Quem trabalha com a produção de leite sabe que a busca por eficiência e rentabilidade é condição de sobrevivência. Por isso, muitas vezes, a expansão da produção é vista como o caminho natural para o sucesso.
Para analisar essa questão, realizamos uma análise estatística de eficiência baseada em dados de 556 fazendas leiteiras de Minas Gerais, coletados em 2024 pelo programa EDUCAMPO do Sebrae-MG.
Para compreender bem os resultados, é fundamental esclarecer o conceito econômico de Retornos à Escala.
Imaginem a seguinte situação: se dobrarmos o uso de todos os insumos em uma fazenda (como a área de produção de volumoso, o número de vacas, a quantidade de ração, a mão de obra, os equipamentos etc.), o que acontece com a produção de leite?
Se, ao dobrar os insumos, a produção de leite aumentar mais que o dobro, dizemos que a fazenda opera com Retornos Crescentes à Escala. Essa condição foi observada em 52,7% das fazendas analisadas. Embora atuar neste estágio possa parecer a melhor opção, ele indica que a fazenda ainda não atingiu seu ponto de máxima eficiência e está, de certa forma, “deixando dinheiro na mesa”. Isso significa que há um potencial inexplorado para ganhos de eficiência e redução de custos unitários com o aumento do volume produzido.
Quando, ao dobrar os insumos, a produção de leite também dobra exatamente, dizemos que a fazenda está operando com Retornos Constantes à Escala. Esta é a fase mais desejável, pois sugere que a propriedade atingiu uma escala ajustada, onde os recursos são utilizados de forma ideal, permitindo alcançar os custos unitários mínimos. Fazendas neste estágio representaram 18,7% da amostra.
Por outro lado, se ao dobrar os insumos, a produção de leite aumentar menos que o dobro, estamos enfrentando Retornos Decrescentes à Escala. Essa condição, observada em 28,6% das fazendas, indica que o acréscimo de insumos ainda impulsiona a produção, mas com uma eficiência marginal menor, o que pode levar a um aumento nos custos unitários (R$/litro).
Gráfico 1. Distribuição percentual geral dos tipos de retornos à escala
Estes resultados agregados já nos trazem alguns insights, no entanto, a análise fica mais interessante quando segmentamos os retornos à escala em categorias de volume de produção.
Gráfico 2. Proporção dos tipos de retornos por categoria de tamanho da fazenda
No caso das fazendas com produção até 600 litros/dia, o crescimento da escala de produção, de fato, é a melhor opção. Podemos concluir isso observando que 78,6% destas fazendas operam com retornos crescentes e apenas 3,1% com retornos decrescentes. Nesta categoria de tamanho, 18,3% das fazendas possuem uma escala ótima.
A maior parte das propriedades que produzem entre 600 e 1.200 litros/dia (67,7%) demonstra potencial para se beneficiar do aumento de escala, uma vez que se encontram na etapa de retornos crescentes. A parcela de fazendas com retornos decrescentes é um pouco mais expressiva (16,8%) do que nas fazendas menores, sinalizando que algumas fazendas nesse porte já estão se aproximando ou ultrapassando sua escala ideal.
Para as fazendas com volume de 1.200 a 3.600 litros/dia, a proporção com retornos crescentes diminui consideravelmente (42,5%), sugerindo que o potencial de ganhos de escala e a redução de custos unitários começa a se esgotar para muitas delas. Observa-se que 36,8% destas fazendas já operam com alguma ineficiência de escala e podem estar com o custo unitário acima do mínimo possível de ser realizado.
Nas categorias acima de 1.200 litros/dia, observam-se as maiores proporções (20,7% e 20,8%) de fazendas operando na escala ótima, ou seja, com retornos constantes. Isso indica que estas fazendas estão com seus pontos de equilíbrio e volumes ajustados.
Para as fazendas acima de 3.600 litros/dia, a maioria delas (75,3%) está na fase de retornos decrescentes. No entanto, é importante notar que, mesmo atuando nesta fase, o grande volume de produção pode compensar a perda de eficiência na escala e os aumentos de custos unitários, resultando em uma geração de margens e lucros totais (R$/ano) consideráveis.
Em suma, as principais lições que podemos extrair
A estratégia de crescimento de uma fazenda deve ser pautada na sua escala atual e identificar o tipo de retorno à escala pode auxiliar a tomada de decisão sobre investimentos em estrutura e maior uso de insumos.
A análise realizada adiciona um argumento objetivo para o debate acerca da exclusão de pequenas fazendas do setor, considerando que a maioria ainda opera em escala subótima. Esse aspecto é especialmente relevante no contexto nacional, pois a amostra analisada corresponde a fazendas que recebem acompanhamento constante por meio de um programa de assistência técnica e gerencial. Isso sugere que, na média nacional, a situação pode ser ainda mais desafiadora.
Manter uma fazenda na fase de retornos constantes é o objetivo mais desejável, pois este é o estágio que representa a máxima eficiência possível. Crescer além deste ponto reduz a eficiência, porém, se a expansão for feita de maneira equilibrada, os ganhos obtidos com maior volume podem compensar os possíveis aumentos de custos unitários.
A qualidade dos dados do programa EDUCAMPO do SEBRAE-MG permite a realização de análises que vão além das corriqueiramente feitas. Essa qualidade de dados representa um ativo valioso para auxiliar o setor lácteo nacional a crescer de forma mais consistente e sustentável.
Gostou do conteúdo? Deixe seu like e seu comentário, isso nos ajuda a saber que conteúdos são mais interessantes para você. Quer escrever para nós? Clique aqui e veja como!