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Nutrientes de sucedâneo e concentrado: mais leite na primeira lactação

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E GERCINO FERREIRA VIRGINIO JUNIOR

CARLA BITTAR

EM 31/03/2021

12 MIN DE LEITURA

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O NRC de gado de leite (2001) traz recomendações de nutrientes para maximizar a saúde, o crescimento do tecido magro e o crescimento geral de bezerras e novilhas.

Alcançar um rápido crescimento e garantir a saúde de fêmeas de reposição envolve vários fatores, incluindo a colostragem, higiene adequada e, principalmente, o manejo alimentar. Muitas opções de sucedâneos (SUC) e concentrados (CON) diferentes estão disponíveis no mercado, o que pode muitas vezes confundir produtores quanto ao produto que realmente os ajudará a alcançar maior crescimento e eficiência e otimizar a saúde das bezerras.

Entender a relação entre proteína e energia necessária para uma bezerra em crescimento é extremamente importante para atingir o desenvolvimento ideal e alcançar as metas. Lembrando que se busca animais entrando em produção aos 23-24 meses.

Vários estudos já avaliaram a proteína e a energia fornecidas na dieta e sua relação com o crescimento das bezerras. Em um trabalho conduzido na ESALQ, de Paula et al. (2017) observaram que o maior fornecimento de energia total teve efeito positivo sobre o crescimento das bezerras até a 10ª semana de idade.

O trabalho mostrou também que animais em programa alimentar restrito e recebendo sucedâneo com proteína em torno de 22% podem apresentar o mesmo desempenho que animais em aleitamento intensivo. Isso ocorre porque os animais compensam consumindo mais concentrado. Trabalhos de outros grupos mostraram que sucedâneos contendo proteína bruta (PB) acima de 20% são benéficos para bezerras atingirem o crescimento de tecido magro, e que o excesso de gordura pode levar a prejuízos no desenvolvimento, como por exemplo o desenvolvimento mamário.

Pesquisas também mostram que bezerras que consomem maiores quantidades de energia e proteína têm maiores ganhos e também maior eficiência alimentar. Esse maior consumo é essencial para as novilhas atingirem a puberdade mais cedo, mas temos que ficar atentos a quaisquer problemas associados ao excesso de deposição de gordura.

A produção de leite na primeira lactação está positivamente correlacionada com o ganho médio diário (GMD) na fase de aleitamento e o peso ao desaleitamento. Dessa forma, quanto maior o consumo de nutrientes antes do desaleitamento, maior será ingestão de nutrientes pela novilha no pós-desaleitamento.

Para cada 1kg a mais no GMD antes do desaleitamento, os animais podem produzir na sua primeira lactação um adicional de 850 kg de leite (Soberon et al., 2012). Outros trabalhos também mostraram que a dieta das bezerras antes do desaleitamento contribui para um efeito positivo na composição e produção de leite aos 305 dias.

Com base nessas pesquisas anteriores que determinaram a relação entre o GMD e a produção na primeira lactação em vacas Holandesas, pesquisadores americanos levantaram a seguinte hipótese: aumentos na ingestão de energia metabolizável (EM) e proteína durante as primeiras 8 semanas de vida estão associadas ao aumento da produção na primeira lactação.

Assim, Rauba et al. (2020) resolveram determinar as relações entre proteína e energia consumidas do sucedâneo e do concentrado com o desempenho do crescimento e da primeira lactação de animais da raça Holandesa.

Os autores coletaram dados de 4.534 bezerras da raça Holandesa, nascidas nos anos de 2004 a 2014, que haviam participado em 45 estudos. Os dados foram obtidos de 3 fazendas leiteiras comerciais de Minnesota – EUA, que juntas tinham mais de 2.000 vacas. Ao longo dos 11 anos, os animais nascidos foram distribuídos em 45 experimentos diferentes, sendo alojados em baias individuais em galpões com ventilação natural.

Os animais dos 45 estudos foram alimentados com sucedâneo contendo 20% de PB e 20% de gordura. No entanto, a maioria das bezerras (85%) foram alimentados com sucedâneo contendo toda proteína de origem láctea, e para as demais bezerras (15%), o sucedâneo continha proteínas alternativas de origem animal e vegetal substituindo parcialmente a proteína do leite.

