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Amochamento e descorna de bezerros leiteiros

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

CARLA BITTAR

EM 29/01/2018

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Atualizado em 29/01/2018

Por Carla Maris Machado Bittar e Mariana Gavanski Coelho*

A retirada do chifre dos bovinos é frequente em todo o mundo e tem por justificativa evitar a ocorrência de lesões e acidentes entre os animais e aos tratadores. Além disso, permitir que maior número de animais tenha acesso ao comedouro, facilidade de manejo e transporte e diminuição da competição e dos comportamentos de dominância.

Essa remoção pode ser realizada através do amochamento ou da descorna. O amochamento consiste na destruição das células queratogênicas que ainda não se fundiram ao crânio e, portanto, é realizado em animais com até dois meses de idade; após essa idade o procedimento é cirúrgico, chamado de descorna que tem por objetivo amputar o corno já formado e fundido (Figura 1).

Figura 1 – Estrutura anatômica do botão queratogênico que dará origem ao corno e corno já formado e fundido ao crânio em bovinos.

Fonte: Adaptado de Cardoso (2014).

Independente da prática, ambas causam um forte estímulo mecânico, químico ou térmico devido à lesão tecidual aplicada de forma aguda e com alta intensidade. Segundo uma pesquisa realizada com veterinários neozelandeses, o amochamento ou descorna, juntamente com a castração, são considerados os procedimentos mais dolorosos e que acarretam maior prejuízo ao desempenho dos bezerros (Laven et al., 2009). E por esse motivo, a mitigação da dor se torna essencial. Assim, sempre que possível, a experiência da dor não deve ser sentida ou deve ser minimizada, o que inclui o uso de fármacos assim como métodos adequados de contenção do animal são contidos a fim de assegurar o bem-estar.

Os animais de produção não são propensos a demonstrar reação a um estímulo doloroso como parte de sua estratégia evolutiva, já que são presas e, portanto é impossível compreender o que estão realmente vivenciando através de sua linguagem (Currah et al., 2009). Por esse motivo, a fim de evitar que o sofrimento passe despercebido é necessário instituir o “principio da analogia”, de que a dor vivenciada por seres humanos seja da mesma forma dolorosa para os animais.

Porém, frequentemente práticas são realizadas sem o apoio de qualquer tipo de analgesia ou anestesia, com base em argumentos econômicos, de falta de mão-de-obra, procedimento doloroso de curta duração ou status subdesenvolvido do sistema neurológico dos animais. Contudo, a implementação de legislações por pressão da sociedade e consumidores com o intuito de assegurar o bem-estar dos animais, tem mudado esse cenário em diversos países.

A intensidade e a duração do estímulo doloroso são de grande importância na determinação do medicamento a ser utilizado no tratamento da dor, assim como seu mecanismo de ação. Apesar do maior número de analgésicos disponíveis para uso veterinário, além do maior interesse e preocupação na mitigação da dor, o quanto disso se converte no controle efetivo da dor ainda é incerto.

Anestesia

A anestesia geral ou sedação apenas é obrigatória no procedimento de descorna cirúrgica e tem por objetivo auxiliar na contenção do bovino, porém não elimina o desconforto induzido pela dor e por isso seu uso deve estar associado a anestesia local. O uso da anestesia local se tornou obrigatória pela Resolução n°877, de 15 de fevereiro de 2008, do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) em ambos procedimentos, e deve ser aplicada próximo ao nervo cornual (Figura 2) para correta sensibilização. A lidocaína (2 ou 5%) é o anestésico local mais utilizado em ruminantes no pré-operatório.

Figura 2- Representação da localização do nervo cornual e sua insensibilização com aplicação de anestesia local.

Fonte: Cardoso (2014); Farmers Weekly (2012).

A mensuração da dor nos animais, geralmente é realizada através da concentração de cortisol plasmático circulante e salivar. E, portanto em trabalhos desenvolvidos para avaliar o efeito da aplicação de anestesia local, e a combinação com anti-inflamatórios (AINES) em procedimentos de amochamento, obtiveram respostas de diminuição da concentração de cortisol durante a ação do anestésico local, entretanto a concentração do hormônio aumentava a medida que o fármaco era dissipado, tornando necessário a associação de AINES (Milligan et al., 2004; Vickers et al, 2005).

Analgesia

Drogas anti-inflamatórias são amplamente utilizadas e imprescindíveis na maioria desse tipo de prática realizadas rotineiramente nos animais, visando aliviar a condição inflamatória, sendo a principal ferramenta no tratamento da dor. Em adição à analgesia, são conhecidos por seus efeitos anti-inflamatórios e antipiréticos.

Estudos têm demonstrado os benefícios da analgesia preemptiva (aplicação pré-operatória que irá auxiliar na dor e desconforto pós-operatório) sendo essa uma das maiores inovações na mitigação da dor em bovinos e ovinos. Os fármacos mais efetivos incluem o flunexin-meglumine, cetoprofeno, fenilbutazona e carprofeno, que é um fármaco específico.

