A busca pela categoria excelente: fornecer mais IgG é a solução?

Fornecer mais IgG no colostro realmente melhora a saúde dos bezerros? Descubra o que dizem os estudos e as recomendações mais atualizadas.

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A produtividade e longevidade das vacas dependem da quantidade de colostro consumido pelos bezerros nas primeiras horas de vida, essencial para a imunidade passiva. Recomenda-se duas refeições de colostro de alta qualidade, totalizando cerca de 300g de IgG. A eficiência da transferência de imunidade foi classificada em categorias, mas a qualidade microbiológica do colostro e o manejo adequado são fundamentais. Estudos indicam que doses elevadas de IgG não prejudicam, mas o foco deve ser em práticas que garantam a saúde e adaptação dos bezerros.

A produtividade e a longevidade das vacas do rebanho são dependentes da quantidade de colostro que estas consomem durante as primeiras horas de vida. Esta é uma afirmação verdadeira e bastante consolidada na literatura. A dependência dos bovinos por um eficiente processo de colostragem se deve as características placentárias das vacas. Devido à baixa ou nenhuma quantidade de anticorpos circulantes logo após o nascimento, os bezerros dependem da imunidade passiva conferida pelas imunoglobulinas maternas encontradas no colostro para protegê-los de infecções até que seu sistema imunológico esteja adequadamente desenvolvido.

Para garantir uma boa colostragem e aumentar as chances de sucesso na transferência de imunidade passiva, a recomendação atualizada por Lombard et al., (2020), é que os bezerros sejam alimentados com duas refeições de colostro, sendo a primeira correspondente a 10% do peso ao nascer dentro das primeiras 2 horas de vida e a segunda com mais 5% do peso ao nascer entre 6 e 8 horas após o nascimento. Ambas as refeições devem ser feitas com colostro de alta qualidade, que é caracterizado por concentração de IgG ≥ 50g/L (ou aproximadamente 22% Brix) e contagem bacteriana inferior a 100.000UFC/mL.

 

Novas recomendações sobre quantidade e qualidade do colostro

As recomendações de colostragem foram atualizadas com o intuito de aumentar a oferta e, portanto, o consumo de IgG, passando de 200g para aproximadamente 300g. A principal justificativa para este aumento é a redução da taxa de morbidade e melhoria no desempenho dos animais, isso por que diversas pesquisas mostraram que níveis mais elevados de IgG circulante estão associados com melhorias na saúde e crescimento, tanto no início da vida como a longo prazo (Lombard et al., 2020; Crannell e Abuelo, 2023; Sutter et al., 2023). Esses benefícios são particularmente importantes para as fêmeas de reposição, uma vez que o crescimento e a saúde durante a fase de aleitamento influenciam significativamente seu potencial futuro de produção e de permanência no rebanho.

 

Classificação dos bezerros e eficiência da transferência de imunidade

Além das novas recomendações de colostragem foi proposta uma nova maneira de avaliar a eficiência do processo de transferência de imunidade passiva. Para tal, Lombard e colaboradores (2020) propuseram que os bezerros fossem distribuídos em 4 categorias de acordo com as leituras de Brix, proteína ou IgG sérica (Tabela 1). Essa nova proposta trouxe consigo diversas vantagens para sistema de produção de bovinos leiteiros, entretanto alguns pontos passaram despercebidos e tem gerado confusão. O principal deles diz respeito a busca pelo aumento no número de animais na categoria “excelente” através somente da alteração da quantidade de IgG ofertada para os bezerros, sem se atentar a outros pontos igualmente importantes.  

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Tabela 1. Categorias propostas de acordo com os níveis de imunoglobulina G, equivalente de proteína sérica total, equivalente para porcentagem de Brix, e porcentagem de bezerros recomendados em cada categoria

Categoria proposta

Concentração de IgG (g/L)

Equivalente de PTS (g/dL)

Equivalente em % de Brix

% de bezerros em cada categoria

Excelente

≥ 25,0

≥ 6,2

≥ 9,4

> 40

Bom

18,0 - 24,9

5,8 – 6,1

8,9 – 9,3

≈30

Regular

10,0 – 17,9

5,1 – 5,7

8,1 – 8,8

≈20

Ruim

< 10,0

< 5,1

< 8,1

< 10

(Adaptado de Lombard et al., 2020)

 

Substitutos de colostro e fatores que afetam a absorção de IgG

Nos últimos anos vem crescendo o número de produtores que utilizam o substituto de colostro como fonte exclusiva de anticorpos para a colostragem ou como alternativa para enriquecer o colostro materno. Ambos os usos são eficientes e uma excelente alternativa para a garantia de adequada colostragem. Entretanto, vale ressaltar que a correlação entre os valores obtidos com os refratômetros de Brix ou de proteína e as concentrações séricas de IgG é baixa quando utilizado o substituto de colostro (Lopez et al., 2021). Isso faz com que muitos produtores estejam obtendo leituras abaixo do ponto de corte classificação na categoria “excelente” e atribuam isso erroneamente apenas a quantidade de IgG ofertada.