A proteína alternativa do sucedâneo continha soja, trigo, plasma ou uma mistura de fontes de trigo e plasma em porcentagens variáveis da proteína total do sucedâneo. Na maior parte dos estudos (90%) foi fornecido 0,57 kg de sucedâneo/bezerra por dia, enquanto que no restante os animais receberam uma taxa de alimentação acelerada. A maioria das bezerras foram desaleitadas às 6 semanas e práticas padrão, como descorna e vacinação, ocorreram durante este tempo.

Com aproximadamente 2 meses de idade, as novilhas foram retiradas do bezerreiro e alojadas em grupo, recebendo o mesmo concentrado (2,72 a 3,2 kg/d) que foram alimentadas antes do desaleitamento por 3 dias, e posteriormente alimentadas com uma mistura de grãos de 16% PB na taxa de 2,27 a 2,73 kg/novilha diariamente.

Feno e água foram oferecidos à vontade. O feno era tipicamente alfafa ou alfafa e mistura de gramíneas. O consumo de feno foi em média de 0,54 a 1 kg / d durante os primeiros 28 d, aumentando para 3,8 kg / d em 112 d. O consumo total variou de <30% para d 1 a 28 a> 200% por 112 d. As novilhas permaneceram nesses piquetes até 6 a 7 meses de idade, posteriormente transferidas para criadores de novilhas por cerca de 15 a 18 meses, e retornaram à sua fazenda leiteira original antes do parto.

Foram obtidos os registros de produção de leite, gordura e proteína da primeira lactação para 3.627 vacas das 4.534 bezerras originais e combinados com o crescimento corporal e dados de consumo de proteína e EM do sucedâneo e do concentrado.

O GMD na 8ª semana foi dividido em seis classes, e as médias para consumo de proteína e EM do SUC, CON e combinados estão na Tabela 1. Houve pequena diferença para proteína do sucedâneo consumida entre as classes de GMD (P<0,05). A maioria das bezerras não consumiu mais do que 0,57 kg de sucedâneo por dia e, portanto, não se esperava variação na proteína consumida através do sucedâneo.

Não houve diferença da proteína consumida do sucedâneo entre as bezerras que tiveram o menor e o maior GMD (classe 0,23-0,34 e 0,80 kg/d). No entanto, as bezerras que tiveram maior GMD em 8 semanas consumiram mais proteína do CON em comparação com bezerras das outras classes de GMD (P<0,05).

Consequentemente, essas bezerras que tiveram o maior GMD também consumiram mais proteína combinada de SUC e CON (P<0,05). Isso indica que o consumo de matéria seca do concentrado durante o aleitamento é um bom indicador de maior GMD após desaleitamento.

Tabela 1- Classes de ganho médio diário às 8 semanas para proteína (kg) e EM (Mcal) do sucedâneo e concentrado1

1Médias seguidas de erro padrão entre parênteses.a – g Médias dentro da mesma linha com sobrescritos diferentes são diferentes (P<0,05).

O consumo de EM do SUC foi maior para as bezerras que tiveram o menor GMD (classe 0,23-0,34 kg/d). Semelhante ao consumo de proteína, os bezerros com maior GMD (>0.80kg/d) consumiram mais EM oriunda do CON e da combinação do CON e SUC.

A Figura 1a e a Figura 1b mostram que há uma forte relação positiva para a proteína ou energia combinada do SUC e CON com GMD às 8 semanas. Geralmente, uma bezerra que consome mais concentrado, consome mais proteína e EM, portanto, a relação entre CMS e consumo de nutrientes é altamente correlacionada.

Figura 1. Relação entre GMD às 8 semanas (kg/d) e o consumo combinada de proteína (a) e EM (b) do sucedâneo do leite e concentrado

Outros estudos encontraram proporções ótimas de proteína e EM que otimizaram o crescimento e diminuíram o risco de deposição de gordura e minimizaram o comprometimento do desenvolvimento mamário.

