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Como a nutrição afeta a proteína do leite - parte 1

POR ALEXANDRE M. PEDROSO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 24/07/2006

7 MIN DE LEITURA

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Em tempos de pagamento por qualidade do leite, é natural que técnicos e produtores .estejam "antenados" para possibilidades de melhorar um pouco a composição do leite. E nesse ponto, o manejo alimentar do rebanho tem um papel importante, pois a nutrição tem influência direta sobre a síntese de sólidos do leite. Ultimamente tenho notado um interesse muito grande sobre a proteína do leite, uma vez que há sistemas de pagamento com bonificação por proteína. Dentro deste contexto, o objetivo deste radar será apresentar os aspectos nutricionais envolvidos com a produção de proteína do leite e discutir algumas estratégias de alimentação para otimizar a síntese desse composto, que a cada dia se torna mais valioso para o produtor.

A nutrição constitui-se na principal ferramenta para que os produtores de leite possam alterar a composição do leite, respondendo por até 50% da variação nos teores de proteína e gordura do leite. As modificações em composição do leite conseguidas com o manejo nutricional são rápidas e efetivas. Por exemplo, a simples alteração da relação volumoso:concentrado na ração pode alterar o teor de gordura do leite em mais de 15%.

Os nutrientes consumidos constituem-se nos precursores, diretos ou indiretos, dos principais componentes sólidos do leite. Os principais substratos extraídos do sangue pela glândula mamária são glicose, aminoácidos, ácidos graxos e minerais. Em ruminantes, acetato e beta;-hidroxibutirato também são substratos importantes. A glicose é o precursor de lactose, ácido cítrico e da maior parte do glicerol que é um dos componentes da gordura do leite. Todos os aminoácidos essenciais e alguns não-essenciais necessários para a síntese de proteína do leite também são oriundos do sangue.

Não há relação simples e direta entre os componentes da dieta e os componentes sintetizados no leite, de forma que ao se aumentar um nutriente em particular na dieta não há necessariamente um aumento correspondente na secreção de um componente similar no leite. Por exemplo, o aumento no teor de proteína da dieta, mantendo-se o nível de energia, tem pouco ou nenhum efeito sobre a proteína do leite.

Da mesma forma, a adição de gordura à dieta de vacas leiteiras geralmente reduz o teor de gordura do leite. Isso se dá pelas complexas transformações que os alimentos ingeridos sofrem no rúmen, pela influência dos hormônios, e pelas restrições fisiológicas e bioquímicas resultantes da forma como os sólidos do leite são sintetizados na glândula mamária.

Mudanças no teor de proteína do leite são possíveis pela manipulação da nutrição, mas numa magnitude bem inferior às alterações possíveis no teor de gordura, por uma série de razões. Em primeiro lugar porque a variação natural possível é bem menor, e também porque os fatores dietéticos que influenciam essa variável não são completamente conhecidos.

Além disso, o interesse da indústria pela manipulação da proteína do leite é mais recente, de forma que a literatura não é tão extensa nesse tópico, como em relação ao teor de gordura do leite. Os fatores básicos que afetam a síntese de proteína do leite também não são tão conhecidos como os relativos à síntese de gordura.

A quantidade de proteínas sintetizadas na glândula mamária é determinada pela quantidade de aminoácidos absorvidos no intestino delgado (ID). Quanto mais aminoácidos forem absorvidos, mais substrato haverá para a síntese de caseína, e proteínas do soro do leite. Esses aminoácidos originam-se da proteína microbiana produzida no rúmen e da proteína não degradável no rúmen (PNDR) que chega praticamente intacta ao ID. Para que a utilização desses AA seja eficiente é preciso que tenham perfil semelhante aos incorporados à proteína do leite. A Pmic tem excelente perfil de aminoácidos para síntese de proteínas do leite, mas o perfil da PNDR é bastante variável, pois depende totalmente dos alimentos utilizados no arraçoamento das vacas. Via de regra o perfil de AA da Pmic é melhor que o da PNDR.

Dessa forma, a maximização da síntese de PMic é fundamental para se produzir leite com elevado teor de proteína. Dietas que forneçam de 11 a 13% da MS na forma de proteína degradável no rúmen (PDR), com uma fonte de PNDR de perfil adequado de aminoácidos, que complemente o da PMic, fornecem as condições para maximizar a síntese de proteínas do leite.

Pois bem, mas em termos práticos, como conseguir isso? Para fazer um bom trabalho, alguns conceitos devem estar bem claros para produtores e nutricionistas:

Energia da dieta: a maximização do consumo de energia é fundamental para otimizar o teor de proteína do leite. No entanto, é preciso prestar atenção ao tipo de energia. A chave é o consumo de carboidratos não fibrosos (CNF) de fermentação rápida, que fornecem energia prontamente disponível para os microrganismos ruminais sintetizarem a PMic. Dietas deficientes em energia podem reduzir o teor de proteína do leite em 0,1 a 0,3 unidades percentuais.

Mesmo com a necessidade de maximizar o consumo de CNF, é preciso atender às necessidades de fibra (FDN). As dietas devem conter no mínimo 28-30% de FDN. Maiores detalhes sobre o balanceamento de CNF e fibra podem ser encontrados em artigo anterior publicado neste radar (clique aqui para acessar). Vacas em início de lactação devem receber quantidade maiores de CNF (até 40% da MS) pois precisam minimizar os efeitos do balanço energético negativo desse período.