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Outro fator que pode estar limitando o alcance de valores mais altos para Brix e/ou proteína sérica é a qualidade microbiológica do colostro utilizado. A elevada contaminação bacteriana no colostro compromete a capacidade dos animais de absorver as imunoglobulinas consumidas. Isso resulta em leituras inferiores nos refratômetros, mas neste caso o gargalo da menor eficiência na transferência de imunidade passiva não está na dose de IgG fornecida e sim na quantidade de microrganismos que são consumidos juntos com essas imunoglobulinas.

A busca pela categoria “excelente” sem considerar estes limitantes gerou uma nova recomendação entre produtores e técnicos, a qual indica o uso de colostros com leituras de Brix acima de 30%. Entretanto os potenciais benefícios do fornecimento de níveis mais elevados de IgG ainda carecem de comprovação científica e pesquisas são necessárias para elucidar seus efeitos.  

 

Efeitos das doses mais altas de IgG na saúde e desempenho dos bezerros

Buscando esclarecer alguns destes pontos, Flynn et al. (2025) conduziram um estudo comparando bezerros que foram alimentados com uma dose de IgG considerada adequada (Brix variando entre 21 e 24%) e uma dose alta de IgG (Brix entre 27 e 36%). Cada um desses grupos era composto por 36 bezerros, os quais receberam colostro materno no volume correspondente a 8,5% do peso ao nascer e com a qualidade correspondente a cada grupo. Além disso, todos os animais receberam 4 refeições de leite de transição, sendo 2,5L em cada fornecimento. Como os bezerros foram alimentados em horários fixos, o momento do nascimento (dia ou noite) determinou se eles receberam uma ou duas refeições com leite de transição nas primeiras 24 horas. Os animais foram monitorados durante o período de aleitamento (0-56d), desaleitamento (56-70d) e no pós-desaleitamento (70-105d).

Os resultados desta pesquisa mostram que ambos os grupos tiveram eficiente transferência de imunidade passiva, apesar da concentração sérica de IgG dos bezerros que receberam doses mais altas de anticorpos ter sido maior. No entanto, a eficiência de absorção caiu de 29,3% para bezerros alimentados com colostro adequado (Brix 21-24%) para 24,9% para aqueles que receberam colostro com Brix entre 27 e 36%.  Aparentemente, existe um efeito de saturação dos sistemas de absorção de IgG quando grandes quantidades são fornecidas por refeição. O consumo final de IgG neste estudo foi de 232,3 g e de 355,9 g para animais alimentados com colostro de Brix adequado (21 a 24%) ou alto (27-36%), respectivamente. Infelizmente esse estudo não reporta a qualidade sanitária/higiênica do colostro fornecido, o que pode ser também um fator negativo na eficiência de absorção de IgG. Outro ponto importante a ser considerado é que nesse estudo o colostro foi 100% materno, não tendo sido utilizado colostro em pó para o enriquecimento e aumento no Brix para a colostragem em nenhum dos grupos avaliados.

O ganho de peso nas primeiras 5 semanas foi superior para os bezerros alimentados com maiores quantidades de IgG. Embora essa diferença no crescimento não tenha persistido durante todo o período de aleitamento e pós-desaleitamento, esse incremento no crescimento inicial é bastante importante, tendo em vista a alta vulnerabilidade destes animais a infecções nessa fase. Nesse período, os anticorpos maternos adquiridos via colostro diminuem rapidamente, enquanto o sistema imunológico dos bezerros ainda não está plenamente desenvolvido, caracterizando uma importante janela imunológica nesta fase.

O escore de saúde geral dos bezerros ao longo do estudo foi considerado bom e não foi influenciado pela quantidade de IgG que os animais consumiram. Isso por que apesar da diferença o valor de IgG sérico, em ambos os grupos foram alcançados níveis suficientes de transferência de imunidade passiva. Esse resultado difere de outros trabalhos publicados anteriormente em que bezerros das categorias “bom” ou “razoável” de transferência de imunidade passiva apresentaram maior risco para pneumonia, diarreia e morbidade geral em comparação com aqueles da categoria “excelente” (Crannell e Abeulo, 2023; Sutter et al., 2023). Todavia, uma limitação do trabalho de Flynn e colaboradores (2025) pode ser o reduzido número de animais para que se consiga tirar conclusões confiáveis com relação a parâmetros de saúde.

Apesar desta limitação os autores identificaram que a probabilidade de os bezerros apresentarem problemas associados a saúde e o uso de antimicrobiano foram maiores no período de desaleitamento e pós-desaleitamento quando comparado com a fase de aleitamento. De maneira semelhante, o escore fecal não foi influenciado pela qualidade do colostro ofertado, mas sim pelo número de refeições com leite de transição que o bezerro recebia nas primeiras 24 horas de vida. Bezerros que receberam 2 refeições com leite de transição no primeiro dia de vida, tiveram menor probabilidade de apresentar escore fecal ≥ 2, ou seja, fezes mais fluidas.

