Como ocorre a formação de clusters na produção de leite?

Cluster significa "aglomerado" ou "grupo". Entenda como é formado na produção de leite, a trajetória de desenvolvimento e as condições para alcançar o sucesso.

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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Neste artigo irei abordar os fundamentos econômicos que levam à formação de clusters de desenvolvimento. O que me motivou a escrever esse artigo, foram dois outros publicados aqui mesmo no MilkPoint. O primeiro deles, do Marcelo Carvalho, intitulado “O 'mistério' da região que cresce a taxas chinesas no leite” e o segundo, do Valter Galan, “A China é aqui (também)!”.

Além de ambos terem ótimos títulos, os autores exploram os porquês de haver regiões no Brasil com crescimentos extraordinários na produção de leite. No primeiro artigo, o autor busca elementos para justificar a solidez da bacia leiteira Centro-oriental do Paraná, que é uma das mais eficientes e desenvolvidas do Brasil. Já no segundo, é analisado o recente desenvolvimento de algumas regiões no Nordeste brasileiro. Portanto, nos dois exemplos estamos falando da formação de clusters na produção de leite. 

Figura 1. Clusters de produção de leite no Brasil, por município, no ano de 2022.

 Clusters de produção de leite no Brasil, por município, no ano de 2022.
Fonte: Dados IBGE e elaboração EMBRAPA-CIleite, 2024.

Outros bons exemplos de clusters econômicos são o Vale do Silício nos Estados Unidos, com uma alta concentração de empresas de tecnologia da informação, e o Rio Grande do Sul, com as regiões produtoras de uva e vinho. 

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A palavra cluster significa "aglomerado" ou "grupo". Na ciência da computação, esse termo se refere a um conjunto de computadores interconectados, que trabalham em conjunto, realizando tarefas complexas e com alta demanda de recursos. É como se esses computadores formassem uma única máquina superpoderosa. 

Desta forma, um cluster econômico é uma concentração geográfica de empresas ou instituições, que possuem atividades relacionadas a um determinado setor da economia e que interagem de forma colaborativa e/ou competitiva. Assim, essa aglomeração gera sinergias e benefícios para outros setores (externalidades positivas), impulsionando a inovação, a produtividade e o crescimento econômico da região.

Mas as perguntas que eu gostaria de abordar são: Como um cluster se forma? Será que existem condições iniciais que definem a trajetória de sucesso de uma região em uma determinada atividade econômica? E a trajetória de desenvolvimento, será que é possível ser modificada?

Vou utilizar o termo econômico de “Path dependence” (dependência de trajetória) para nos ajudar a entender o processo de formação dos clusters e como essas trajetórias são perpetuadas. Esse conceito define que o desenvolvimento econômico e tecnológico de uma região pode ser profundamente influenciado por poucos eventos e pelas decisões históricas, criando trajetórias únicas que moldam o futuro de maneira duradoura e resiliente. Assim, as condições iniciais e as decisões iniciais são fundamentais para gerar uma trajetória de sucesso de uma região. 

Entre as condições iniciais necessárias para a formação de clusters agropecuários, podemos citar aspectos geográficos, como: clima, relevo, disponibilidade hídrica, condições de solo, etc. Além disso, a cultura, os costumes e as regras sociais são também condições iniciais relevantes para determinar uma trajetória de desenvolvimento. Um bom exemplo disso é a cultura cooperativista como condição inicial essencial para a trajetória de sucesso de alguns clusters leiteiros no país. De fato, essas condições iniciais são muito difíceis de serem alteradas para que se possa favorecer ao aparecimento de um novo cluster

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Já as decisões iniciais, dizem respeito às escolhas que são tomadas no sentido de estimular ou não determinada atividade econômica. Aqui, pesam as decisões de políticas e investimentos públicos para o provimento de infraestrutura básica, a fim de tornar uma região atrativa para novos empreendimentos.

Portanto, uma vez que as condições sejam favoráveis e as decisões acertadas, uma região tende a entrar em uma trajetória de desenvolvimento que é muito difícil de ser modificada. Ou seja, o sistema se torna resiliente e autoalimentado pelos seus próprios resultados.

Mais um exemplo para ilustrar como as condições iniciais e as decisões podem influenciar na formação de clusters, lembremos das cidades de Petrolina e Juazeiro, no Vale do São Francisco, com seu cluster de produção de frutas. Lá, a condição inicial de disponibilidade hídrica e as decisões políticas para adoção de irrigação definiram a sua trajetória de sucesso.

A Figura 2 demonstra como um sistema econômico se autoalimenta de seus próprios resultados em favor do crescimento e da consolidação de um cluster. Nessa representação, dada as condições iniciais propícias, uma empresa pioneira, ou um pequeno grupo, tem grandes chances de prosperar. Esse progresso demandará novos insumos e mais fatores de produção, bem como necessidade de novas e maiores formas de comercializar seus produtos. Isso traz novos investimentos e inovações, que por consequência, trazem mais sucesso às empresas.

Figura 2. Modelo de reforço positivo para a formação de clusters econômicos baseado nas condições iniciais e nas decisões de investimento e inovação.

Modelo de reforço positivo para a formação de clusters econômicos baseado nas condições iniciais e nas decisões de investimento e inovação.

Um ponto de atenção nessa análise, é que decisões erradas, em condições iniciais favoráveis, podem levar uma região para um cluster de pobreza e subdesenvolvimento autoalimentados, que da mesma forma, apresentam alta resiliência e são de difícil alteração de trajetórias. Temos como exemplo, o caso da Cracolândia na cidade de São Paulo. 

Por fim, concluo com a reflexão de que decisões sobre políticas públicas que favoreçam à formação e à promoção de clusters precisam estar atentas às condições iniciais regionais, potencializando suas aptidões. Consequentemente, isso traz mais eficiência no uso dos recursos e promove transbordamentos positivos na sociedade.

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Material escrito por:

Andre Rozemberg Peixoto Simões

Andre Rozemberg Peixoto Simões

Zootecnista, Doutor em Economia Aplicada. Professor na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul - UEMS.

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TIMOTHEO SOUZA SILVEIRA
TIMOTHEO SOUZA SILVEIRA

CASTRO - PARANÁ

EM 26/09/2024

A ideia de path dependence mostra que escolhas feitas no início podem definir o futuro de um cluster, seja para o sucesso ou para o fracasso. Um excelente exemplo é a região dos campos gerais. Para avançar, é preciso que governos, empresas e instituições trabalhem juntos, com políticas públicas bem direcionadas.
Andre Rozemberg Peixoto Simões
ANDRE ROZEMBERG PEIXOTO SIMÕES

AQUIDAUANA - MATO GROSSO DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 27/09/2024

Isso mesmo Timotheo, muito bem colocado.
Obrigado pelo comentário.
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