A pressão por práticas cada vez mais sustentáveis tem moldado os sistemas modernos de produção de leite. O desafio é duplo: aumentar a produção para atender à demanda de mercado e, simultaneamente, minimizar o impacto ambiental, em particular as emissões de gases de efeito estufa.
Como podemos otimizar os dois lados dessa equação?
Neste artigo, abordo os resultados de uma pesquisa que publiquei junto com um time de pesquisadores no Journal of Environmental Management, uma das revistas científicas internacionais mais renomadas na área. Os dados utilizados são provenientes de um painel de 701 fazendas, participantes do programa Educampo-Leite do SEBRAE/MG, observadas entre 2014 e 2021.
Tradicionalmente, a análise de eficiência foca na maximização da produção. Contudo, o conceito de sustentabilidade exige que consideremos também os "subprodutos indesejáveis", como as emissões de gases poluente resultantes do processo produtivo. O setor lácteo brasileiro, por exemplo, contribui com aproximadamente 9% das emissões de gases de efeito estufa do agronegócio, sendo o metano o principal vilão. Portanto, entender como as fazendas podem ser eficientes na produção do "Bom produto" (leite) e na redução do "Mau produto" (emissões de CO2-equivalente) simultaneamente é crucial.
A Abordagem Científica: Um Modelo de "Coprodução"
Para compreender a complexa relação entre o "Bom" e o "Mau" Produto, utilizamos um modelo de fronteira estocástica de "coprodução". Em termos simples, isso significa que não olhamos apenas para a produção de leite, mas também para a geração de emissões, tratando-as como resultados de processos interligados.
A grande inovação desta pesquisa foi modelar a dependência entre a ineficiência na produção de leite e a ineficiência na geração de emissões, bem como entre os choques externos que podem afetar ambos os aspectos. Para isso, foram utilizadas, de forma inédita no setor, ferramentas estatísticas avançadas, como equações em cópulas e estimação bayesiana, que nos permitiram capturar relações complexas e não lineares.
Os Achados Principais
Nossa análise revelou que a produção de leite é predominantemente impulsionada pelos insumos alimentares, o que reforça a importância de uma gestão nutricional eficiente para maximizar a produtividade do rebanho. Por outro lado, as emissões de gases de efeito estufa apresentaram correlação mais forte com o tamanho do rebanho. Embora o custo da alimentação também seja relevante, o número de animais constitui o fator de maior impacto nas emissões.
Um dos achados mais significativos foi a constatação de uma forte dependência entre a ineficiência técnica na produção de leite e a ineficiência ambiental nas emissões. Isso significa que fazendas com alta ineficiência em um desses aspectos tendem a ser ineficientes no outro. Essa correlação sugere que os mesmos fatores gerenciais, como uma alimentação inadequada ou um manejo de rebanho deficiente, afetam negativamente ambos os resultados simultaneamente. Essa interdependência é relevante, pois sugere que ao atacar a ineficiência em uma área, você provavelmente gerará ganhos na outra.
A Figura 1 abaixo ilustra a densidade de ineficiência entre a produção de leite e as emissões. Observe como os pontos se agrupam na parte superior direita, indicando que fazendas com alta ineficiência em um aspecto tendem a apresentar alta ineficiência no outro.
Figura 1 – Distribuição de densidade das ineficiências de produção (eixo horizontal) e emissões de CO2-equivalente (eixo vertical) nos sistemas de produção de leite do programa Educampo.
Além disso, identificamos uma dependência ainda mais forte entre os "ruídos" ou choques externos que afetam a produção e as emissões. Eventos imprevisíveis, como condições climáticas extremas (secas, inundações) ou flutuações de mercado, tendem a impactar simultaneamente a produção de leite e as emissões. Essa vulnerabilidade conjunta a fatores externos ressalta a necessidade de as fazendas desenvolverem e implementarem estratégias de resiliência para mitigar os impactos tanto na eficiência produtiva quanto nas emissões.
A Figura 2 abaixo ilustra a dependência entre os “ruídos” ou choques externos. Eventos aleatórios que afetam um aspecto da produção tendem a impactar o outro de forma igualmente intensa, reforçando a vulnerabilidade conjunta a fatores externos.
Figura 2 – Distribuição de densidade dos ruídos de ineficiências de produção (eixo horizontal) e emissões de CO2-equivalente (eixo vertical) nos sistemas de produção de leite participantes do programa Educampo.
Uma boa notícia é que as fazendas participantes do nosso estudo apresentaram níveis de ineficiência relativamente baixos: em uma escala de 0 a 1, encontramos uma média de 0,066 para a ineficiência técnica e 0,061 para a ineficiência ambiental. Isso indica que, em média, as fazendas analisadas operam com alta eficiência em ambas as dimensões.
Por fim, observamos que a ineficiência na produção de leite demonstrou uma variabilidade ligeiramente maior, sugerindo que ainda existe espaço para otimização nesse quesito em comparação com a redução de emissões.
A Figura 3 abaixo detalha as densidades de ineficiência da produção de leite (azul) e das emissões (verde). Fica claro que, embora ambas sejam baixas, a distribuição da ineficiência do "Bom Produto" (leite) é ligeiramente mais dispersa, indicando oportunidades pontuais de melhoria.
Figura 3 – Distribuição da densidade das ineficiências da produção e emissões de gases de efeito estufa dos sistemas de produção de leite participantes do programa Educampo.
Implicações Práticas
Primeiramente, para aumentar a produção de leite, a otimização do uso dos insumos alimentares é fundamental, exigindo manejo nutricional preciso e eficiente. Paralelamente, para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, a gestão do tamanho e da composição do rebanho é crucial, sendo o controle do número de animais e sua produtividade cruciais.
Em segundo lugar, a forte interconexão observada entre as ineficiências técnica e ambiental significa que abordagens holísticas são mais eficazes. Melhorar o manejo da alimentação e ajustes na estrutura do rebanho, por exemplo, pode trazer benefícios duplos, impactando positivamente tanto a produtividade do leite quanto a pegada de carbono da fazenda.
Em terceiro, mas não menos importante, o alto nível de eficiência verificado nas fazendas que participam do programa Educampo ressalta o papel crucial de programas de assistência técnica e gerencial. Essas iniciativas são essenciais para o fornecimento de ferramentas, conhecimento e suporte necessários para que os produtores atinjam e mantenham altos patamares de eficiência, servindo como um modelo de sucesso para o setor.
Por fim, dada a forte dependência dos "ruídos" ou choques externos, é vital que as fazendas desenvolvam e implementem estratégias para mitigar os impactos de eventos imprevisíveis, sejam eles de natureza climática ou de flutuações de mercado, garantindo maior resiliência e estabilidade à operação.
Perspectivas e o Caminho à Frente
A ciência continua avançando para nos dar ferramentas cada vez mais precisas. Este estudo é mais um passo para compreender as complexas relações de sustentabilidade na pecuária leiteira e para oferecer soluções baseadas em dados concretos. O desafio agora é traduzir esses insights em ações no campo, garantindo que a produção de leite brasileira continue crescendo de forma sustentável e eficiente.
Agradecimentos
Agradeço aos demais autores do texto original: Dr. Ioannis Skevas da University of Macedonia, Grécia; Dr. Everton Vogel da University College Dublin, Irlanda; Dr. Marcelo Dias Paes Ferreira da Universidade Federal de Viçosa, Brasil, e a Caetano Luiz Beber da European Commission, Joint Research Centre, Espanha; Ao SEBRAE/MG e à equipe de coordenação do Programa Educampo-Leite pela cedência dos dados.
Referências bibliográficas
O artigo original pode ser acessado aqui