Quando a cetona aparece no visor

O que o ß-hidroxibutirato pode - e não pode - dizer no campo?

Publicado em: - 8 minutos de leitura

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O ß-hidroxibutirato (BHB) é uma ferramenta diagnóstica que auxilia na identificação de distúrbios metabólicos, como a cetose em vacas leiteiras, especialmente após o parto. A mensuração do BHB deve ser interpretada em conjunto com o histórico do animal e outros fatores, pois um número isolado não define um diagnóstico. A hipercetonemia pode ocorrer sem sinais clínicos, exigindo investigação sobre as causas subjacentes. É essencial que o veterinário questione o contexto do resultado para melhorar a tomada de decisões no manejo do rebanho.
O que o β-hidroxibutirato pode — e não pode — dizer no campo? Na rotina de campo, alguns sinais clínicos conduzem rapidamente o raciocínio para determinada hipótese: redução do consumo, queda na produção, perda de condição corporal e uma vaca nos primeiros dias após o parto podem fazer com que a primeira suspeita seja um distúrbio metabólico, especialmente a cetose. Mas o que acontece quando, em vez de apenas observar os sinais, o médico-veterinário transforma essa suspeita em um dado mensurável?

É nesse momento que uma ferramenta simples pode ganhar valor diagnóstico. Não porque um único número seja capaz de fechar um diagnóstico, mas porque ele pode obrigar o profissional a rever, confirmar ou ampliar a primeira hipótese. Esse é o ponto central deste caso.

A proposta não é transformar o β-hidroxibutirato (BHB) em diagnóstico definitivo. É mostrar como uma mensuração simples, quando interpretada junto ao histórico, fase da lactação, consumo, exame clínico e manejo, pode mudar o caminho da investigação. O BHB é uma informação. Quem transforma esse número em informação clínica é o médico veterinário

Quando a cetona conta uma história

O período logo após o parto representa uma importante mudança metabólica para a vaca leiteira. A demanda de nutrientes aumenta com o início da produção de leite, enquanto o consumo de matéria seca pode não acompanhar imediatamente essa necessidade. Nesse período, a vaca entra em balanço energético negativo e mobiliza reservas corporais. Parte dos ácidos graxos mobilizados chega ao fígado e pode ser direcionada à formação de corpos cetônicos, entre eles o β-hidroxibutirato.

O aumento do BHB pode, portanto, refletir uma dificuldade de adaptação metabólica durante o início da lactação. A hipercetonemia é particularmente frequente nesse período e está associada a impactos sobre a saúde e o desempenho das vacas. Mas existe um detalhe fundamental: o  BHB elevado não conta, sozinho, toda a história. 

O caso: quando o visor apresenta 5,0

Durante um atendimento de campo, foi realizada a mensuração de β-hidroxibutirato sanguíneo em uma vaca utilizando equipamento portátil. O resultado encontrado foi: BHB = 5,0 mmol/L. 

Figura 1. Mensuração de β-hidroxibutirato sanguíneo durante atendimento de campo, com resultado observado de 5,0 mmol/L. Fonte: arquivo pessoal do autor.

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Nesse momento, o dado mais importante não é simplesmente o valor encontrado. É a pergunta que esse resultado provoca. Concentrações sanguíneas de BHB a partir de aproximadamente 1,2 mmol/L são amplamente utilizadas para identificar hipercetonemia em vacas leiteiras. Portanto, um resultado de 5,0 mmol/L representa uma alteração metabólica importante. Mas antes de transformar o número em diagnóstico, talvez seja necessário perguntar:

O que esse resultado está dizendo sobre esta vaca? Antes de interpretar o número, interprete a vaca Um resultado de BHB não existe isoladamente. Ele pertence a um animal. E esse animal tem uma história. Por isso, diante de um resultado elevado, é importante investigar:

  • quantos dias pós-parto a vaca apresenta;
  • como está o consumo;
  • como está a produção;
  • qual é o escore corporal;
  • houve perda importante de condição;
  • como foi o parto;
  • houve alguma doença no período de transição;
  • houve mudança na dieta;
  • existem outras vacas com resultados semelhantes.