Esse efeito positivo do fornecimento de leite de transição foi reforçado quando os pesquisadores relataram que bezerros alimentados com colostro de qualidade considerada adequada e duas refeições com leite de transição nas primeiras 24 horas de vida tiveram menor probabilidade de apresentarem escore fecal ≥ 2, quando comparados com aqueles alimentados com colostro contendo maior concentração de IgG, mas recebendo apenas uma dose de leite de transição no mesmo período. Estes benefícios do fornecimento de leite de transição podem estar atrelados ao favorecimento da transferência de imunidade passiva e/ou a efeitos de proteção local dos compostos do colostro no intestino (Kargar et al., 2021). Apesar destes indícios, os reais efeitos do fornecimento de leite de transição ainda não estão totalmente esclarecidos e novas pesquisas são necessárias para identificar os mecanismos envolvidos.

 

Estratégias de manejo para otimizar a colostragem e a saúde dos bezerros

Com base nos resultados deste trabalho podem ser feitas algumas inferências, principalmente relacionadas com o uso estratégico do colostro disponível nas fazendas. Se o volume e a qualidade do colostro produzido forem suficientes e não um limitante ou fonte de novos gastos dentro da propriedade, fornecer doses superiores de IgG não causará prejuízo aos animais e pode levar a alguns benefícios. No entanto, se há necessidade de fornecimento de substituto de colostro e/ou enriquecimento do colostro, não há dados que justifiquem o fornecimento de doses de IgG superiores aquelas recomendadas para a colostragem.

Pode ser muito mais vantajoso, utilizar esse colostro excedente e/ou substituto de colostro para garantir o fornecimento de leite de transição através da sua mistura com leite. Isso é importante em situações em que não há possibilidade de coleta. Apesar da ausência de um consenso a respeito do melhor protocolo de fornecimento do leite de transição (quantidade, qualidade e número de refeições indicadas), seu uso vem sendo recomendado e seus benefícios investigados.

Outra alternativa que vem sendo discutida é o fornecimento de colostro aos bezerros em momentos de desafio sanitário e/ou de estresse (por exemplo, no desaleitamento), como já reportado por Renaud e Steele (2025) e discutido em outro artigo publicado nesta mesma plataforma recentemente. Flynn et al. (2025) destacaram que os maiores problemas de saúde e necessidade de tratamentos ocorrem justamente no desaleitamento e pós-desaleitamento, o que sugere que o uso de doses excedentes de IgG nesse período pode ser uma estratégia relevante de suporte imunológico.  

Em síntese, o fornecimento de doses mais elevadas de IgG não acarreta prejuízos aos bezerros, desde que a disponibilidade desse recurso não seja um fator limitante na fazenda.  Contudo, tão importante quanto assegurar níveis adequados de imunoglobulinas é estar atento aos demais aspectos associados ao recém-nascido e ao favorecimento de sua adaptação, saúde e desempenho durante o início da vida.  

Garantir adequado local de nascimento, redobrar a atenção com a cura de umbigo, fornecimento de colostro o mais rápido possível, controle da qualidade microbiológica do colostro, ofertar leite de transição, manejo adequado no período de aleitamento e desaleitamento são exemplos de manejos igualmente determinantes para o sucesso na criação de bezerros. Esses cuidados, quando somados, podem trazer efeitos igualmente ou até mais favoráveis para a saúde, desempenho e longevidade dos animais do que simplesmente elevar, de forma isolada, a quantidade de IgG fornecida.

Referências bibliográficas

LOMBARD, J. et al. Consensus recommendations on calf-and herd-level passive immunity in dairy calves in the United States. Journal of Dairy Science, v. 103, n. 8, p. 7611-7624, 2020.

CRANNELL, P.; ABUELO, A. Comparison of calf morbidity, mortality, and future performance across categories of passive immunity: A retrospective cohort study in a dairy herd. Journal of dairy science, v. 106, n. 4, p. 2729-2738, 2023.

SUTTER, F. et al. Association between transfer of passive immunity, health, and performance of female dairy calves from birth to weaning. Journal of Dairy Science, v. 106, n. 10, p. 7043-7055, 2023.

LOPEZ, A. J. et al. Hot topic: Accuracy of refractometry as an indirect method to measure failed transfer of passive immunity in dairy calves fed colostrum replacer and maternal colostrum. Journal of Dairy Science, v. 104, n. 2, p. 2032-2039, 2021.

FLYNN, A. et al. The effects of offering adequate-quality or high-quality colostrum on the passive immunity, health, growth, and fecal microbiome development of dairy heifer calves. Journal of Dairy Science, v. 108, n. 6, p. 6254-6272, 2025.

KARGAR, S. et al. Extended transition milk feeding for 3 weeks improves growth performance and reduces the susceptibility to diarrhea in newborn female Holstein calves. Animal, v. 15, n. 3, p. 100151, 2021.

RENAUD, D. L.; STEELE, M. A. What can't colostrum do? Exploring the effects of supplementing colostrum after the first day of life: A narrative review. JDS communications, v. 6, n. 3, p. 469-473, 2025.

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Material escrito por:

Cristiane Tomaluski

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Carla Maris Machado Bittar

Carla Maris Machado Bittar

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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