Animais que recebem AINE antes da descorna em associação ao anestésico tendem a demonstrar melhora na frequência dos comportamentos de dor e maior ganho de peso nos dias subsequentes, demonstrando a eficiência desses fármacos no combate à dor pós amochamento, seja por ferro quente ou pasta cáustica.

Práticas de amochamento

O procedimento de amochamento tanto por ferro quente/elétrico ou através de cauterização química (uso de pastas cáusticas) deve ser realizado em animais com idade inferior a dois meses, pois nesse período o botão cornual que dará origem ao chifre ainda está flutuante na pele, o que facilita a prática de remoção e o processo de cicatrização, diminuindo o trauma ao qual o animal é submetido e evitando complicações pós-operatórias como as sinusites.

A cauterização química com uso de pasta cáustica causa dor intensa com elevados níveis de cortisol por até 6 horas, contudo causa dor por menos tempo quando comparado ao uso de ferro quente.

Figura 3- Aplicação de pasta cáustica para amochamento.

Fonte: Ag Animal Health, (2010).

A pasta cáustica deve ser aplicada apenas no botão cornual com prévia tosa dos pelos. O uso de quantidade excessiva pode fazer com que o produto escorra pela pele ocasionando lesões, inclusive nos olhos. Outra forma de prevenir as lesões na pele é criar um circulo de contenção com pomada à base de bálsamo (Figura 3), evitando que a pasta cáustica escorra para área indesejada.

Algumas pesquisas apontam que o amochamento com ferro quente tende a elevar em até cinco vezes a resposta de dor, além de apresentar cicatrização mais lenta e, portanto que demanda maiores cuidados. No entanto, com o uso de anestesia e analgesia adequadas, as concentrações de cortisol tendem a se manter normais.

Para o uso de ferro quente, o pelo também deve ser previamente retirado do local, e quando o ferro estiver candente, deve ser pressionado sobre o botão córneo, evitando utilizar força excessiva. O equipamento deve ser movimentado circularmente, de forma cuidadosa para que a pele não seja queimada, e então o botão será extraído. A queimadura não deve ser aprofundada para que não atinja estruturas do crânio (Figura 4). Após o procedimento pomada cicatrizante e repelente deve ser utilizada para facilitar o processo de cicatrização.

Figura 4- Amochamento por ferro quente.

Fonte: Farmers Weekly (2012).

Conclusão

Independente da descorna ser um procedimento rápido e que soluciona diversos problemas associados ao manejo, a dor provocada pela prática é significativa e causa diversos prejuízos ao desenvolvimento do animal. Práticas para redução da dor, como uso de anestésicos, analgésicos e anti-inflamatórios  devem adotadas a fim de garantir o bem-estar das bezerras e manter o desempenho animal.

Referências

LAVEN, R. A.  et al. Results of a survey of attitudes of dairy veterinarians in New Zealand regarding painful procedures and conditions in cattle. New Zeland Veterinary Journal, Palmerston North, v. 57, p. 215-220, 2009.

CURRAH, J. M.; HENDRICK, S. H.; STOOKEY, J. M. The behavioural assessment and alleviation of pain associated with castration in beef calves treated with flunexin meglumine and caudal lidoicaine epidural anesthesia with epinephrine. The Canadian Veterinary Journal, Ottawa, V.50, p. 375-382, 2009.

MILLIGAN, B. N. et al. The utility of ketoprofen for alleviating pain following dehorning in young dairy calves. . The Canadian Veterinary Journal, Ottawa, V.45, p. 140-143, 2004.

VICKERS, K.J.; NIEL, L.; KIEHLBAUCH, L.M.; WEARY, D.M. Calf response to caustic paste and hot-iron dehorning using sedation with and without local anaesthetic. Journal of Dairy Science, v.88, p.1454-1459, 2005.

CANNOZI, M. E. A. Castração e descorna/amochamento em bovinos de corte: revisão sistemática e meta-análise. Tese de doutorado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015.

* Aluna de mestrado em Ciência Animal e Pastagens, ESALQ/USP

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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ALBERTO JUAN

MÍDIA ESPECIALIZADA/IMPRENSA

EM 29/01/2018

Muy completo y conceptos claros .- Un aporte : en razas de carne no debemos descartar la Genética de animales mochos . Por ser esta una actividad que requiere entrenamiento de parte del que " hace " el descorne , es bueno que Veterinarios se entrenen para estos trabajos . Pasa por bienestar Animal, y por $$$$ dinero : los mansos sin guampa , comen más , mejor y dan más dinero a sus dueños , respetando sus conductas ..
!! ! ! Felicito a la autora por preocuparse por este Tema ! !