A hipercetonemia é particularmente importante nas primeiras semanas de lactação, período em que sua ocorrência é maior. Por isso, o mesmo número precisa ser interpretado dentro da história do animal.

5,0 mmol/L é cetose?

Essa parece ser uma pergunta simples. Mas é justamente aqui que o raciocínio clínico precisa ser cuidadoso. O BHB é um marcador de hipercetonemia. A presença de sinais clínicos ajuda a caracterizar a manifestação clínica do distúrbio. Uma vaca pode apresentar concentração elevada de BHB sem sinais clínicos evidentes. Por isso: BHB elevado é um achado bioquímico. Hipercetonemia pode ocorrer sem sinais clínicos, enquanto a cetose clínica envolve manifestação clínica compatível. Cetose é uma condição clínica que precisa ser interpretada dentro do contexto do animal. Essa diferença parece apenas conceitual. No campo, ela muda o raciocínio. O número não conhece a história da vaca

O equipamento consegue responder: “qual é a concentração de BHB nesta amostra?”

Mas ele não consegue responder:

  • por que a vaca reduziu o consumo;
  • quando o problema começou;
  • se existe outra doença;
  • como está a dieta;
  • como foi o período de transição;
  • se o problema é individual ou do lote.

Ele mede BHB. Quem interpreta o resultado é o médico-veterinário. Essa lógica é semelhante à interpretação do pH ruminal. No caso anterior, um pH de 7,6 não permitia concluir sozinho a causa do quadro. O valor ganhou importância justamente porque contrariava a primeira hipótese e obrigava o profissional a rever o raciocínio. Com o BHB, a lógica é semelhante. O número não encerra a investigação. Ele muda a investigação.

Quando a cetona pode ser parte de outra história

Uma vaca pode apresentar hipercetonemia porque não conseguiu acompanhar metabolicamente a demanda do início da lactação. Mas por que isso aconteceu? Essa é uma pergunta diferente. Uma redução do consumo pode estar relacionada ao manejo, à alimentação, ao conforto ou a doenças do período de transição.

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A hipercetonemia também está associada a maior risco de alguns problemas no pós-parto. Em estudo com vacas no início da lactação, concentrações de BHB ≥1,2 mmol/L na primeira semana pós-parto estiveram associadas a maior risco de deslocamento de abomaso e metrite, além de menor produção de leite. Por isso, quando o BHB está elevado, não basta procurar a cetose. É preciso procurar o que está acontecendo com a vaca que favoreceu aquele resultado.

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Em vez de perguntar apenas: “qual tratamento faço para esse número?”, talvez seja mais importante perguntar: “o que está acontecendo com essa vaca para que esse número esteja elevado?” E quando várias vacas apresentam o mesmo resultado? Aqui, uma ferramenta individual pode se transformar em uma ferramenta de gestão. Uma vaca com BHB elevado merece atenção. Mas várias vacas apresentando hipercetonemia no mesmo período pós-parto podem estar mostrando outra coisa.

Nesse momento, a pergunta muda: “o problema está na vaca ou no sistema?” É necessário revisar:

  • consumo de matéria seca;
  • disponibilidade de alimento;
  • competição no cocho;
  • seleção da dieta;
  • adaptação alimentar;
  • condição corporal ao parto;
  • conforto;
  • manejo das vacas recém-paridas.

O BHB deixa, então, de ser apenas um resultado individual. Ele passa a ser um indicador do rebanho.

Antes de confiar no número, confira a mensuração

Uma ferramenta simples também exige cuidado na obtenção do dado. Equipamentos portáteis podem ser utilizados na rotina de campo para mensuração de BHB. Estudos específicos avaliaram o uso de medidores portáteis para detectar hipercetonemia em vacas leiteiras. Diante de um resultado inesperado, vale perguntar:

  • o equipamento é adequado para bovinos?
  • a tira está dentro da validade?
  • foi armazenada corretamente?
  • a coleta foi realizada adequadamente?
  • o resultado é compatível com o quadro clínico?
  • é necessário repetir a mensuração?

O número 5,0 é importante. Mas a qualidade da informação que produziu o 5,0 também é.

Como transformar o BHB em ferramenta de campo

Um roteiro simples pode ajudar:

1.Comece pelo histórico. Quantos dias pós-parto? O que mudou?