Proteína da dieta: via de regra, dietas com baixa concentração de proteína resultam em menores teores de proteína no leite. No entanto, fornecer proteína em excesso, além das exigências da vaca, não aumenta a proteína do leite. É preciso fornecer quantidades equilibradas de PDR e PNDR.

Segundo o NRC (2001), tanto a produção de leite, como a produção de proteína do leite serão maximizadas se a quantidade de PDR na ração ficar em torno de 12% da MS total, valor considerado ótimo para a síntese de PMic, desde que o suprimento energético também seja adequado. Também no caso da proteína sugiro a leitura de um artigo anterior, que apresenta mais informações sobre esse tópico (clique aqui para acessar). Como regra geral, de 60 a 65% da proteína da dieta deve ser PDR e 35-40% de vê ser PNDR.

Gordura da dieta: fornecer gordura suplementar é uma ótima forma de aumentar a densidade energética das dietas, mas a gordura fornece energia para a vaca e não para os microorganismos do rúmen. Há trabalhos de pesquisa que mostram até reduções no teor de proteína do leite com o fornecimento de gordura, principalmente se for em excesso.

Dessa forma, é preciso atenção ao utilizar alimentos ricos em gordura, ainda mais se essa gordura for insaturada. Caroço de algodão e soja em grãos são alimentos excelentes, que via de regra contribuem para aumentar a produção de leite e a eficiência alimentar, mas, seu uso deve ser criterioso. Muitas vezes quando se consegue um aumento de produção com o fornecimento desses alimentos, não é raro haver queda no teor de proteína do leite, mas isso normalmente se deve a um efeito de diluição, pelo maior volume de leite, e não a uma redução na síntese de proteína na glândula mamária. Normalmente os ganhos que se tem em produção são economicamente mais interessantes do que as possíveis perdas em proteína com o uso de alimentos ricos em óleo.

Volumosos: esse é o ponto chave para o sucesso de qualquer operação leiteira. É fundamental oferecer às vacas volumosos de alta qualidade para maximizar a produção de leite e de sólidos do leite. Quanto melhor o volumoso, menor a necessidade de inclusão de concentrados.

Quando se trabalha com ração completa, os volumosos são processados, o que contribui para melhorar sua digestibilidade, favorecendo a síntese de proteína do leite. No entanto, forragens muito picadas, com baixa efetividade física, normalmente levam a reduções no teor de gordura do leite. É preciso buscar um equilíbrio entre efetividade de fibra e digestibilidade da forragem.

Quando se trabalha com pasto, a chave do processo é o manejo do pasto, a fim de que as vacas possam colher forragem verde de alta qualidade. A regra de ouro é: quanto melhor o seu volumoso, maior a chance de favorecer o teor de proteína do leite.

A aplicação desses conceitos, que na verdade nada mais são do que os princípios fundamentais da nutrição de vacas leiteiras, é fundamental para se produzir leite com bons teores de proteína. No próximo artigo dessa série vamos discutir um assunto que tem preocupado muitos produtores. Afinal, dá para incluir teores elevados de subprodutos na dieta e manter o teor de proteína do leite? Vamos mostrar que sim. Aguardem o próximo artigo!

ALEXANDRE M. PEDROSO

Engenheiro Agrônomo, Doutor em Ciência Animal e Pastagens, especialista em nutrição de precisão e manejo de bovinos leiteiros

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NEVIO PRIMON DE SIQUEIRA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 20/11/2010

O artigo acima, apesar de escrito já há algum tempo, é cada vez mais oportuno pois o pagamento por sólidos é uma realidade que esta cada vez mais presente no nosso mercado, se não pelo pagamento pela proteina mas na maioria das vezes penalisando os produtores que entregam leite com baixos teores de solidos.

Sem duvida uma dieta adequda é muito util, mas no meu ponto de vista não existe forma mais efetiva de se conseguir aumento de solidos no leite do que uma base genetica voltada para tal fim. Por esse motivo lembro que a raça jersey se mostra uma excelente ferramenta para quem quer aumentar o teor de solidos do leite a médio prazo ou mesmo a curto prazo, com a aquisição de animais dessa raça em produção, com resultados imediatos no leite total do tanque.

Grande abraço Prof. Alexandre,

Névio
LUAN CAMPOS DE MOURA SOUZA

IBERTIOGA - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 09/06/2010

gostaria de saber se dietas com baixo teor de proteina leva a ocorrencia de leite acido?
CARLOS EDUARDO PINTO DOS SANTOS

NATIVIDADE DA SERRA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 07/03/2007

Boa tarde! Gostei muito do artigo, irá me ajudar muito no meu trabalho, pois estou me capacitando para poder servir melhor meu público. Obrigado.
THIAGO LACERDA MAIA

MONTES CLAROS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/08/2006

Este, sem dúvida, é um artigo muito bom! Mas vale lembrar que falando em suplementação de vacas leiteiras, deve-se maximizar a produção de proteína microbiana com a utilização de uréia ou alguma fonte de PDR, pois além de possuir um alto valor biológico, ela é capaz de suprir uma produção de 20 a 25 litros de leite, e que a partir daí deve-se suplementar a PNDR (far. de soja, etc).
CÁCIO RIBEIRO DE PAULA

PIRACANJUBA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 25/07/2006

Gostaria apenas de destacar que fatores de manejo alimentar que maximizem a ingestão de matéria seca e a ruminação (produção de saliva), tais como o conforto, altura de cochos, dentre outros, têm influência direta na multiplicação dos microorganismos do rúmen, e, por conseqüência, na disponibilidade de proteína e gordura para síntese do leite.

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