O enxofre do DDGS e sua interferência na qualidade do leite

Excesso de enxofre no DDGS pode prejudicar a produção e alterar a qualidade do leite. Veja os níveis seguros e como ajustar a dieta das vacas.

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O DDGS, co-produto da produção de etanol, é rico em proteínas, mas apresenta altos níveis de enxofre (0,3% a 1,0% da matéria seca), que podem impactar negativamente a saúde animal e a qualidade do leite. Níveis acima de 0,5% podem causar odor indesejado e aumento de células somáticas. A recomendação é não exceder 0,4% de enxofre na dieta de ruminantes e monitorar a qualidade do leite, especialmente em dietas com enxofre entre 0,5% e 0,6%.

O DDGS é um co-produto da produção de etanol, cada vez mais utilizado na alimentação de ruminantes por seu alto valor protéico e energético (MELLOW et al., 2012). No entanto, apresenta teor elevado de enxofre, variando entre 0,3 % e 1,0 % da matéria seca—podendo ultrapassar 1,5 % dependendo do processo (LIN et al., 2012; CUNHA et al., 2020).

O enxofre em excesso na dieta ruminal pode elevar a concentração de sulfeto de hidrogênio (H²S), com impacto negativo sobre a saúde animal (acidose, polioencefalomalácia) e possíveis alterações no leite (sabor, odor e composição). O objetivo deste artigo é examinar se o enxofre presente no DDGS interfere na qualidade do leite, com base em dados clínicos e experimentais recentes.

 

Composição do DDGS e metabolismo do enxofre em ruminantes

Estudos demonstram que o DDGS contém altos níveis de enxofre devido ao uso de ácido sulfúrico durante o processo de produção de etanol (LIN et al., 2012); teor médio relatado de 0,8 %-1,2 % da matéria seca, mas pode variar conforme tecnologia empregada (CUNHA et al., 2020).

No rúmen, microrganismos convertem sulfatos presentes na dieta em sulfeto de hidrogênio (H²S). Em altas concentrações, o H²S pode reduzir a eficiência ruminal e causar distúrbios neurológicos como a polioencefalomalácia (SMITH; JOHNSON, 2015).

 

Efeitos do enxofre na produção e composição do leite

Alguns estudos indicam que níveis moderados de enxofre (0,2 % a 0,4 % da dieta seca) não afetam negativamente a produção de leite ou sua composição (gordura, proteína) (RODRIGUES; ALMEIDA, 2017).

Contudo, níveis acima de 0,5 % podem associar-se a aumento de H²S no leite, gerando odor sulfurado perceptível e rejeição do consumidor (GOMES et al., 2019).

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Ainda, há evidências de que a severa acidose ruminal induzida por excesso de enxofre pode elevar contagem de células somáticas (CCS) e predispor mastite subclínica (PEREIRA et al., 2021).

 

Riscos e níveis tóxicos de enxofre

A National Research Council (2001) recomenda não exceder 0,3 %-0,4 % de enxofre na matéria seca de dietas para ruminantes. Superar 0,6 % aumenta risco de intoxicação por sulfeto de hidrogênio, prejudicando produção e qualidade do leite (NRC, 2001; SMITH; JOHNSON, 2015).,

Quanto a limites seguros:

Tabela 1. Efeitos do nível de enxofre na dieta de vacas leiteiras sobre a qualidade do leite

Nível de enxofre na dieta (% MS)

Efeito observado

≤ 0,4 %

Sem alteração significativa na produção e composição do leite

0,5 – 0,6 %

Possível aumento de H²S no leite, aroma comprometido

> 0,6 %

Maiores riscos de acidose ruminal, CCS elevado, impacto negativo no leite

Fonte: Adaptado de NRC (2001), Smith & Johnson (2015), Gomes et al. (2019), Pereira et al. (2021).

Portanto, quando bem manejado, o DDGS pode compor até 20–25 % da ração total sem prejudicar a qualidade do leite, desde que o enxofre total permaneça abaixo de 0,4 % da matéria seca. Dietas com teor entre 0,5 % e 0,6 % devem ser avaliadas com cautela — há relatos de odor indesejado e alterações de CCS (GOMES et al., 2019). Acima de 0,6 %, há riscos comprovados de distúrbios metabólicos e queda da qualidade leiteira (SMITH; JOHNSON, 2015; PEREIRA et al., 2021).

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Ainda, o monitoramento sensorial e laboratorial do leite (detecção de sulfeto de hidrogênio, prova do odor, análise de CCS) é essencial para diagnosticar precocemente alterações.

 

Conclusão

O enxofre presente no DDGS pode interferir na qualidade do leite quando as concentrações na dieta ultrapassam aproximadamente 0,5 % da matéria seca. Abaixo desse limiar, não se observam efeitos adversos relevantes. Assim, recomenda-se:

  • Análise do teor de enxofre no DDGS e na dieta completa antes de sua inclusão.
  • Limitar o conteúdo total de enxofre a, no máximo, 0,4 % da matéria seca, para maior segurança.
  • Monitorar a qualidade do leite, sobretudo em termos de odor e CCS, em dietas com enxofre entre 0,5 % e 0,6 %.
  • Evitar dietas com excesso de enxofre (> 0,6 %), salvo sob recomendação técnica, devido ao risco de toxicidade e comprometimento da produção leiteira e saúde animal.
  • Investigar continuamente o DDGS de diferentes origens, pois o processo produtivo pode alterar substancialmente o teor de enxofre.

Referências bibliográficas

CUNHA, R. L. et al. Teor de enxofre no DDGS e seus impactos na saúde de vacas leiteiras. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 49, n. 3, p. e2020-0100, 2020.

GOMES, A. F.; SILVA, P. R.; SOUZA, M. J. Impacto do sulfeto de hidrogênio no odor do leite: avaliação sensorial. Pesquisa Agropecuária Tropical, v. 49, n. 2, p. 145-152, 2019.

LIN, X.; COWLING, W. A.; FROST, J. P. Levels of sulfur in distillers dried grains with solubles and risk assessment for ruminant feeding. Journal of Animal Science, v. 90, n. 7, p. 2357-2364, 2012.

MELLOW, P. L.; BROWN, R. E.; LEE, C. Nutritional evaluation of DDGS in diets for dairy cows. Animal Feed Science and Technology, v. 172, n. 3-4, p. 199-208, 2012.

NATIONAL RESEARCH COUNCIL (NRC). Nutrient Requirements of Dairy Cattle. 7. ed. Washington: National Academy Press, 2001.

PEREIRA, T. S. et al. Relação entre excesso de enxofre na dieta e CCS em vacas lactantes. Acta Veterinária Brasil, v. 15, n. 4, p. 301-309, 2021.

RODRIGUES, L. F.; ALMEIDA, E. S. Efeito de níveis moderados de enxofre na composição do leite. Ruminantes & Leite, v. 10, n. 1, p. 32-38, 2017.

SMITH, D. R.; JOHNSON, O. A. Sulfur toxicity in ruminants: mechanisms and prevention. Veterinary Clinics of North America: Food Animal Practice, v. 31, n. 2, p. 239-253, 2015.

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Material escrito por:

Keniston Freitas de Souza Cruvinel

Keniston Freitas de Souza Cruvinel

Mestrando do curso de Pós-Graduação em Zootecnia, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Goiano Campus Rio Verde

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Eberton Carlos de Jesus

Eberton Carlos de Jesus

Mestrando do curso de Pós-Graduação em Zootecnia, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Goiano Campus Rio Verde

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