2. Avalie o consumo. A vaca realmente está comendo?

3. Examine o animal. Existem sinais de outras doenças?

4. Meça o BHB. Transforme a suspeita em dado objetivo.

5. Confira a qualidade da mensuração. Equipamento, tira, amostra e procedimento.

6. Interprete o resultado. O número é compatível com a história?

7. Observe o rebanho. Existem outros animais com alteração?

8. Se vários animais estiverem alterados, investigue o sistema.

O objetivo não é simplesmente encontrar vacas com BHB elevado. É entender por que elas estão apresentando esse resultado.

O que esse caso ensina?

Talvez a principal lição não esteja no número 5,0. Está no que esse número provoca no raciocínio clínico. A suspeita inicial pode ser cetose. A mensuração mostra uma alteração metabólica importante. Mas o resultado não encerra a investigação.

Ele abre novas perguntas:

  • Quanto essa vaca está comendo?
  • Quantos dias pós-parto ela tem?
  • Como foi sua transição?
  • Existe outra doença?
  • Como está seu escore corporal?
  • Existem outras vacas com o mesmo padrão?
  • O problema é individual ou do sistema?

É assim que uma ferramenta simples de campo ganha valor. Ela não precisa fornecer imediatamente todas as respostas. Ela precisa ajudar o profissional a fazer perguntas melhores.

Uma pergunta antes de tratar

Quando o visor apresenta: 5,0 mmol/L, a primeira reação pode ser: “a vaca está com cetose.” Mas talvez a pergunta mais importante seja: “o que fez essa vaca chegar a 5,0 mmol/L?” Essa pergunta muda o caminho da investigação. Porque o BHB pode estar mostrando apenas a parte visível de uma alteração que começou antes. O consumo; A transição; O balanço energético; A doença concomitante; O manejo ou uma combinação desses fatores.

Mensagem para levar ao campo

Quando uma vaca apresenta alteração no início da lactação, não transforme imediatamente o sinal em diagnóstico.

  • O que mudou no consumo?
  • Quantos dias pós-parto ela tem?
  • Como foi a transição?
  • Como está a condição corporal?
  • Existe outra doença?
  • O BHB foi realmente medido de forma adequada?
  • O resultado sustenta a hipótese inicial?
  • Existem outras vacas com o mesmo padrão?

E, principalmente:

Estamos tratando a doença que a vaca realmente apresenta ou apenas tratando o número que apareceu no visor? No campo, experiência é fundamental. Mas quando conseguimos transformar uma suspeita metabólica em um dado mensurável, ganhamos uma ferramenta poderosa para tomar decisões melhores. O valor do β-hidroxibutirato não está apenas no número que aparece no aparelho.

Está na capacidade desse número de fazer o profissional parar, questionar e investigar novamente. Porque, antes de tratar uma hipótese, vale a pena perguntar à vaca: “o que aconteceu para você chegar até aqui?”

Referências bibliográficas

BENEDET, A.; MANUELIAN, C. L.; ZIDI, A.; PENASA, M.; DE MARCHI, M. Invited review: β-hydroxybutyrate concentration in blood and milk and its associations with cow performance. Animal, v. 13, n. 8, p. 1676–1689, 2019. DOI: 10.1017/S175173111900034X.

DUFFIELD, T. F.; LISSEMORE, K. D.; MCBRIDE, B. W.; LESLIE, K. E. Impact of hyperketonemia in early lactation dairy cows on health and production. Journal of Dairy Science, v. 92, n. 2, p. 571–580, 2009. DOI: 10.3168/jds.2008-1507.

SÜSS, D.; DRILLICH, M.; KLEIN-JÖBSTL, D.; et al. Measurement of β-hydroxybutyrate in capillary blood obtained from an ear to detect hyperketonemia in dairy cows by using an electronic handheld device. Journal of Dairy Science, v. 99, n. 9, p. 7362–7369, 2016. DOI: 10.3168/jds.2016-10911.

McART, J. A. A. Hyperketonemia in Cattle. Merck Veterinary Manual. Revisado em 2024.

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Material escrito por:

Leonardo Freire Quintanilha

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