Bezerras que consomem maiores quantidades de energia e proteína tem maior ganho e maior eficiência alimentar nas primeiras 14 semanas de vida. Assim, a idade a puberdade pode ser reduzida através da manipulação das dietas no período de aleitamento, de forma que a quantidade de energia e proteína consumidas não tragam risco de tornar bezerras e novilhas com alto escore de condição corporal.

O consumo de proteína do SUC, do CON e o consumo combinado às 6ª e 8ª semanas e o efeito na produção de leite primeira lactação (305d), produção de gordura e de proteína estão na Tabela 2. O consumo de proteína do SUC às 6ª e 8ª semanas não teve efeito na produção de leite, gordura e proteína durante a primeira lactação.

Já o consumo de proteína do CON teve relação positiva com a produção de proteína e gordura na primeira lactação (P<0,01). Ou seja, para cada kg adicional de consumo de proteína através do concentrado na 8ª semana houve aumento de 1,31 e 1,32 kg na produção de gordura e proteína na primeira lactação, respectivamente.

O consumo combinado de proteína às 6ª e 8ª semanas teve uma relação positiva com a produção de leite, gordura e proteína aos 305 dias na primeira lactação (P<0,05). Para cada 1 kg a mais no consumo combinado de proteína à 8ª semana de vida, a produção de leite aumentou em 26,04 kg, a gordura aumentou em 1,38 kg e a proteína aumentou em 1,33 kg na primeira lactação, aos 305d (Tabela 2).

A combinação de alta proteína do SUC e CON contribuiu para aumentar a produção na primeira lactação em comparação com a proteína do SUC ou do CON sozinhos.

Tabela 2. Coeficientes de regressão para o consumo de proteína do sucedâneo, do concentrado e o consumo combinado às 6 e 8 semanas para o efeito na produção de leite, gordura e proteína aos 305 dias na primeira lactação (n = 3.627)

 

As diferenças observadas entre a 6ª e a 8ª semana podem ser resultado de práticas de manejo após o desaleitamento ou ajuste das bezerras após o desaleitamento às 6 semanas. Assim, o manejo na fazenda pode ter influência na produção da primeira lactação tão grande quanto aquela em função da nutrição e o crescimento antes do desaleitamento. Saber desaleitar bezerras, principalmente em sistemas de aleitamento intensivo, é essencial para a manutenção das taxas de crescimento.

Alguns autores já concluíram que o peso ao nascer da bezerra e o GMD às 6ª e 8ª semanas tiveram efeitos positivos na produção de leite, gordura e proteína nos 305 dias na primeira lactação 305 dias. Todos estes estudos, no entanto, encontraram grande variação em torno das estimativas de ingestão, crescimento e produção de leite na primeira lactação. No entanto, o consumo de MS do concentrado pelas bezerras na 8ª semana melhora o desempenho da primeira lactação.

O consumo de EM pelo sucedâneo, concentrado e o consumo combinado às 6ª e 8ª semanas e seus efeitos na produção de leite, gordura e proteína na primeira lactação (305d) estão na Tabela 3. A ingestão de EM no sucedâneo não teve efeito na produção de leite, gordura ou proteína na primeira lactação; entretanto, o consumo de EM pelo concentrado teve um efeito positivo (P <0,05) na produção de gordura e proteína na primeira lactação.

O consumo combinado de EM por seis e oito semanas teve uma relação positiva (P<0,05) com a produção de leite, gordura e proteína em 305 dias na primeira lactação. Para cada 1 kg a mais no consumo combinado de EM na 8ª semana de vida, a produção de leite aumentou 1,80 kg, a gordura aumentou 0,09 kg e a proteína aumentou 0,09 kg na primeira lactação (Tabela 3).

Tabela 3. Coeficientes de regressão para o consumo de EM do sucedâneo, do concentrado e o consumo combinado às 6 e 8 semanas para o efeito na produção de leite, gordura e proteína aos 305 dias na primeira lactação (n = 3.627)

Os resultados encontrados foram contrários a outro estudo americano (Soberon et al., 2012), que relatou um maior aumento na produção de leite em relação ao consumo de EM para bezerras em programa de aleitamento intensivo com sucedâneo.

