gestação gemelar, como discutido anteriormente, o que reforça a associação feita pelos produtores entre IATF e gestação gemelar. Contrariamente à ideia de que os protocolos de sincronização hormonal aumentam a incidência de gestação gemelar, a manipulação hormonal das vacas de modo que a concentração de progesterona fique aumentada durante o desenvolvimento do folículo ovulatório resulta na diminuição da incidência de dupla ovulação (Stevenson et al., 2007; Cerri et al., 2011).

O protocolo duplo Ovsynch (Souza et al., 2008; Herlihy et al., 2012) efetivamente pré-sincroniza vacas para maximizar a concentração de progesterona durante o crescimento do folículo ovulatório (Wiltbank et al., 2014) e deve, assim, diminuir a taxa de dupla ovulação e subsequentemente as gestações gemelares dizigóticas, resultantes de dupla ovulação.

RICARDA MARIA DOS SANTOS

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia.
Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu

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RICARDA MARIA DOS SANTOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 23/09/2019

Prezado ALISSON ASSIS DIAS,
A estresse térmico dificilmente causaria a morte dos feto no final da gestação.
O que pode ter acontecido, foi o estresse da mudança e as vezes ate trauma. Ou bezerros muito grande, ja que eram novilhas. Das próximas vezes mude as vacas de lote mais cedo.
Boa sorte,
Ricarda
RICARDA MARIA DOS SANTOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 22/09/2019

Prezado ALISSON ASSIS DIAS,
Obrigada pela participação?
é bastante difícil responder essa pergunta.
Qual o tipo de vaca voce tem? As gestações eram de IA artificial, existia a preocupação com uso de touro com facilidade de parto? Qual tipo de dieta as vacas estavam recebendo? As vacas estavam muito gordas???
ALISSON ASSIS DIAS

BELO VALE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 23/09/2019

Bom dia, Ricarda.

As vacas são girolandas, estavam gordas mas não em excesso, 2 eram novilhas que estavam parindo aos 2 anos e meio, não era IA, elas estavam a pasto de braquiaria, com um pouco se suplementação mineral.
Pode ter contribuído estresse, talvez pela mudança de pasto que fiz quando notei que elas já estavam em fase final de gestação, ou talvez o calor tenha contribuído para que o bezerro morresse antes do parto e com isso a vaca tenha tido maior dificuldade na hora do parto.

Muito obrigado pela atenção.
ALISSON ASSIS DIAS

BELO VALE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 20/09/2019

Prezados, professores.

Gostaria se possível tirar um dúvida, este mês tive problemas no hora do parto com 3 vacas, elas não conseguiram parir e acabaram morrendo, gostaria de saber se esse problema pode ser ocasionado devido a alimentação, pois estamos em um período de seca em minha região ou até mesmo por excesso de algum mineral na suplementação, as vacas que tiveram problema estavam gordas, portanto não posso dizer que não conseguiram parir por fraqueza.
RICARDA MARIA DOS SANTOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 23/07/2019

Prezado JOSÉ LUCAS BEAL,
Obrigada pela participação!
A dupla ovulação teria relação com maior metabolização de hormônios esteroides (progesterona e estrógeno), o que causaria alteração no momento da seleção do folículo dominante.
RICARDA MARIA DOS SANTOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 23/07/2019

Prezado LUIZ AUGUSTO S. NEVES,
Obrigada pela participação! A gestação gemelar dos bovinos não tem relação com genética.
LUIZ AUGUSTO S. NEVES

SANTA MARIA - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 21/07/2019

É um artigo interessante. Gostaria de saber se isso tem causa genética ou se é apenas fisiológico. Obrigado.
JOSÉ LUCAS BEAL

UBERABA - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 21/07/2019

A dupla ovulação não pode estar associada a metabolização do LH. Assim não ocorrerá o feedback negativo para FSH?
O folículo subordinado também desenvolveria receptores para LH e consequentemente com o pico poderiam ovular os dois folículos.