Enquanto no estudo de Rauba et al. (2019) as bezerras foram aleitadas com um sucedâneo de 20% de PB e 20% de gordura em taxa constante e com concentrado a vontade; no trabalho de Soberon et al. (2012), os bezerros foram aleitados de forma intensiva e com sucedâneo com alta proteína. No entanto, ambos os estudos mostraram que o sucedâneo e o concentrado desempenham papel importante no crescimento das bezerras.

O consumo de EM e proteína no sucedâneo e concentrado e seus efeitos na produção na primeira lactação indicam que tanto ambos são componentes importantes na dieta de bezerras antes do desaleitamento.

O consumo total (sucedâneo e concentrado) de proteína e de EM tem relação positiva e significativa na produção de leite e de componentes na primeira lactação. No entanto, a alta variância observada em todas as estimativas, sugere que fatores adicionais podem afetar o crescimento até a 8ª semana de idade.

Além de aspectos nutricionais como volume de dieta líquida fornecida e qualidade teor de proteína no sucedâneo, aspectos como época de nascimento, saúde, alojamento, etc., afetam o GMD e consequentemente a produção de leite futura.

Considerando os efeitos negativos do volume de dieta líquida no consumo de concentrado, deve-se buscar equilíbrio ao planejar um programa de alimentação para bezerras leiteiras. O resultado desta combinação em ganho de peso diário é o que vai ao final determinar o aumento no potencial de produção dos animais.

Infelizmente, as exigências do NRC (2001) estão desatualizadas, mas devemos ter em breve alterações nas recomendações em função do entendimento de como o que as bezerras estão consumindo se relaciona com GMD e crescimento de bezerras e novilhas.

Neste artigo (Rauba et al., 2019) e também nos artigos citados (Soberon et al., 2012; De Paula et al., 2017), fica evidente a importância do desempenho durante o período de aleitamento no desempenho futuro das fêmeas de reposição.

Muita importância foi dada para a dieta líquida, e vários programas alimentares acabaram por reduzir a importância do concentrado. Isso ocorreu especialmente porque como o consumo de dieta sólida é baixo nas primeiras semanas de vida é mais fácil aumentar o ganho através do aumento no volume de leite ou sucedâneo.

No entanto, o consumo de proteína e energia oriundo de ambos os alimentos tem maior efeito no desempenho futuro do que o consumo de um ou outro alimento isoladamente. Os erros no desaleitamento em sistemas com aleitamento intensivo podem colocar em risco todo o investimento com altos volumes de dieta líquida.

Isso porque as bezerras podem perder peso e ter baixo consumo de proteína e energia no período subsequente, devido ao baixo consumo de concentrado.

Assim, além de se preocupar com teores de proteína e energia na dieta líquida e sólida, na qualidade destas dietas, nutricionistas e produtores devem também se atentar ao programa alimentar. Buscar o equilíbrio entre dieta líquida e sólida, além de auxiliar no preparo para o desaleitamento e reduzir custo de produção, pode aumentar a produção de leite futuro dos animais.

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Referências

de Paula, M. R., C. E. Oltramari, J. T. Silva, M. P. C. Gallo, G.B. Mourão, and C. M. M. Bittar. 2017. Intensive liquid feeding of dairy calves with a medium crude protein milk replacer: Effects on performance, rumen, and blood parameters. J. Dairy Sci. 100:4448–4456. https://doi.org/10.3168/jds.2016-10859.

Rauba, J., B. J. Heins, H. Chester-Jones, H. L. Diaz, D. Ziegler, J. Linn, and N. Broadwater.  2019. Relationships between protein and energy consumed from milk replacer and starter and calf growth and first-lactation production of Holstein dairy cows. J. Dairy Sci. 102:301–310. https://doi.org/10.3168/jds.2018-15074

Soberon, F., E. Raffrenato, R. W. Everett, and M. E. Van Amburgh. 2012. Preweaning milk replacer intake and effects on long-term productivity of dairy calves. J. Dairy Sci. 95:783–793. https: //doi.org/10.3168/jds.2011-4391.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

GERCINO FERREIRA VIRGINIO JUNIOR

Doutorando na Esalq

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EDINO VIEIRA

CUIABÁ - MATO GROSSO

EM 09/04/2021

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